
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – A fala da vereadora do município de Borba Elizabeth Maciel (Republicanos), a Betinha, causa uma série de reações em quem a ouve e vê dizer que “tem mulher que merece apanhar”. O que parece absurdo para muita gente, é, na verdade, o que muita gente pensa sobre a violência contra a mulher, tão combatida nos meios de comunicação e nos fóruns de discussões sobre direitos humanos, segurança pública e políticas de afirmação de gênero, mas muito praticada por homens Brasil afora.
A fala na tribuna da Câmara de Vereadores de Borba é espontânea, mostra uma “verdade” sobre o pensamento representante do povo daquele município, eleita democraticamente. É o que ela pensa ou pensava até ser confrontada com uma realidade que condena tais afirmações, porque configuram apologia a um crime que o Brasil tenta combater.
“Eu aprovo, eu sou a favor da violência contra a mulher, sim. Quando o homem bate na mulher eu aprovo. (…) A mulher… Também têm mulher que merece apanhar”, disse Betinha na tribuna do parlamento, espontaneamente.
A fala de Betinha no vídeo em que se desculpa soa duvidosa sobre seu arrependimento, pois lê um texto elaborado previamente, sem o contexto espontâneo anterior. Não convence quem assiste ao vídeo. Ela diz ter utilizado “uma expressão totalmente inadequada e infeliz, que não corresponde ao que penso nem ao que desejo transmitir”.
O pensamento da vereadora exposto em plenário não é isolado. Ele surge nas conversas entre vizinhos, nas rodas de conversar de bar, nas piadas. É esse pensamento que alimenta a violência contra a mulher e produz estatísticas lamentáveis no Brasil.
Infelizmente ou felizmente (porque provoca reflexão e produz mudanças), em algum momento esse tipo de pensamento ganha exposição, pelo lugar da fala ou pela importância do falante. Foi o que ocorreu com a vereadora Betinha.
O que que se diz em uma conversa de bar ou numa roda de fofoca tem pouco valor diante do que se diz na tribuna de um parlamento, mesmo em um município nacionalmente desconhecido do interior do Amazonas. O vídeo viraliza e ganha asas e alcance inimaginável.
Betinha faz parte de uma fatia de mulheres que encaram o feminismo como um mal social; que minimiza a violência de gênero e engrossa as fileiras do machismo estrutural. O machismo feminino precisa ser atacado em todos os ambientes sociais, a começar na família. Mas também deve ser discutido nas escolas, nas igrejas e nos eventos de um modo geral.
O Brasil precisa virar a página da violência crescente contra as mulheres, que não são apenas agredidas verbal e fisicamente. O número de feminicídio no país é assustador.
Que a fala da vereadora sirva para ampliar o debate necessário sobre esse tema e que possa trazer resultados positivos para as mulheres.

