
Por Valmir Lima*, do ATUAL
SÃO PAULO – O Observatório Itaú Cultural lançou nesta segunda-feira (10) plataforma inédita de mensuração do PIB (Produto Interno Bruto) da Ecic (Economia da Cultura e das Indústrias Criativas) no Brasil. O novo indicador aponta que o segmento respondeu por 3,11% das riquezas geradas no país em 2020, o que equivale a R$ 230,14 bilhões dos R$ 7,4 trilhões movimentados pela economia no período.
Para se ter uma ideia da magnitude da participação, em 2020 o setor automotivo respondeu por 2,1% do PIB (dado IBGE), um ponto percentual a menos que a cultura e as indústrias criativas no mesmo intervalo.
De acordo com os dados do PIB do Observatório Itaú Cultural, em 2020 existiam mais de 130 mil empresas de cultura e indústrias criativas em atividade no país.

Em relação ao mercado de trabalho, a cultura e a economia criativa responderam por 7,4 milhões dos empregos formais e informais no Brasil em 2022 (dados do quarto trimestre), o que equivale a 7% do total dos trabalhadores da economia brasileira.
O número é 4% maior que o verificado em 2021, quando o setor foi duramente impactado pela pandemia de Covid-19. Só no ano passado, a cultura e a economia criativa geraram 308,7 mil novos postos de trabalho no país, de acordo com o estudo.

O PIB da Economia da Cultura e das Indústrias Criativas do Observatório Itaú Cultural foi elaborado principalmente a partir do critério de renda, o que engloba massa salarial, massa de lucros e outros rendimentos auferidos por empresas e indivíduos no país.
A metodologia foi desenvolvida por um grupo de pesquisadores, liderado por Leandro Valiati, professor e pesquisador da University of Manchester, no Reino Unido, e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O indicador seguirá em constante aprimoramento.

Para determinação do PIB da Economia da Cultura e das Indústrias Criativas foram utilizados dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínuo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do PAS (Programa de Avaliação Seriada) e da PAC (Pesquisa Anual de Comércio), além das TRU (Tabelas de Recursos e Uso) do IBGE para contabilização dos impostos e o histórico de prestação de contas da Lei Rouanet.
Como algumas bases de dados não foram totalmente atualizadas em relação a 2021 e 2022, o primeiro levantamento do PIB da cultura do Observatório Itaú Cultural só conseguiu determinar o valor da geração de riquezas produzido da cultura e indústrias criativas até 2020. O Observatório do Itaú Cultural vai manter a atualização da plataforma e aprimorando os indicadores.
Para a formulação do modelo foram considerados como indústrias criativas os segmentos de moda, atividades artesanais, indústria editorial, cinema, rádio e TV, música, desenvolvimento de software e jogos digitais, serviços de tecnologia da informação dedicados ao campo criativo, arquitetura, publicidade e serviços empresariais, design, artes cênicas, artes visuais, museus e patrimônio.
O primeiro levantamento do Observatório Itaú Cultural com a metodologia mostra que o PIB da ECIC vem crescendo de forma mais acelerada que o total da geração de riquezas no país nos últimos anos. De 2012 a 2020, o PIB dos segmentos criativos, em números absolutos, experimentou crescimento de 78%, enquanto a economia total do país avançou 55%.
A participação do PIB da Ecic era de 2,72%, em 2012, e saltou para 3,11%, em 2020.
De acordo Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, instituição à qual o Observatório Itaú Cultural está integrado, “a nova plataforma traz a real dimensão da contribuição da cultura e das indústrias criativas para o desenvolvimento econômico do Brasil”.

Segundo Saron, o novo modelo traz dados confiáveis para orientar corretamente as políticas públicas. “Agora temos um indicador para nortear o debate. A economia da cultura e das indústrias criativas são fundamentais para a geração de emprego e renda no país”.
“A construção do indicador foi um processo longo e bastante cuidadoso e envolveu consultas a especialistas no Brasil e no exterior”, diz Leandro Valiati, coordenador do novo PIB da Cultura e das Indústrias Criativas.
“Fizemos pesquisas qualitativas com pesquisadores nacionais, oficinas com pesquisadores internacionais, verificamos especificidades da economia brasileira e tendências internacionais para chegar ao indicador, que é comparável internacionalmente”, observa.
O trabalho envolveu quatro pesquisadores estrangeiros e 30 brasileiros que são referência no tema.
De acordo com o Observatório do Itaú Cultural, a participação do PIB dos segmentos no país é maior do que o verificado na África do Sul (2,9%), Rússia (2,4%) e México (2,9%), para dar alguns exemplos internacionais.
Autoridades
O PIB da Cultura e das Indústrias Criativas foi apresentado nesta segunda-feira a autoridades de todo o país ligados ao setor. O lançamento, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, teve a participação de representantes do Ministério da Cultura e de diversos secretários de Cultura de Estados e municípios.
Nesta terça-feira, o estudo será apresentado e discutido com os secretários estaduais de cultura e organismos governamentais da área cultural.
“Quem faz política pública é o Estado brasileiro. Por isso, nós queremos apresentar o PIB aos representantes dos governos. Queremos ver como é que a gente olha para esses números como uma grande oportunidade. Colocamos a bola no meio do jogo”, disse Eduardo Saron.
Sobre o Observatório
O Observatório Itaú Cultural foi criado em 2006 com foco na gestão, na economia e nas políticas culturais e promove, desde então, estudos e debates desses temas, estimulando a reflexão sobre a cultura em seus vários aspectos e analisando os indicadores nacionais.
A atuação do observatório é ampliada com seminários, cursos, encontros e palestras; uma linha editorial de livros e da Revista Observatório, disponíveis gratuitamente na web; e a promoção de pesquisas sobre o campo cultural.
Entre 2009 e 2019 realizou, ainda, um curso de especialização em gestão cultural em parceria com a Cátedra Unesco de Políticas Culturais, a Cooperação da Universidade de Girona, Espanha, e com o apoio da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI). Em 2021, o Observatório lançou o Mestrado Profissional em Economia e Política da Cultura e Indústrias Criativas em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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*O jornalista viajou a convite do Itaú Cultural
