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© 2022 Amazonas Atual
Sandoval Alves Rocha

Não basta tecnologia, é necessário mudar de mentalidade

18 de setembro de 2026 Sandoval Alves Rocha
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MANAUS – As crises climáticas nos impõem um grande desafio. Durante muito tempo se tentava esconder a degradação ambiental causada pelo modelo capitalista de produção. A tendência geral era ignorar os apelos dos movimentos ambientalistas, uma vez que ouvir tais apelos implicava se responsabilizar pela busca de um equilíbrio entre as demandas produtivas e a disponibilidade de recursos naturais. A palavra de ordem era crescimento econômico: crescer, crescer e crescer. Não importava as consequências ambientais nem sociais.

Nas últimas décadas a devastação do meio ambiente não pode mais ser jogada para debaixo do tapete. Não é possível escondê-la da vista de todos. A temperatura do planeta já é sentida boa parte da humanidade, as secas são cada vez mais severas e longas, fenômenos como El Niño ganham intensidades preocupantes, as enchentes geram o caos generalizado.

Tudo isso complica imensamente a vida da maioria da população. A escassez de água torna-se algo normal, os desastres ambientais dizimam a vida de milhares de pessoas, a qualidade de vida nas cidades torna-se insuportável, o desaparecimento dos biomas elimina a biodiversidade, que levou milhares de anos para ser forjada.

Apesar disso, aqueles que operam a devastação resistem em reconhecer a crise em que nos instalamos. O amor ao lucro é mais forte do que o amor à vida no planeta e do planeta. A cultura do consumo anestesiou nossas consciências. O cidadão saiu de moda, sendo substituído pelo consumidor.

A cultura do consumismo atua como um dispositivo de sedução que gera desejos constantes e promessas de satisfação que nunca se cumprem totalmente. Eternos frustrados em busca do produto ideal, que nunca é adquirido. As estratégias de atração consumista entram num nível de alta sofisticação, promovendo uma hipnose coletiva.

Os grandes empresários, banqueiros e acionistas controlam o mundo, alegando que o avanço da tecnologia nos garante um futuro melhor, como se a tecnologia fosse neutra, acessível a todos e independente dos valores que a forjaram. Tais perspectivas de um mundo melhor, no entanto, não contemplam a todos e todas. A tecnologia é filha do seu tempo e da sua cultura. Uma cultura antropocêntrica, do descarte, da competição e da agressão ambiental. Para revertermos as crises climáticas não basta tecnologia, mas é imprescindível a mudança de mentalidade e uma nova sensibilidade do cuidado.

Serão a mudança de postura e a transformação das nossas relações com o Meio Ambiente que promoverá um maior equilíbrio entre as nossas necessidades e a pressão imposta ao planeta por recursos naturais. Ignorando o seu vínculo essencial com a natureza, o homem criou um ritmo próprio e superacelerado desconsiderando a dinâmica silenciosa do ecossistema. É necessário estabelecer um limite, pois esses recursos não são infinitos. É necessário permitir que o planeta respire, dando-lhe o tempo necessário para se regenerar e revigorar o ciclo da vida, que se encontra ameaçada.

A Era das crises climáticas pode ser uma oportunidade de resgatarmos a humildade original, quando o ser humano reverenciava a natureza e subtraia dela somente o necessário para viver com dignidade. Ao invés disso, as nossas fantasias delirantes de poder, relevância e autoestima desproporcional nos fizeram estúpidos e incapazes de perceber as coisas mais importantes da vida.

Nesse sentido, ao ignorar o nosso vínculo com a natureza, é urgente percebermos que “os nossos conhecimentos quando são fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância, resistindo a integrar-se numa visão mais ampla da realidade” (LAUDATO SI’, nº 138). 


Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia, degradação ambiental, devastação ambiental, Meio Ambiente, Tecnologia
Cleber Oliveira 18 de setembro de 2026
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