
EDITORIAL
MANAUS – A indígena Txai Suruí, de 24 anos, do povo paiter-suruí, fez história na COP26, na Escócia, e representou o Brasil muito melhor do que os representantes oficiais do Estado Brasileiro. Mas a participação dela não foi sem sofrimento.
Por denunciar o governo de Jair Bolsonaro, no primeiro dia do evento, Txai Suruí foi atacada pela milícia digital que atua contra qualquer voz que se levante em desfavor do presidente.
Nesta segunda-feira (8), em entrevista à rádio CBN nacional, a líder indígena relatou o sofrimento com os ataques. Segundo ela, não foram poucos os xingamentos racistas, misóginos e mensagens de ódio.
Txai Suruí é natural de Rondônia, fundadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, e se transformou numa voz importante na Conferência do Clima realizada pelas Nações Unidas.
Ela fez um pronunciamento em inglês na COP26 no dia 1° de novembro em que denunciou as ações do Estado e de pessoas apoiadas pelo Estado contra os povos indígenas brasileiros e a floresta amazônica.
No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro se manifestou contra Txai Suruí e disse que ela fez um discurso contra o Brasil. Para apoiadores, Bolsonaro disse o que segue:
“Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma índia para lá —para substituir o [cacique] Raoni— para atacar o Brasil. Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Alemanha? Alguém já viu atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio país. Alguém viu o americano criticando as queimadas lá no estado da Califórnia. É só aqui”.
A fala do presidente foi combustível para a milícia. “Principalmente depois do pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, me atacando, a quantidade de mensagens de ódio, de mensagens racistas e misóginas que eu venho recebendo nas minhas redes sociais são enormes. De gente que não está lá nem para criticar a minha fala (…) Mas vão lá para tentar me desmotivar ou tentar me diminuir para invalidar a minha fala. Hoje eu estou tranquila, mas teve uns dias atrás que eu fiquei bastante abalada, porque eu realmente estava recebendo muita, muitas mensagens de ódio”, disse Txai Suruí, nesta segunda.
Nas redes sociais do AMAZONAS ATUAL, Txai Suruí também foi atacada por pessoas que se posicionam a favor do presidente da República e que não admitem qualquer crítica a ele e o governo dele.
“Os índios de iPhone que não sabemos como conseguem tão facilmente viajar para o exterior…”, comenta Josias Bandeira.
“Não passa de um fantoche lacradora, que vai pro exterior contar mentira e falar mal do Brasil”, afirma Marcos Kenned Freitas.
“Ela sai assim todo dia na rua. É verdade”, ironizou Jones Montefusco.
E Jhoão Bharros completa os comentários rasos: “Índia falando inglês igual o Joel Santana… Ta bom cherosa…(sic)”.
Os comentários confirmam o que diz Txai Suruí na entrevista à CBN. Ninguém critica a fala dela, mas o modo de se vestir, o ressentimento por ela falar inglês. E não criticam porque sequer sabem que ela disse na COP26. A ignorância fala por eles.
Felizmente, Txai Suruí encontrou em Glasgow, no Brasil e no mundo pessoas que reconhecem o valor dela e a luta que ela iniciou com tão tenra idade em favor dos povos indígenas e do meio ambiente.
“Eu também recebi muitas mensagens boas, de pessoas que dizem que se sentiram representadas por mim; não só meus parentes indígenas, mas outras pessoas também, que dizem que eu trouxe uma bela visão e uma bela imagem do Brasil, que tava muito feia aqui fora, mesmo”, disse.
A jovem líder indígena da Amazônia brasileira cumpre um papel importante ao revelar ao mundo a realidade dos povos indígenas, as ameaças que esses povos estão sujeitos, principalmente nos últimos três anos. Felizmente, o cacique Raoni, citado pelo presidente Bolsonaro, tem uma substituta à altura.

