

Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo Seffair (PL) disputam, neste domingo (25), o segundo turno da eleição para o Governo do Amazonas, para um mandato de 2027 a 2030. Os candidatos têm trajetórias distintas na gestão: Omar construiu sua carreira no setor público, enquanto Maria do Carmo se destacou na iniciativa privada.
Quem vencer a eleição terá o desafio de administrar um estado marcado por problemas estruturais, como a precariedade do saneamento básico, as deficiências no abastecimento de água e no tratamento de esgoto, a cobertura insuficiente dos serviços de saúde especializada e o déficit no efetivo policial.
Para enfrentar esses desafios, o próximo governador contará com um orçamento estimado em R$ 160 bilhões ao longo dos quatro anos de mandato, o equivalente a cerca de R$ 40 bilhões por ano.
Experiência na iniciativa privada
De um lado está Maria do Carmo Seffair, empresária de 66 anos, natural de Manaus, conhecida por administrar uma das maiores instituições privadas de ensino do Amazonas, a Fametro.
Maria do Carmo estreou nas disputas eleitorais em 2022, como suplente do ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto, que concorreu à única vaga ao Senado pelo Amazonas naquele ano. A chapa terminou a disputa em terceiro lugar.
Em 2024, foi candidata a vice-prefeita na chapa encabeçada pelo deputado federal Alberto Neto (PL) na eleição para a Prefeitura de Manaus. A dupla chegou ao segundo turno, mas foi derrotada pelo ex-prefeito David Almeida (Avante).
Neste ano, Maria do Carmo disputa pela primeira vez uma eleição como cabeça de chapa. Seu candidato a vice-governador é o coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas Mário Aníbal Júnior, pouco conhecido do eleitorado e que também concorre a um cargo eletivo pela primeira vez.
A candidata do PL recebeu apoio direto do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, que esteve em Manaus na última segunda-feira (19) e reuniu milhares de pessoas em um ato político na orla da Ponta Negra, na zona oeste da capital.
Embora esteja alinhada à extrema direita, Maria do Carmo adota um discurso moderado durante a campanha e evita defender pautas extremistas.
Em sua campanha, apresenta-se como alternativa ao que chama de “velha política”, expressão que utiliza para criticar políticos que ocupam cargos de poder há décadas. Entretanto, a empresária mantém vínculos familiares com integrantes de uma família de longa trajetória na política amazonense.
Maria do Carmo é esposa do empresário Wellington Lins, irmão do deputado federal Átila Lins (PSD), que exerce mandato há 35 anos, e do ex-deputado estadual Belarmino Lins, conhecido como Belão, que encerrou a carreira parlamentar em 2022, após 32 anos de atuação.
A candidata também é tia do deputado estadual George Lins (União Brasil), filho de Belarmino, e da vereadora de Manaus Yomara Lins.
Experiência na vida pública
Do outro lado está Omar Aziz, de 68 anos, natural de São Paulo, com uma trajetória política marcada pela passagem pelos poderes Executivo e Legislativo.
Omar foi vereador e vice-prefeito de Manaus, deputado estadual e vice-governador do Amazonas. Em 2010, assumiu o governo estadual após Eduardo Braga deixar o cargo para disputar uma vaga no Senado. No mesmo ano, foi reeleito governador em primeiro turno.
Em 2014, renunciou ao governo para concorrer ao Senado, sendo substituído pelo então vice-governador José Melo. Omar venceu a eleição daquele ano e, oito anos depois, conquistou a reeleição em uma disputa apertada contra o Coronel Menezes.
Entre as principais obras realizadas durante sua gestão estão a Ponte Rio Negro, que liga Manaus a Iranduba e facilita o acesso a Manacapuru e Novo Airão; o Programa Águas para Manaus (Proama), que ampliou o abastecimento de água na capital; a Arena da Amazônia; o Hospital Delphina Aziz; e o Bumbódromo de Parintins.
Em julho de 2019, Omar e familiares foram alvos da Operação Vertex, desdobramento da Operação Maus Caminhos, que investigou suspeitas de desvios de recursos públicos por meio de contratos simulados ou superfaturados.
Após uma disputa jurídica na Justiça Federal, o caso foi encaminhado à Justiça estadual, onde passou a tramitar sob segredo de Justiça.
O arquivamento do caso por falta de provas tornou-se público por iniciativa do próprio senador, que recorreu à Justiça para solicitar a remoção de publicações descontextualizadas sobre a operação durante a campanha eleitoral.
Nos últimos anos, Omar também ganhou projeção nacional ao assumir funções de destaque em debates no Congresso Nacional. Presidiu as CPIs da Covid e da Braskem e foi relator da PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6×1.
Comportamento do eleitor
Para o cientista político e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Afrânio Soares, a polarização nacional entre Lula e Bolsonaro também se reflete no comportamento do eleitorado de Manaus.
No primeiro turno, Omar recebeu mais votos que Maria do Carmo no conjunto do estado, com 40,63% contra 24,49%. Na capital, porém, o resultado foi inverso: Maria obteve 32,89% dos votos, enquanto Omar alcançou 31,44%. Manaus concentra mais da metade do eleitorado amazonense.
Cenário semelhante foi registrado na disputa presidencial. No Amazonas, Lula recebeu 48,23% dos votos, contra 45% de Flávio Bolsonaro. Em Manaus, entretanto, Flávio liderou com 54,28%, enquanto Lula obteve 37,13%.
“A gente percebe esse recorte de polarização nacional (esquerda x direita / Lula x Bolsonaro), mas com uma intensidade bem mais suavizada do que se vê no resto do país”, afirmou Afrânio.
Segundo o cientista político, a dinâmica eleitoral é diferente no interior do Amazonas, onde as lideranças políticas locais, especialmente aquelas ligadas às prefeituras, exercem maior influência. No segundo turno, Omar conta com o apoio de todos os prefeitos do estado.
“No interior do Amazonas, a lógica é completamente diferente: o peso da política local, as alianças regionais e a força das prefeituras (que estão fortemente fechadas com o Omar Aziz) se sobrepõem ao debate ideológico. Então, no balanço geral do estado, não é uma disputa ideológica; a máquina do interior fala muito mais alto”, afirmou o professor.
Na avaliação de Afrânio, fatores emocionais e pragmáticos continuam influenciando a decisão dos eleitores amazonenses, mas de maneiras diferentes na capital e no interior.
“Na capital, o voto de direita tende a ser mais ideológico, silencioso e por vezes subdimensionado nas pesquisas, o que pode dar uma margem positiva para Maria do Carmo”, disse o professor.
“Porém, no interior, o eleito votará de forma mais pragmática, acompanhando a liderança local”, completou.
Para reverter a vantagem de Omar, Afrânio avalia que Maria do Carmo precisaria conquistar uma votação expressiva em Manaus, superior a 60%, contra 40% do adversário, além de alcançar pelo menos 39% dos votos no interior.
“Como o interior está bastante consolidado com o Omar, as probabilidades continuam favorecendo a candidatura dele”, concluiu.
