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Dia a Dia

Pedido de retirada de estátuas em SP traz debate sobre ‘apagão’ histórico

12 de junho de 2020 Dia a Dia
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Monumento às Bandeiras
Monumento às Bandeiras, um dos símbolos dos Bandeirantes, em São Paulo (Foto: José Cordeiro/SPTuris)

Por João Gabriel, da Folhapress

SÃO PAULO – Quem estiver no estado de São Paulo e avistar, no meio de uma praça, uma estátua em bronze de uma figura humana olhando por cima do horizonte, de cerca de três metros, provavelmente verá um bandeirante.

O personagem usado na primeira metade do século 19 para construir a memória da cidade como origem e ideal de progresso.

Mas parte da população enxerga nesses monumentos uma série de violências cometidas desde 1500 contra, sobretudo, povos indígenas e a população negra.

Com o crescente questionamento em países como EUA, Bélgica e Reino Unido a respeito de estátuas que exaltam líderes coloniais ou escravocratas, o eco dessas manifestações pela retirada ou ressignificação de tais símbolos começa a ganhar volume no Brasil, sobretudo em redes sociais, mas não só.

“Os bandeirantes foram os piores dos jurua kuery, dos não indígenas, que massacraram os povos indígenas, escravizaram nossos povos. E hoje a gente vê esse símbolo de herói”, diz Thiago Karai, liderança Guarani da terra indígena (TI) Tenondé Porã, na zona Sul da capital, e membro da Comissão Guarani Yvyrupa.

“São exemplos da construção de uma narrativa que consagra e enaltece a colonização branca no desenvolvimento paulista, forjada na opressão e extermínio dos povos negros e indígenas”, diz Cláudia Adão, pesquisadora da articulação do racismo com o espaço urbano.

Em São Paulo, a construção do bandeirante herói se deu sobretudo pela celebração do quarto centenário, na criação de uma história de bravura e oposição à coroa portuguesa, que passa pela Revolução Constituinte (também bastante homenageada).

“Um bom monumento é o que foi feito para algum dia ser derrubado, porque ele provoca um modo de contar uma certa história. Ele fica eternizado, ultrapassa o tempo de sua construção e se projeta para novas interpretações, e os novos tempos repousam novos olhares e novos questionamento sobre ele”, afirma o antropólogo e curador Hélio Menezes.

Foram questionamentos assim que levaram, por exemplo, à derrubada da estátua de Edward Colston, traficante de escravo, na cidade de Bristol (Reino Unido). O prefeito de Londres, Sadiq Khan, determinou que as estátuas da cidade sejam revisadas.

Estátua jogada no rio no Reino Unido
Estátua de Edward Colston, traficante de escravo, na cidade de Bristol, retirada pela polícia do fundo do rio (Foto: Reprodução)

Em Boston, nos Estados Unidos, uma estátua do navegador italiano Cristóvão Colombo, líder da primeira expedição europeia a chegar às Américas, amanheceu decapitada. O país que vive um cotidiano de manifestações antirracistas, que tiveram seu estopim com a morte de George Floyd por um policial.

Em São Paulo há uma série destes monumentos ambíguos, que representam triunfos mas também mortes. São bandeirantes como Manuel de Borba Gato e Anhanguera (codinome em tupi de Bartolomeu Bueno da Silva, que significa “diabo velho”), ou militares como Luís Alves de Lima e Silva ou Duque de Caxias, líder das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai.

Há ainda os navegadores europeus como Colombo e o português Pedro Álvares Cabral, cuja chegada ao Brasil deu início ao morticínio da população indígena no país.

“Isso está expresso mais do que em monumentos, mas em outras homenagens. Você tem uma série destes homens que são nomes de ruas”, diz João Priolli, professor de história do Colégio Equipe.

Para ele, um dos principais desafios da educação é como contar uma história diferente se até os livros de história são recheados por tais personagens.

Há nesse rol monumentos de valor artístico reconhecido e nuances mais sutis, como o Monumento às Bandeiras, esculpido por Victor Brecheret (1894-1955), que sem um personagem específico ilustra índios e negros empurrando um ideal de progresso liderado por homens brancos. Não é raro quem leia a escultura como um símbolo de união.

Priolli e o professor de artes Gilberto Mariotti iniciaram um projeto de incursão pela capital paulista, junto com a elaboração de um mapa para identificar essas homenagens e ressignificá-las no imaginário dos estudantes.

Não há unanimidade a respeito da melhor forma de tratar os monumentos, e muitos veem no movimento pela derrubada uma tentativa revisionista simplista. O jornalista e historiador Laurentino Gomes afirmou, em redes sociais, que as estátuas deveriam ser usadas para reflexão, e não extirpadas.

“Sou contra. Estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico. Devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”, escreveu. “A atual estátua de Borba Gato no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, é feia que dói. Ainda assim, deve lá ficar. Mas passar por ela, as pessoas devem saber quem foi o personagem e como foi parar no panteão dos heróis nacionais.”

Priolli e Mariotti lembram que o sumiço de estátuas não é novidade em São Paulo, cuja história, afirmam, é de apagamento. Ilustra este movimento, por exemplo, a estátua de Ramos de Azevedo: construída na avenida Tiradentes, foi retirada de lá para o metrô poder passar.

“O monumento representava para a elite que o comissionou justamente o progresso. Quando o progresso chega, o primeiro que dança é o monumento”, explica Mariotti.

Outros símbolos somem sem rastro. Cláudia Adão cita o bairro do Bixiga, que concentrava jornais e associações negras; a praça da Liberdade era chamada de Largo da Forca, local de condenação, morte e enterro de escravos; o viaduto do Pacaembu correspondia ao Largo da Banana, onde negros aguardavam a chegada do trem e, nesta espera, jogavam capoeira, tiririca e faziam música, sendo um dos berços do samba paulista.

A cidade, como todas que foram controladas pela coroa portuguesa, tinha seu pelourinho, onde hoje é o Fórum João Mendes, ao lado da praça da Sé e do Largo São Francisco.

“Vivíamos aqui no planalto [paulista], a cidade foi criada em cima de aldeias, rios, nascentes. São Paulo foi construída com sangue Guarani. Os mais velhos sempre ficam muito tristes quando pensam em lugares como o rio Tietê. Relatam que aquela água era limpa, dava pra beber e pescar”, diz Karai.

Para Pedro Alves, “São Paulo tem a história feita em camadas de concreto, passando e apagando”. Ele conduz o projeto Cartografia Negra, junto com Carolina Piai e Raissa Albano de Oliveira.

Antes da pandemia, eles realizavam a passeios pelo centro da cidade para contar a história desses locais e também passar por estátuas como a de Luiz Gama, referência negra do movimento pelo fim da escravidão, ou de Zumbi dos Palmares.

Oliveira afirma que o projeto nasceu da inquietação de não se reconhecer no centro de São Paulo e de se perguntar qual o lugar do negro na narrativa paulista. “O que eu quero representar quando coloco um homem branco, essa figura de bota, colete? É tudo uma criação. Bandeirantes eram genocidas, assassinos e capturavam pessoas para serem escravizados, povos originários ou negros fugidos”, contesta.

Projeto Cartografia Negra
Projeto Cartografia Negra, em São Paulo, faz o resgate histórico do espaço urbano de concentração de negros (Foto: Reprodução)

O grupo defende a derrubada das estátuas como processo de afirmação de uma história plural e de inserção da narrativa negra e indígena, e chama atenção para o pequeno número e a diferença de tamanho das estátuas de figuras negras.

“Por que estamos pensando em onde vai colocar a estátua do Borba Gato se a gente não pensa no Chafariz do Tebas? [o primeiro da cidade, projetado por um engenheiro negro, desmontado e esquecido]”, indaga Piai.

A figura de Borba Gato, no bairro de Santo Amaro, é agora vigiada 24 horas por dia após os acontecimentos fora do Brasil.

“É muito importante lembrar que a queda de monumentos sempre fez parte de contextos de contestação, e a queda de alguns monumentos abriu espaços a algumas das mais lindas praças do mundo, como praça Van Vendôme, em Paris”, explica Hélio Menezes.

O curador defende, ainda, que caso haja um valor artístico na obra, ela seja deslocada a um museu e apresentada com a devida contextualização, para que não haja um desserviço historiográfico.

Segundo Karai, os Guarani, parte dos quais vive hoje em espaços como o da TI Jaraguá (ilhado justamente entre as rodovias Bandeirantes e Anhanguera), não reivindicam a criação de monumentos na capital, mas pequenas terras do que foi um extenso território por onde circulavam e que abrangia também Bolívia, Paraguai e Uruguai.

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Assuntos estátua, História, monumentos, movimento negro
Valmir Lima 12 de junho de 2020
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