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Dia a Dia

MP da Bolívia acusa polícia do Mato Grosso de matar indígenas na fronteira

4 de setembro de 2020 Dia a Dia
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A denúncia foi feita por moradores da comunidade boliviana de San José de La Frontera (Divulgação/ Gefrom)
Por Pablo Rodrigo, Da Folhapress

CUIABÁ- O Ministério Público da Bolívia acusa a Polícia Militar de Mato Grosso de ter matado quatro indígenas chiquitanos, de nacionalidade boliviana, que caçavam na região da fronteira.

As mortes ocorreram no dia 11 de agosto e foram registradas pelo Gefron (Grupo Especial de Fronteira, vinculado à PM), como um confronto com traficantes.

A denúncia foi feita por moradores da comunidade boliviana de San José de La Frontera, que fica na divisa do país vizinho com a cidade de Cáceres, a 225 km de Cuiabá.

De acordo com as 70 famílias da comunidade, os índios Arcindo Sumbre García, Paulo Pedraza Chore, Yonas Pedraza Tosube e Ezequiel Pedraza Tosube Lopez estavam caçando na região da cidade boliviana de San Matias quando foram surpreendidos pelos militares.

Por meio do Ministério de Relações Exteriores, o Ministério Público boliviano apresentou uma queixa junto ao Itamaraty contra o Gefron.

Para investigar o caso foi criada uma comissão formada por representantes da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), dos Conselhos Nacional e Estadual de Direitos Humanos, da Ouvidoria Geral da Polícia de Mato Grosso e de associações de direitos humanos.

O grupo esteve na última na terça-feira, 2, em San Matias, e os relatos colhidos indicam que os índios bolivianos foram caçar na região de fronteira após receberem uma ligação de um fazendeiro local.

“Segundo os depoimentos, os índios são conhecidos dos fazendeiros. E os próprios fazendeiros pedem que eles cacem porque têm muito porco do mato e javaporco na região. Esses animais destroem as lavouras. Então a caça é comum”, diz Lúcio Andrade, ouvidor-geral da Polícia Militar de Mato Grosso, que esteve em San Matias.

Ainda de acordo com os relatos, os indígenas estavam armados por conta da caça. Como não retornaram, os familiares decidiram procurar os quatro na área de fronteira e encontraram sangue.

Após uma busca por Cáceres, eles foram localizados no pronto-socorro do Hospital Regional da cidade brasileira.

Já na versão da polícia mato-grossense, segundo boletim de ocorrência registrado no dia dos acontecimentos, os agentes teriam ido até a fronteira após o serviço de inteligência ter recebido a informação de que traficantes armados estariam vindo ao Brasil.

Ao chegar ao local, os militares alegam que viram homens armados e foram recebidos a tiro. Os agentes teriam então revidado e, após o tiroteio, viram os quatro chiquitanos feridos no chão.

Junto aos indígenas, os policiais encontraram quatro armas de fogo e diversas munições, mas nenhuma droga.

Os militares afirmam que tentaram levar os indígenas para o hospital, mas os quatro teriam morrido no caminho.

A imprensa boliviana tem tratado o caso como homicídio e pede que o governo do país exija respostas do Brasil.

À reportagem o prefeito de San Matias, Fábio Lopez, afirmou que ingressará com uma denúncia contra os militares junto ao Itamaraty e que solicitará indenização para os familiares das vítimas. “Muitas crianças perderam os seus pais. E eram eles que traziam comida, provento para a família. Então é preciso indenizar essas famílias para que não passem dificuldades.”

Ele disse ainda que vem buscando uma solução rápida com o Brasil, frisando o bom convívio entre brasileiros e bolivianos. “Somos amigos das autoridades brasileiras. Por isso acreditamos que vamos encontrar os verdadeiros culpados desses crimes”, afirmou.

Olivares se reuniu ainda nesta quinta-feira (3) com o prefeito de Cáceres, Francis Maris (PSDB), e representantes do Gefron, da Polícia Civil e da Polícia Federal.

A titular da Delegacia Especial de Fronteira (Defron) da Polícia Civil, Cinthia Gomes da Rocha Cupido, disse à reportagem que abriu inquérito para apurar a morte dos chiquitanos em território brasileiro.

A delegada aguarda a perícia da necropsia e do local de crime para saber se houve confronto ou não, além da denúncia de tortura. Familiares disseram que, ao ver os corpos no IML, encontraram sinais de tortura.

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Assuntos Bolívia, brasil, fronteira, indígenas
Redação 4 de setembro de 2020
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