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Dia a Dia

Planta da Amazônia que combate obesidade e diabetes pode desaparecer

21 de março de 2022 Dia a Dia
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Aenigmanu alvareziae corre risco de extinção (Foto: Patrícia Álvarez-Loyaza/Divulgação)
Aenigmanu alvareziae corre risco de extinção (Foto: Patrícia Álvarez-Loyaza/Divulgação)
Por Ana Bottallo, da Folhapress

SÃO PAULO – Um potencial agente microbiano de origem vegetal. A propriedade de reduzir o acúmulo de gordura ao redor do fígado e combater obesidade e diabetes.

É isso que plantas da Amazônia brasileira, recém-descobertas, podem trazer para a medicina, além de serem fundamentais para a biodiversidade e preservação dos ecossistemas. Essas propriedades, no entanto, estão ameaçadas pelo iminente risco de extinção.

A primeira espécie, batizada de Aenigmanu alvareziae, encontrada no oeste da Amazônia, permaneceu mais de 50 anos em uma gaveta na coleção botânica do Field Museum, em Chicago, até que cientistas finalmente pudessem descobrir a qual grupo pertencia.

O botânico e curador emérito do Jardim Botânico de Nova York, William Wayt Thomas, conta que tudo começou em 1973, durante uma expedição do museu de Chicago à Amazônia peruana, na região que hoje abriga o Parque Nacional de Manu, em Madre de Díos, liderada pelo ecólogo Robert Foster.

Foster coletou frutos e folhas da planta e, de volta ao museu, consultou especialistas, mas eles não conseguiram determinar a qual grupo pertencia a planta, tampouco classificá-la como uma espécie nova. Foi só com o advento da biologia molecular que os pesquisadores puderam desvendar sua classificação, publicada na revista científica especializada Taxon.

A planta misteriosa ou, como diz o gênero, “o enigma de Manu”, pertence à família Picramniacea, composta por 53 espécies de árvores de pequeno porte, com distribuição neotropical (nas Américas) e pouco conhecidas. O nome da espécie, “alvareziae”, é em homenagem à bióloga Patricia Álvarez-Loayza, que providenciou novos espécimes a partir dos quais foi possível extrair o material genético para a análise filogenética.

Thomas é um dos únicos especialistas do grupo em todo o mundo – o outro é o botânico brasileiro e professor titular do Instituto de Biociências da USP, José Rubens Pirani. “Quando avistei a planta pela primeira vez nem cheguei a pensar que era uma picramniácea, porque as folhas são muito diferentes, elas são únicas (simples), enquanto nas outras espécies do grupo elas são divididas (compostas)”, disse o botânico americano em entrevista à Folha em outubro.

No artigo, os pesquisadores descrevem quatro áreas de ocorrência da espécie: três no norte do Peru, em uma área de afluência do rio Madeira, e uma área próxima ao município Cruzeiro do Sul, no Acre.

Uma das dificuldades de estudar essa e outras espécies do grupo é sua característica críptica – as flores são diminutas e, como as árvores não são tão altas, é difícil avistá-las na mata. “Como as flores são muito pequenas, estudar a partir de técnicas tradicionais, como a morfologia, é limitado, por isso a análise com DNA foi determinante”, explicou Pirani, que foi um dos revisores do artigo.

Ele explica que organismos com áreas de distribuição reduzida, como é o caso das espécies do grupo, estão mais suscetíveis à extinção por mudanças no ambiente. “Embora a destruição do habitat em geral afete todos os organismos, para aqueles que têm populações menores, ou são mais raros, o risco de desaparecimento é maior”, disse, completando que a área restrita de A. alvareziae, especialmente no Brasil, pode colocar a espécie em risco.

É o mesmo fenômeno que ameaça outra planta amazônica descrita recentemente e que já tem duas populações com risco de desaparecer. A espécie Tovomita cornuta, da família Clusiacea, ocorre em quatro áreas que sofrem pressões ambientais no estado do Amazonas, segundo o ecólogo do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e primeiro autor do estudo, Layon Oreste Demarchi.

Demarchi realizou campanhas mensais em áreas da reserva de uso sustentável Uatumã, no município de São Sebastião do Uatumã (AM), e conseguiu coletar diversos exemplares da planta com flores e frutos, essenciais para os estudos taxonômicos. “Comparei então com outros exemplares do herbário do Inpa e demais coleções digitalizadas, além de pedir ajuda ao coautor do estudo Lucas Marinho, especialista no gênero, que disse que era provavelmente uma espécie nova”, relata.

Como a espécie ocorre nas chamadas campinaranas, que são áreas distintas no meio da floresta amazônica, semelhantes a uma mata de restinga, com solo muito pobre em nutrientes e arenoso, a extração ilegal de areia em duas áreas de distribuição da planta próximas ao município de Manaus provavelmente já levaram ao desaparecimento da espécie no local.

“Por serem áreas sujeitas a uma condição climática distinta, as espécies ali encontradas evoluíram adaptações especializadas a esse tipo de ambiente, sendo muitas vezes endêmicas [só ocorrem ali]. Por esse contexto e por serem conhecidas só quatro populações, ela já pode ser considerada em risco de extinção”, completa o ecólogo.

E quais as relações com o potencial farmacológico das espécies? As plantas da família Picramniacea, em especial do gênero Picramnia, possuem usos medicinais conhecidos, embora ainda sejam ligados ao uso tradicional, não sendo ainda utilizados na produção de medicamentos. Em testes em animais em laboratório, foram encontrados resultados positivos na redução de gordura ao redor do fígado, com potencial uso para prevenção de obesidade ligada a doenças metabólicas.

Já a Tovomita possui propriedades microbianas. As descobertas, em ambos os casos, levaram anos até serem apresentadas formalmente à ciência. Pesquisas desse tipo mostram a importância do investimento contínuo em pesquisa básica, que busca entender questões ligadas à origem e às relações dos organismos na natureza.

“Tive a sorte de ter investimento contínuo, senão não teria conseguido fazer o [trabalho de] campo e encontrar tantos exemplares”, explica Demarchi. “Nesse ponto preciso agradecer ao CNPq e ao Inpa, mas infelizmente, com os cortes recentes em ciência no país, sei que pesquisas como essa serão cada vez mais difíceis”, diz.

No caso de Thomas, o projeto binacional Flora Amazônica, parceria do Inpa com o jardim botânico de NY, proporcionou mais de 25 expedições na maior floresta brasileira por oito anos entre 1980 e 1990, com a coleta de quase 33 mil exemplares. “É sabido que as matas tropicais são muito diversas, mas a única forma de descobrir isso é investigando, indo ao campo coletar e depois descrevendo as espécies encontradas e suas áreas de ocorrência. Tais dados são fundamentais para a conservação”, completa.

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Assuntos Aenigmanu alvareziae, Amazônia, Field Museum
Cleber Oliveira 21 de março de 2022
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