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Sérgio Augusto Costa

O brilho ofuscante das adegas e a sombra do crime

16 de junho de 2025 Sérgio Augusto Costa
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tiago paiva

MANAUS – A vibrante vida noturna de Manaus, com suas ruas pulsantes e a efervescência cultural, guarda um paradoxo preocupante: a crescente glamorização das adegas. O que deveria ser um simples ponto de venda de bebidas e conveniências, muitas vezes se transforma em palco para a ostentação de um estilo de vida que flerta perigosamente com a criminalidade, reverberando diretamente na segurança pública da cidade. Essa realidade, infelizmente, não é nova, mas o recrudescimento de debates nacionais sobre a glamorização do crime na cultura popular – impulsionado por figuras tidas como “celebridades”, a exemplo dos funkeiros presos nas últimas semanas no Rio de Janeiro – joga luz sobre a urgência de uma análise local mais aprofundada.

Nos últimos anos, observamos uma crescente valorização e até mesmo glamorização das adegas em Manaus. Esses espaços, muitas vezes associados a momentos de lazer e confraternização, vêm ganhando destaque na mídia, nas redes sociais e na cultura local. A disseminação dessas adegas pode contribuir para a marginalização de comunidades mais vulneráveis, que muitas vezes vivem às margens dessas atividades, sem acesso a oportunidades de lazer e cultura de forma segura e saudável.

Esta tendência ao impulso grotesco à degradação da virtude espalhada no país, que em meio ao consumo de álcool e, muitas vezes outras drogas ilícitas, embalado ao som dos também ilegais “paredões” entoando geralmente o funk ostentação, com sua exaltação de bens de luxo e a associação de sucesso a um padrão de vida muitas vezes inatingível por meios lícitos, encontra nas adegas de Manaus um cenário propício.

Nestes espaços, a linha entre o entretenimento legítimo e a exibição de riquezas ilícitas se torna tênue. Carros de luxo estacionados em locais indevidos, correntes de ouro espessas, relógios caros e a presença de indivíduos notórios por suas ligações com o crime, tudo isso pode ser observado em muitas dessas adegas, criando um ambiente que, para jovens em situação de vulnerabilidade, pode ser sedutor e perigoso.

Essa narrativa, repetida à exaustão em letras e vídeos, pode ser um veneno para jovens em situação de vulnerabilidade, seduzindo-os a buscar esses símbolos de status por vias ilícitas, como o roubo e o tráfico de drogas, na esperança de alcançar reconhecimento e admiração. A cena das adegas, com sua atmosfera de descontração e consumo, pode, inadvertidamente, se tornar um pano de fundo para essa exibição de ostentação, normalizando um estilo de vida que, para alguns, é construído sobre alicerces criminosos.

 A teoria das subculturas criminais de Alessandro Baratta nos alerta: em ambientes onde valores e normas da sociedade dominante são desafiados, comportamentos antes rechaçados podem se tornar aceitáveis ou até desejáveis. As adegas, por vezes, inadvertidamente, funcionam como “vitrines” para essas subculturas, normalizando a ostentação derivada do crime. No contexto das adegas, onde a fiscalização pode ser mais branda e a convivência entre diferentes grupos sociais mais fluida, é possível que essas subculturas encontrem um terreno fértil para se manifestar, reforçando seus códigos de conduta. A exposição constante a indivíduos que ostentam um padrão de vida luxuoso, financiado pelo crime, pode validar essa busca por status através da ilegalidade.

A espetacularização do crime pela mídia e especialmente pelas redes sociais, potencializa esse fenômeno. A exposição constante de figuras criminosas como “celebridades” – com sua linguagem, sua moda, seu “brilho” – pode levar à identificação e à emulação por parte de jovens que buscam reconhecimento e status. Quando essas figuras são vistas e celebradas em adegas, consumindo e exibindo, o crime adquire uma falsa aura de glamour e ascensão social, distorcendo a percepção de seus verdadeiros custos e consequências, sendo o crime, por vezes, mascarado como um caminho rápido para o “sucesso”.

Diante desse cenário complexo, a sociedadee o poder público têm papéis cruciais e interdependentes. A sociedade deve ser vigilante, crítica e atuante, enquanto os órgãos públicos devem ser proativos, estratégicos e focados na eliminação do problema.

Para a sociedade, a primeira e mais fundamental ação é a postura crítica e a recusa à naturalização. É preciso desglamorizar o crime em todas as suas manifestações. Isso começa dentro de casa, com o diálogo sobre valores éticos, a importância do trabalho honesto e a construção de um futuro baseado na educação e na integridade. As escolas, as igrejas e as organizações comunitárias devem ser espaços de promoção de valores contrários à ostentação ilícita, oferecendo alternativas de lazer, cultura e esporte que realmente promovam dignidade aos jovens.

É imperativo que a sociedade, especialmente aqueles com maior acesso à informação e educação, adote uma postura crítica e proativa em relação à glamorização do crime. Não se trata de demonizar as adegas ou qualquer espaço de lazer, mas sim de reconhecer o potencial de risco que a falta de discernimento social pode gerar. É fundamental promover valores que incentivem a busca por sucesso e reconhecimento por meios lícitos e éticos, valorizando o esforço, a educação e a integridade.

Além disso, a sociedade tem o dever de denunciar. Manifestações anônimas sobre atividades suspeitas em adegas – como a presença constante de indivíduos armados, movimentação atípica de drogas ou a utilização dos locais para lavagem de dinheiro – são ferramentas poderosas que auxiliam o trabalho policial. A pressão popular por uma fiscalização mais rigorosa e por políticas públicas eficazes também é vital.

O poder público, por sua vez, transcende a mera repressão. É multifacetado e exige uma abordagem estratégica: fiscalização rigorosa e integrada; inteligência e monitoramento; ações preventivas e comunitárias, bem como o combate ao tráfico e à lavagem de dinheiro.

Paralelamente, o poder público e a sociedade civil precisam investir em políticas públicas robustas que ofereçam oportunidades reais de desenvolvimento para os jovens em situação de vulnerabilidade em Manaus. Isso inclui educação de qualidade, acesso ao mercado de trabalho, programas de cultura e esporte, e iniciativas que fortaleçam a autoestima e a capacidade de escolha desses jovens.

A glamorização das adegas em Manaus não é um problema isolado, mas um sintoma de questões sociais mais profundas. Combater seus impactos na segurança pública exige uma ação coletiva e coordenada. Somente assim poderemos desvincular o brilho efêmero da ostentação criminal da imagem de sucesso, construindo uma Manaus mais justa, segura e com oportunidades reais para todos, onde o respeito e a admiração sejam conquistados pela ética e pelo trabalho, e não pela força e pelo crime.

Em suma, o cenário atual das adegas em Manaus deve ser encarado com equilíbrio e responsabilidade. Afinal, o objetivo é que esses espaços não estejam associados à criminalidade, mas sim a promoção do lazer e bem-estar. Quando o brilho do ouro ofusca a ética, a sociedade paga o preço da cegueira coletiva. É tempo de enxergar além da fachada e combater as raízes que alimentam essa perigosa glamorização.


Sérgio Augusto Costa da Silva – Delegado de Polícia, Bacharel em Direito e Teologia, pós-graduado em Direito Público, Penal e Processo Penal, MBA em Gestão Financeira e Contábil no Setor Público-UEA, Pós-graduando em Gestão de Tecnologia aplicada à Segurança de Dados-UEA e Mestrando em Segurança Pública- UEA.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos adega, Amazonas, segurança pública, violência
Valmir Lima 16 de junho de 2025
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