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Política

‘Pastor de Moro’ critica evangélico do PT e diz que bolsonarismo assedia pastores

25 de fevereiro de 2022 Política
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Pastor Uziel Santana e Sergio Moro
Pastor Uziel Santana foi designado para fazer a ponte entre igrejas e a candidatura de Sergio Moro (Foto: Reprodução)
Por Anna Virginia Balloussier, da Folhapress

SÃO PAULO – O governo Jair Bolsonaro (PL) vem assediando pastores para que eles não se reúnam com seu ex-ministro Sergio Moro (Podemos), potencial adversário na corrida presidencial. Grandes líderes evangélicos, contudo, “concordam que não se pode depender de uma única via”. E o ex-juiz “é uma via possível”.

É o que diz Uziel Santana, coordenador do núcleo evangélico na pré-campanha do católico Moro.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o fundador da Anajure (Associação Nacional de Juristas Evangélicos) critica o pastor escalado pelo PT para dialogar com o segmento e afirma que Bolsonaro “sempre foi bem-intencionado”, mas cometeu “graves erros”.

Sobre uma tema sensível para igrejas, se elas podem rechaçar o casamento homoafetivo, Moro pensa o seguinte, segundo Santana: qualquer orientação sexual deve ser respeitada, mas também a liberdade religiosa é um “direito humano fundamental”, de modo que “qualquer religioso pode pregar, sim, contra qualquer tipo de conduta”. Só não vale ensejar discurso de ódio.

Pergunta – Como o sr. e Moro se aproximaram?

Uziel Santana – Eu o conheço desde 2016, 2017, naquele contexto, né? Ele ainda era juiz da Lava Jato. A gente [Anajure] o convidou para um evento na Faculdade de Coimbra. Dali em diante fizemos uma amizade sólida. Sempre que ele pedia conselho, a gente estava presente.

Ele se aconselhou quando foi chamado para o governo Bolsonaro, e depois, quando decidiu o deixar?

US – Sim, sim, conversamos sobre esses temas. A decisão mais difícil foi ir pro governo.

Quais eram os receios?

US – Ele ia deixar uma carreira consolidada, um concurso no qual qualquer pessoa do direito pensou em passar. Era uma decisão forte. Favoreceu o clamor popular para que essa pauta do combate à corrupção viesse à tona no novo governo.

Que impressão Moro tinha de Bolsonaro àquela altura?

US – Se me lembro bem, era a mesma de qualquer brasileiro médio: um outsider na politica governamental, sempre foi deputado de baixo clero. E que estava ali imbuído de uma missão. [Bolsonaro] foi eleito dentro de um sentimento forte da sociedade contra a corrupção. Como ele mesmo falava, não era o mais preparado, mas ia se juntar a pessoas preparadas como Moro, como [Paulo] Guedes, para mudar o Brasil.

Moro se consultou com o sr. sobre concorrer a presidente?

US – Ele não abdicou de valores, isso é bom que se diga. Para ele era mais fácil ficar no governo, engolir alguns sapos e depois ir ao Supremo Tribunal Federal [indicado por Bolsonaro]. Ele sai e é um desgaste enorme, o bolsonarismo já mostra sua faceta de destruição de reputações.

Confesso que dizia pra ele: ‘Olha, sei que precisamos de um nome que possa enfrentar essa dicotomia vexatória representada por Lula e Bolsonaro. Você vai entrar num jogo onde infelizmente valores não estão presentes, ao contrário, todo mundo querendo derrubá-lo’.

Eu disse: ‘Comigo sempre pode contar com orações’. Ele: ‘Não, queria que você me ajudasse na campanha’. A diferença dele com Bolsonaro é grande. É um cara ponderado, sabe ouvir, pedir perdão.

Com quais igrejas a campanha tem interlocução, das grandes?

US – O governo tem tentado inviabilizar alguns encontros.

Como assim?

US – Nas Assembleias de Deus, o governo hoje só tem apoio explícito do Silas Malafaia. Mas Silas é um cara inteligente, não deixa de criticar, como já fez com o presidente. Não é o caso de outras Assembleias, como [os ministérios] Madureira, Belém, a dos Câmaras [família que controla igrejas no norte]. Elas não apoiam o bolsonarismo explicitamente, nem querem demonizar candidatos.

Apesar de o governo estar assediando os grandes líderes para que não encontrem Moro, todos os pastores das grandes igrejas com quem tenho conversado concordam que não se pode depender de uma única via, Bolsonaro. Moro é uma via possível.

Ele vai se reunir com o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal?

US – Tá no radar. Moro já definiu que vai encontrar com todos os líderes. Não tem nenhuma reticência.

Recentemente, o PT escalou um pastor pentecostal, Paulo Marcelo, para construir pontes com evangélicos. O que achou?

US – Olha, é muito bom saber que os candidatos têm valorizado o segmento. A grande diferença é que o PT escalou esse pastor que não tem penetração no público evangélico, não nos que têm uma cosmovisão mais bíblica. Moro não está chamando [as igrejas] para a eleição apenas, chama para que de algum modo esse segmento possa ser efetivo num eventual governo dele.

O discurso inicial [de Paulo Marcelo] desagrega. Ele critica de modo até rude a primeira-dama [em entrevista à Folha, o pastor usou um apelido pejorativo para Michelle Bolsonaro, “pastinha”, para se referir à época em que ela era assessora parlamentar], depois fala que igrejas estão cheias de pessoas obscurantistas. Trazem alguém que vem jogar situações polemicas contra o próprio segmento.

O sr. se reuniu com Bolsonaro em 2020. Sua interlocução com o presidente terminou quando?

US – Estive com o presidente duas ou três vezes, e uma vez ele me telefonou para parabenizar a Anajure por uma nota. Vejo que o governo sempre foi bem-intencionado. Mas entre a intenção e a realização encontramos graves erros.

Bolsonaro é um bom cristão?

US – É importante dizer que Bolsonaro não é evangélico. Ele é um cristão que se diz católico, nem sei se praticante é. Em relação ao que ele defende, algumas posições que tem tomado, é completamente contra o ideário do cristianismo.

Como o quê?

US – O exemplo mais recente: foi à Rússia participar de uma solenidade a soldados [soviéticos] do regime que mais perseguiu cristãos na história da humanidade. Ou é mal assessorado ou não entende o papel dele como presidente. E tem também as posições que tomou na pandemia. A imensa parte da igreja evangélica não concordou.

Na fundação da Anajure, estiveram presentes atores políticos que hoje estão nas trincheiras bolsonaristas, como a ministra Damares Alves e o ex-senador Magno Malta. Ainda são seus amigos?

US – Damares é minha amiga pessoal. A gente hoje está em situações políticas diferentes. A própria pauta de liberdade religiosa sucumbiu no Ministério [da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos]. No governo Dilma, a Anajure ajudou muito na realocação de cristãos perseguidos. Isso não existe mais no governo Bolsonaro.

Um dos rótulos mais fortes que bolsonaristas tentam colar em Moro é o de Judas. Um traidor. Como ele responderá?

US – Conversei com Malafaia sobre isso. Ele fala que Moro é Judas. Bom, Moro vai pro governo com carta branca para o combate à corrupção. Faz o pacote anticrime. Governo começa a sabotar o projeto. Quem traiu quem?

Outra pecha é a de que ele seria aborteiro. Ele é?

US – Isso está na Carta de Princípios aos Cristãos [que sua campanha divulgou em fevereiro]. Um bom juiz só fala nos autos. Ele não tem que se posicionar em situações para as quais não foi chamado. Por isso, em muitos temas importantes para evangélicos, ainda não tinha estabelecido sua opinião. A carta vem pra isso, pra combater fake news. Moro deixa claro que o aborto só pode ser realizado naquelas hipóteses excepcionais [estupro, risco de vida da mãe e anencefalia do feto].

Quando o governador Eduardo Leite (PSDB-RS) disse ser gay, Moro o parabenizou “pela declaração corajosa”. Como ele se posicionará a respeito dos direitos LGBTQIA+?

US – Para ele, pastores devem ter o direito de pregar contra uniões homoafetivas nas igrejas? Moro, na Carta de Princípios, deixou claro que tratará com dignidade todas as pessoas independentemente de sua orientação sexual. Do mesmo modo, entende a liberdade religiosa como direito humano fundamental, de modo que pastores, padres ou qualquer religioso pode pregar, sim, contra qualquer tipo de conduta, desde que isso não enseje violência ou discurso de ódio. Foi exatamente isso que o STF decidiu. E essa é a orientação que Moro segue.

Aliás, vi a crítica do Sóstenes Cavalcante [líder da bancada evangélica] quanto a isso [ao jornal O Estado de S. Paulo, ele disse que Moro “não precisava colocar ‘mas respeita opções sexuais’ quando acendeu uma vela dizendo que ‘apoia a família tradicional'”]. No caso, o nobre deputado deveria entender que Moro não seguiu uma má orientação. Seguiu a orientação da Constituição. Pensar diferente é incorrer em discriminação.

Onde o ex-juiz está na régua ideológica?

US – Cheguei à conclusão que ele é um conservador médio da sociedade, e um conservador democrático. ‘Eu penso assim, mas tem pessoas que pensam diferente’. As pessoas têm direito de ou ir pro céu ou pro inferno, sempre digo isso. Ele é muito temente a Deus, mas não tem uma cosmovisão de impor o que ele pensa. Nem Cristo quis isso.

Moro pode retirar a candidatura, se perceber que a eleição será polarizada entre Lula e Bolsonaro?

US – Não existe essa possibilidade no radar. Não tenha nenhuma dúvida de que o projeto de Bolsonaro é ficar mais quatro anos, depois eleger o senador da fantástica fábrica de chocolates [o filho Flávio, que tinha uma franquia da Kopenhagen sob investigação no caso da “rachadinha”], depois o deputado de São Paulo, o bananinha lá [Eduardo]. Enquanto o projeto de Lula já se mostrou ser a perpetuação no poder. O de Moro, não. Por isso plantam notícias falsas de que ele não vai até o final.
*
Raio-X
Uziel Santana, 46
Mestre em direito pela Universidade Federal de Pernambuco, com doutorado em andamento na Universidade de Buenos Aires. Ensina direito na Universidade Federal de Sergipe. Fundou em 2012 a Anajure (Associação Nacional de Juristas Evangélicos). Deixou a presidência da entidade neste ano para coordenar o núcleo evangélico da pré-campanha de Sergio Moro (Podemos) ao Palácio do Planalto.

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Assuntos Eleições 2022, núcleo evangélico, Sergio Moro, Uziel Santana
Valmir Lima 25 de fevereiro de 2022
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