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Esporte

Para aliviar calor, Qatar põe torcedor numa fria nos estádios

29 de novembro de 2022 Esporte
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Estádio de Lusail, no Qatar, é o mais importante da Copa do Mundo (Foto: Divulgação/Instagram/@roadto2022es)
Por Luciano Trindade, da Folhapress

DOHA – O saudita Sanada Al Somad, 31, está acostumado com as altas temperaturas de seu país, cujos termômetros podem chegar a 43ºC no verão. Não seria problema para ele encarar médias semelhantes no Qatar. Mas para acompanhar os jogos da Copa do Mundo, ele precisou tirar algumas blusas do armário.

“Aqui dentro é muito gelado. Em um jogo à tarde, é mais agradável. Mas quando começa a cair a noite, fica mais frio, principalmente porque anoitece cedo, às 17h”, diz o torcedor, enquanto acompanha a partida entre Polônia e Arábia Saudita, pelo Grupo C, no estádio Cidade da Educação, em Doha.

Ele não era o único vestido com uma blusa nas arquibancadas da arena. Um compatriota dele, Erick Noturi, 23, também se protegia da brisa forte que vinha das saídas de ar-condicionado instaladas sob todas as fileiras do estádio. “Lá fora eu vou tirar, mas aqui dentro e no metrô, sempre uso”, diz. “É quase o tempo todo assim, frio e calor, frio e calor”.

Quando o Qatar anunciou sua candidatura para receber a Copa do Mundo, além de pedir a transferência do torneio para o fim do ano, período em que as temperaturas são mais baixas do que os 50ºC registrados, em média, no meio do ano, o país também assegurou que equiparia seus estádios e locais públicos com um potente sistema de ar-condicionado.

A tecnologia foi desenvolvida junto com a Universidade do Qatar -no mesmo complexo em que fica o estádio Cidade da Educação. De acordo com o Supremo Comitê de Entrega e Legado, o aparato é alimentado por energia solar para manter ventiladores que puxam o ar externo e o resfriam.

A meta é deixar os espaços onde ficam localizados as torcidas, os jogadores e o campo com temperaturas médias de 18ºC a 24ºC. Dessa forma, não é raro encontrar pessoas com blusas ou agasalhos, até mesmo em lugares mais restritos, como o centro de mídia, de onde trabalham jornalistas de todo o mundo.

No final do duelo entre Polônia e Arábia, por volta das 18h, já sob a noite de Doha, os termômetros registravam 29ºC na área externa do estádio.

O uso da técnica de resfriamento foi projetado por Saud Abdulaziz Abdul Ghani, professor de engenharia mecânica na instituição de ensino e apelidado de Doctor Cool, um trocadilho, já que a palavra “cool” significa tanto “fresco” como “legal”.

“Não estamos apenas resfriando o ar, estamos limpando-o”, explica Ghani. “O ar pré-resfriado entra por grelhas embutidas nas arquibancadas e grandes brechas ao longo do campo. Usando técnica de circulação de ar, o ar resfriado é puxado de volta, resfriado novamente, filtrado e empurrado para onde é necessário”.

O professor foi convidado para juntar-se ao projeto Qatar-2022 em 2009, quando o país, rico por suas reservas de gás natural e petróleo, ainda estava se candidatando para receber o Mundial.

Tão logo foi anunciado como sede, o Qatar passou a receber diversos questionamentos, sobretudo por seu histórico de desrespeito aos direitos humanos. Mas a questão climática também preocupava a comunidade internacional do futebol.

“A maioria dos países geralmente apresentaria seus estádios como uma ideia de design e não como uma tecnologia. Apresentamos nossos estádios de uma nova maneira”, diz o professor sobre a forma como convenceu as federações de que era possível jogar no Qatar.

Segundo ele, a tecnologia de resfriamento é 40% mais sustentável do que as técnicas existentes, pois permite que as arenas só precisem ser resfriadas duas horas antes de um evento, reduzindo o consumo de energia em comparação a outras tecnologias.

O Qatar é o maior emissor per capita de gases do efeito estufa, segundo o Banco Mundial. Emite quase três vezes mais do que os Estados Unidos e quase seis vezes mais do que a China.

O ranking, porém, é questionado pelos qatarianos, pois as enormes exportações de gás natural liquefeito do Qatar são consumidas em várias partes do mundo. A metodologia do Banco Mundial, então, cobraria essas emissões do país, não de quem usa o combustível.

Cerca de 60% da eletricidade usada pela nação é destinada à refrigeração. E, como a intenção do país com a Copa do Mundo é atrair não só mais turistas, mas também residentes, a tendência é que esse consumo aumente nos próximos anos.

Atualmente, a população local é de 2,7 milhões de habitantes, sendo apenas 380 mil qatarianos e os demais migrantes, muitos dos quais trabalharam na construção das arenas.

Dos oito estádios do Mundial, apenas o Khalifa já existia e passou por uma reforma para receber o Mundial. Por isso, também precisou de uma adaptação para implementar o sistema do Doctor Cool.

Já a Arena 974 é a única que não tem esse sistema de ar pois está localizada perto do mar e já recebe uma brisa natural. O estádio foi palco da estreia da seleção portuguesa, de Cristiano Ronaldo, contra Gana, na última quinta-feira (24).

A reportagem acompanhou a partida no local e, de fato, o estádio tem uma temperatura agradável, sobretudo à noite, horário do duelo.

Os estádios não são os únicos espaços que contam com sistema de refrigeração no Qatar.

Ventiladores equipados com ar úmido fazem, por exemplo, o resfriamento das estreitas ruas do Souq Waqif, o tradicional mercado ao ar livre de Doha. O mesmo sistema também é encontrado nas passarelas do shopping ao ar livre Galeries Lafayette, e nas estações de trens e metrôs.

Em alguns horários, a potência chega a fazer os passageiros sentirem frio em vez de alívio do calor. Curiosamente, um dos anúncios mais encontrados nas plataformas é justamente o de uma marca de remédio contra alergias respiratórias.

É quase uma venda casada.

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Assuntos copa do mundo, Copa do Mundo do Qatar, estádios, Qatar
Murilo Rodrigues 29 de novembro de 2022
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