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Variedades

‘O Amor É Estranho’ fala das dificuldades da união entre iguais

13 de março de 2015 Variedades
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SÃO PAULO – Numa entrevista por telefone, de Nova York, o diretor Ira Sacks e o roteirista Mauricio Zacharias, de O Amor É Estranho, contaram que tiveram a chance, no início de sua parceria, de assistir a dez ou 12 filmes de Yasujiro Ozu, numa retrospectiva dedicada ao grande diretor japonês que se realizava em Nova York.

“Foi uma experiência decisiva para ambos”, define Sacks. “A arte de Ozu é feita de modulação, de coisas não ditas e subentendidas. Não posso dizer que houve uma influência específica, mas com certeza estávamos num ‘mood’ que servia ao espírito do nosso filme.”

O Amor É estranho estreou nessa quinta-feira, 12, mais de um ano depois de integrar a programação do Festival de Berlim de 2014 (na mostra Panorama). Por suas qualidades, que são muitas, Love Is Strange talvez tenha sido o filme que faltou no recente Oscar. Poderia ter concorrido nas categorias de filme, direção, atores – no plural. John Lithgow e Alfred Molina formam o par de protagonistas, dois gays de meia-idade que estão juntos há quase 40 anos. Levam uma vida tranquila, estável. E aí sobrevém a tempestade. Ben (Lithgow) e George (Molina) resolvem oficializar sua união quando estão completando 39 anos de vida conjunta.

Parece a melhor coisa a fazer, até porque os tempos são outros e hoje existe maior tolerância pelos direitos dos homossexuais. Você leu tolerância? Tão logo eles fazem sua festa de casamento, o colégio religioso em que Ben trabalha o demite. Sem condições de seguir pagando o caro aluguel do apartamento em que vivem, os dois passam a viver da caridade alheia, não propriamente de estranhos, como a Blanche Dubois de Tennessee Williams em Um Bonde Chamado Desejo. George vai morar com amigos vizinhos, Ben é acolhido pelo sobrinho. Na festa de casamento, Marisa Tomei, emocionada, havia dito que os dois eram um exemplo de maturidade e equilíbrio, mas agora com Ben como um corpo estranho dentro de casa sua união com o marido também passa por um cataclismo.

A situação – quem vai ficar com Ben? Com George? – lembra um pouco a de Parente É Serpente, comédia de humor negro do italiano Mario Monicelli em que papai e mamãe também são despejados e começa um jogo de empurra entre os filhos.

Ninguém quer ficar com eles, e menos ainda com o casal, que é forçado a se separar. Ira Sacks não sabia da existência do filme de Monicelli. Pede detalhes ao repórter, que lembra a carreira do diretor, seu começo no imediato pós-neorrealismo. Sacks gosta da ideia da proximidade. Para ele, seu filme tem o pé no neorrealismo. “Pegamos pessoas comuns e revelamos o que há de extraordinário nelas, e essa, para mim, é a essência de (Vittorio) De Sica e (Roberto) Rossellini.”

Mauricio Zacharias, que coescreveu com o diretor O Amor É Estranho e o anterior Keep the Lights on, é um roteirista brasileiro. Colaborou com Karin Aïnouz em O Céu de Suely, que Sacks ama. Ele conta que houve uma sintonia imediata com Zacharias. “Nós nos inspiramos nas histórias de nossos pais, nossas famílias.

Minha mãe e meu padrasto viveram juntos por 44 anos. Formaram o casal mais extraordinário que já conheci. Ben e George possuem essa reciprocidade, mas nossa ideia nunca foi olhar para o par gay como se fosse a mesma coisa que um casal hétero. Cada um possui suas especificidades, por mais que o afeto independa de sexo. Por isso, achamos que o filme deveria ser invasivo e ter uma cena de sexo de Ben e George, para que o público pudesse sentir o que ambos estão perdendo.”

Como parceiros artísticos, Sacks e Zacharias são atraídos por histórias de autodescoberta. Keep the Lights on é sobre a crise de outro par gay, determinada por fatores internos da dupla. O que os atraía agora os separa, discutem a relação, eventualmente recomeçam. Em O Amor É Estranho, a crise é determinada por fatores externos, pelo mundo ao redor. E é uma história multigeracional. Envolve pelo menos três gerações. Ben e George representam o amor maduro. São estáveis, compreendem-se. Marisa Tomei e o marido, Darren Burrows, formam o casal intermediário. Apesar dos anos de ligação, ainda não atingiram tudo o que queriam e sonharam, e também ainda não estão naquele ponto de quem desistiu das expectativas. E há o garoto, o filho do casal, Charlie Tahan, que tem a vida pela frente e está descobrindo tudo – o amor, o sexo, as dificuldades de qualquer vida a dois, o preconceito. É um filme muito bonito. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

 

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Valmir Lima 13 de março de 2015
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