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Esporte

‘Não vejo mulher preparada para assumir a seleção’, diz René Simões

22 de julho de 2019 Esporte
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Simões também julga que Neymar é mais jogador que Cristiano Ronaldo (Foto: Reprodução / @espnWBrasil)

Por Alex Sabino, da Folhapress

RIO DE JANEIRO – Depois de 18 derrotas em 18 amistosos no Brasil em 1994, René Simões estava determinado a fazer a seleção da Jamaica ganhar pelo menos uma vez. Dias antes da viagem de retorno, pediu para seus auxiliares conseguirem um jogo no interior de Minas Gerais, contra um time de fábrica. Determinou que a partida acontecesse às 8 horas da manhã do domingo.

“Ninguém iria saber que o adversário não era equipe de futebol de verdade. A gente colocava um FC no final do nome e pronto. No domingo de manhã, os funcionários da fábrica estariam bêbados ou de ressaca. Eu estava decidido a ganhar um amistoso”, afirma o treinador, 25 anos depois.

A Jamaica só empatou em 1 a 1 porque fez um gol aos 46 minutos do segundo tempo. Simões levou a equipe jamaicana pela primeira vez para uma Copa do Mundo, em 1998. No Brasil, comandou a equipe nacional feminina, nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, na conquista da medalha de prata. Foi atirado ao alto pelas jogadoras após perder uma final em que o time dominou os Estados Unidos, mas foi derrotado por 2 a 1.

Essa gratidão que a modalidade tem para com ele parece deixá-lo confortável para emitir opiniões que podem soar impopulares. Uma delas é que de que o substituto de Vadão no comando do time feminino tem de ser um homem. 

“Não vejo as mulheres preparadas para assumir. Mas eu vejo que elas podem ser preparadas para ir a uma Copa [no futuro]. Uma treinadora brasileira dirigiu quantos jogos até agora? Em partidas internacionais, quantas dirigiu? Tem de ter rodagem para isso”, afirma. Para chegar a isso, acredita que uma mulher poderia ser nomeada auxiliar e preparada para assumir o cargo em alguns anos.

Após a queda da seleção nas oitavas de final da Copa do Mundo neste ano, na França, a CBF trabalha para trocar o comando da equipe, mas Vadão ainda tem contrato com a entidade. Preocupado com a forma pela qual será lembrado, Simões acredita que conseguiu dar profissionalismo à modalidade.

“Antes [as jogadoras] não eram respeitadas como profissionais e não se comportavam como tal. Eu as reuni e disse que tínhamos de quebrar esse círculo vicioso. Elas nunca mais mudaram”, avalia.

Mas é no masculino de onde vem a polêmica pela qual o treinador é mais lembrado. Cada vez que Neymar comete um erro dentro ou fora de campo, a profecia de que “estamos criando um monstro”, dita Simões em 2010, é reprisada.

Como treinador do Atlético-GO, ele disse as palavras por conta das simulações em campo do jogador que à época tinha apenas 18 anos começava a brilhar com a camisa Santos. Na partida que originou a frase, Neymar também discutiu com Dorival Júnior, que era seu técnico.

Apenas nos últimos meses, o jogador da seleção brasileira deu soco em torcedor após a final da Copa da França, foi acusado de agressão e estupro, acabou cortado da Copa América após uma lesão e se atrasou à apresentação no Paris Saint-Germain, clube que deseja deixar para voltar ao Barcelona.

Simões conta que recebeu ligações até da imprensa francesa para comentar o assunto. Ele não esconde que o tema não é seu preferido, mas não se nega a falar. Afirma ter sido hostilizado quando desabafou e lembra de episódio quando desistiu de fazer suas compras em um supermercado de São Paulo por causa de xingamentos. “Babaca foi a coisa mais leve que me falaram.”

Nos últimos tempos, tudo mudou. “Levei muita pancada. Tá louco! Depois que ele deu o soco no torcedor, um jornalista da França me ligou perguntando se eu estava feliz. Perguntei por qual motivo eu estaria. Respondeu que agora na França as pessoas entendem o contexto do que eu falei. A felicidade é nenhuma. Eu quero que ele jogue bem e seja campeão do mundo”, completa.

Entre as opiniões que podem ser consideradas contrárias ao senso comum, Simões também julga que Neymar é mais jogador que Cristiano Ronaldo, português eleito cinco vezes melhor do mundo. A diferença seria o atacante da Juventus (ITA) está focado o tempo inteiro em ser o melhor. Neymar, não.

Não importa o tamanho da polêmica, René não gosta de ser chamado de visionário por causa de qualquer previsão. Da mesma forma que, apesar da formação, recusa o título de coach. Afastado do cargo de treinador desde 2017, quanto trabalhou no Macaé (RJ), ele afirma fazer “mentorias” com seus clientes -vários deles, jogadores ou técnicos de futebol. Afirma também trabalhado, no ano passado, para Botafogo, Corinthians, Flamengo, Vasco e RB Brasil ao mesmo tempo.

Aconselhar treinadores faz com que ele seja uma espécie de técnico dos técnicos, função trazida à luz por Fábio Carille no final de 2017. “Me deu muita mídia. Não pedi, mas ele deu.”

“Jamais falo de escalação. Isso digo para eles [os treinadores]: não me perguntem sobre esse assunto porque não respondo. ‘Você acha que eu coloco o jogador A ou B?’ Isso é sem resposta. Mas ele pode dizer que se colocar o jogador A, estará quebrando um princípio que estabeleceu. Mas se colocar aquele outro, vai manter o discurso que tem para o grupo. De princípios posso falar”, explica.

Aquele René Simões que levou os jogadores da Jamaica para a Disneylândia de Paris dois dias antes do jogo contra o Japão na Copa do Mundo, em 1998, é o mesmo a acreditar que a goleada de 7 a 1 sofrida pelo Brasil diante da Alemanha na Copa de 2014 foi benéfica para o futebol nacional. Isso porque, segundo ele, obrigou todo mundo a pensar.

Ao listar o que considera errado na organização do futebol nacional cita, de memória, a quantidade de jogadores negociados com o exterior, estabelece uma comparação com o Uruguai e fala do número de atletas do país que foram campeões na Europa.

“O pensamento, o conhecimento evolui. Eu joguei em 1970. Meu treinador dava um berro e todo mundo tremia. Hoje em dia, se o treinador der um berro o jogador treme? Não treme. Se você barra um jogador da equipe, o que é uma medida pedagógica, já vem o empresário dele dizer que vai tirá-lo do clube e levar para outro onde vai ganhar mais”, avalia.

Apaixonado pela Jamaica, onde trabalhou por seis anos e implantou também a liga feminina de futebol, Simões vai novamente na contramão de muitos ao ser favorável à especialização constante dos treinadores, mesmo os consagrados.

Essa é sua justificativa para defender um homem como próximo técnico da seleção feminina, enquanto, nesse processo, uma mulher seria preparada para assumir. Ele sabe que vai causar controvérsia por causa dessa opinião. Talvez menos que em 2010, quando comparou Neymar com um monstro. Mesmo assim, controvérsia.

“Por que um médico tem de fazer pós-gradução, residência, especialização e o treinador, não? Tudo evolui, pô! Você sabe que eu sou jornalista agora? Eu sou jornalista! Não fiz faculdade, mas sou jornalista. Fui em um órgão do governo, apresentei uma carta da BandNews, onde comentei a Copa América, e agora sou jornalista. Isso é sério? Não é sério. Eu não poderia ser jornalista de jeito nenhum. É um absurdo.”

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Assuntos René simões, Seleção Feminina
Redação 22 de julho de 2019
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