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Sandoval Alves Rocha

O protagonismo socioambiental da Prelazia do Xingu

7 de dezembro de 2021 Sandoval Alves Rocha
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Silvio Marques Sousa Santos, padre jesuíta nascido em Imperatriz/MA, defendeu tese de doutoramento no Programa de Pós-graduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (PPGCASA – UFAM), no último dia 03 de dezembro. A pesquisa lançou luzes sobre a atuação da Igreja Católica nos conflitos socioambientais provocados pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Estado do Pará.

Silvio mora em Manaus, integrando um grupo de jesuítas, que em parcerias variadas, atuam em diferentes atividades: assistência paroquial (Área Missionária Santa Margarida de Cortona), acompanhamento espiritual (Casa de Retiro Vicente Cañas e Serviço Inaciano de Espiritualidade), educação infantil (Instituto Fé e Alegria), ação socioambiental (Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental), formação universitária (UNISINOS), promoção das juventudes (MAGIS), atuação solidária (Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados) e assessoria eclesial (Núcleo de Educação Intercultural Bilíngue Amazônica).

Perante uma banca formada por cinco avaliadores, o jesuíta expôs o trabalho acadêmico, que foi resultado de um estudo de quatro anos, baseado em entrevistas feitas com diversas personalidades envolvidas no projeto, pesquisas bibliográficas e documentais, além de investigação empírica local. Possuindo formação em filosofia e teologia, o padre Silvio Marques teve oportunidade de abordar também aspectos eclesiológicos, alinhando os resultados da pesquisa às principais vertentes do pensamento moderno e contemporâneo.

A Usina Hidrelétrica do Belo Monte está localizada nas proximidades de 11 municípios do Estado do Pará, distribuídos ao longo de um trecho da rodovia transamazônica: Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu, com destaque para este último, onde se localiza a UHEBM. A cidade principal da região é Altamira, por sua população e atividades econômicas de comércio e serviços.

Na defesa, o pesquisador apresentou as contradições políticas e socioambientais do empreendimento, evidenciando os efeitos deletérios sobre o meio ambiente e na vida das populações afetadas. O estudo mostra que diante das implicações negativas da construção, a Prelazia do Xingu (atualmente Diocese do Xingu) se mobilizou contra a iniciativa, recorrendo à sociedade civil local e internacional. A tese destaca a oposição de várias organizações ambientais, tais como o Movimento Xingu Vive para Sempre, além de ressaltar a forte atuação de Dom Erwin Kräutler.

Chama atenção a percepção de que o mencionado projeto integra um antigo e abrangente plano de exploração hídrica na Amazônia materializado nas construções das hidrelétricas de Tucuruí, Balbina, Samuel, Santo Antônio e Jirau. Neste projeto também destacam-se as barragens de Curuá-Uma e Jatapú. Ficou comprovado que tais projetos foram arquitetados de maneira irresponsável, seguindo um modelo de desenvolvimento predatório e insustentável.

Este modelo de exploração também promoveu empresas altamente hostis que marcaram negativamente a história da região amazônica pelo seu potencial destrutivo: exploração da borracha, construção de estradas, mineração e industrialização. Visando beneficiar as elites nacionais e o mercado internacional, todas estas iniciativas agrediram violentamente populações, culturas e a riqueza natural, deixando marcas de morte e sofrimento no território.

A defesa da tese coincidiu com os festejos de Francisco Xavier (1506 – 1552), jesuíta espanhol canonizado em 1622, em simultâneo com Inácio de Loyola (1491 – 1556), fundador da Companhia de Jesus. Xavier é padroeiro universal das missões e levou o cristianismo para as terras do Oriente, chegando a morrer às portas da China. O cristianismo pregado por Francisco Xavier é mais do que um sistema doutrinal, mas constitui um estilo de vida que valoriza a vida e almeja que todos a tenham em abundância.

Este grande ideal cristão de respeito e proteção da vida pode ser consubstanciado na luta travada pela Prelazia do Xingu, que se opôs à construção do projeto da Usina de Belo Monte, uma vez que ele prejudica o meio ambiente e subordina a vida aos parâmetros consumistas que colocam em perigo a existência da humanidade no planeta Terra. Tais parâmetros baseados na geração infinita de lucros não respeitam os limites do ecossistema, comprometendo os ciclos ecológicos de manutenção da vida.

A tese defendida pelo jesuíta estimula outras prelazias e dioceses ao compromisso socioambiental necessário para que possamos encontrar formas mais sustentáveis de conviver com a natureza sem devastá-la. Mas, ao contrário, considerá-la como aliada na nossa passagem pelo planeta, sempre levando em consideração o bem-estar das gerações presentes e futuras. A natureza nos convida a aprender com ela, sempre trabalhando de forma cooperativa em prol da vida humana e não humana.


Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia, Usina de Belo Monte, Xingu
Cleber Oliveira 7 de dezembro de 2021
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