
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS – O MP-AM (Ministério Público do Amazonas) relaciona seis questões sobre as versões apresentadas por policiais militares da Rocam (Ronda Cândido Mariano) suspeitos de envolvimento na chacina do ramal Água Branca, no quilômetro 32 da rodovia AM-010. O crime ocorreu no dia 21 de dezembro de 2022. Quatro pessoas foram encontradas mortas em um veículo Onix branco.
Os policiais disseram que não foi encontrado nada de ilícito no carro das vítimas na abordagem ocorrida na Rua Portland, bairro Nova Cidade – a ação foi registrada em vídeo que circulou nas redes sociais -, mas que elas foram levadas para o ramal do Acará, na Avenida das Torres, porque uma delas relatou que lá havia drogas escondidas.
Entre os pontos questionados pelo Ministério Público está a quantidade de policiais (16 agentes), incluindo um oficial, para uma ocorrência em que não houve resistência ou apreensão de drogas ou armas.
As informações foram relatadas pelos quatro policiais – um tenente, um sargento e dois cabos – presos no dia 17 deste mês na Operação Cerco Fechado. Eles foram os únicos que disseram alguma coisa sobre o que aconteceu na noite do crime. Os doze agentes presos em dezembro ficaram em silêncio.
Os agentes são investigados pelas mortes de Diego Máximo Gemaque, de 33 anos, Lilian Daiane Máximo Gemaque, de 31 anos, Alexandre do Nascimento Melo, de 29 anos, e Luciana Pacheco da Silva, de 22 anos. Os corpos das vítimas foram encontrados dentro do veículo Onix na manhã do dia 21 de dezembro no ramal Água Branca. Alexandre é filho do sargento da Polícia Militar Alessandro da Silva, de 46 anos.
Os doze policiais presos em dezembro se tornaram suspeitos após a repercussão de vídeos que mostram o momento em que eles fizeram a abordagem no veículo das vítimas.
Além disso, câmeras da SSP-AM (Secretaria de Segurança Pública do Amazonas) registraram viaturas da Rocam escoltando o carro das vítimas na Avenida das Torres, em direção à zona norte de Manaus.

As investigações apontam que, antes de irem para o ramal Água Branca, onde as vítimas foram encontradas mortas, os policiais levaram elas para o ramal do Acará, na Avenida das Torres.
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Além de ficarem em silêncio na delegacia, os policiais da Rocam presos em dezembro entregaram aparelhos de telefone celular sem qualquer conteúdo. Os investigadores suspeitam que os aparelhos não eram os mesmos que eles usavam no trabalho de rotina ou foram “previamente preparados para entrega à polícia, já com a exclusão de qualquer dado que pudesse servir de prova em relação aos fatos e inclusão de novos chips”.
Versões
Antes de ser preso, o tenente da Polícia Militar foi ouvido na condição de testemunha. O ATUAL teve acesso ao depoimento. Ele relatou que, naquela noite, foi comunicado sobre a abordagem no Onix branco em que estavam as vítimas por um sargento de outra viatura, mas que não se recorda a hora e nem o meio pelo qual foi informado.
Ele disse que não recebeu pedido para consultar mandados de prisão contra as pessoas abordadas e que não foi comunicada a existência de algum ilícito contra elas.
O oficial também disse que, na mesma noite, policiais de outra viatura o comunicaram que iriam “verificar situação relacionada a entorpecentes nas proximidades do Conjunto Viver Melhor, no Bairro Santa Etelvina”, e que agentes de outra viatura prestaram auxílio nessa diligência.
Sem saber informar a hora, o tenente disse que um dos sargentos das duas viaturas entrou em contato com ele e pediu apoio para “deslocar para um ramal logo depois do Viver Melhor” – segundo os investigadores, trata-se do ramal Acará -, mas ele alegou não se lembrar do nome do ramal, apenas que se deslocou pela Avenida das Torres.
No ramal, segundo o oficial, havia três viaturas da Polícia Militar e um carro branco parado com duas mulheres dentro do veículo e dois homens fora.
O tenente relatou que foi informado que não havia nada ilícito contra os ocupantes do veículo branco, que era apenas “misura” – termo usado para designar “notícia falsa” – e, por isso, determinou que o veículo e seus integrantes fossem liberados. Depois, retornou para a base da Rocam.
O oficial afirmou que, no ramal, viu os homens entrando no carro branco, mas não viu as viaturas e nem o veículo Onix saindo de dentro da área de mata.
Um sargento que estava na viatura Comando – a mesma em que estava o oficial – confirmou que ele os outros três agentes foram ao ramal próximo ao conjunto habitacional Viver Melhor e que, ao chegarem no local, encontraram outras três viaturas e um carro branco. Ele disse que viu duas mulheres dentro do carro e dois homens fora.
Segundo o policial, a situação era que policiais tinham abordado um carro e um dos ocupantes tinha feito denúncia que havia um “carregamento de drogas escondido na área da mata”.
O sargento disse que houve uma “reunião” com os comandantes das equipes, mas que quando chegaram já estavam decidindo pela liberação das quatro pessoas que estavam no carro branco, pois não tinham encontrado drogas ou armas. Ainda conforme o policial, o veículo branco foi liberado e todos deixaram o local.
O sargento disse, ainda, que viu a liberação do veículo branco e viu o veículo saindo do local com os quatro integrantes embarcados após liberação, mas não sabe para qual direção foram depois que saíram do ramal. Os dois cabos que também estavam na viatura Comando disseram que não viram o veículo branco no local.
Dúvidas
Ao pedir a prisão dos quatro policiais que estavam na viatura Comando, o Ministério Público sustentou que existem divergências nos depoimentos deles.
A Promotoria de Justiça estranhou o fato de quatro viaturas da Rocam, incluindo uma com um oficial, serem acionadas para uma ocorrência em que não houve resistência e não foram encontradas drogas ou armas.
O MP estranhou ainda que, mesmo tendo verificado a inexistência de drogas no veículo, os policiais da abordagem esperaram a chegada da viatura Comando para dizer ao tenente que a informação era falsa, “fazendo o oficial ir até o local para dar a informação pessoalmente”.
Abaixo, as quatro questões do Ministério Público sobre as versões dos policiais militares acusados da chacina.
1. Por que tantas equipes envolvidas em uma ocorrência na qual não houve resistência, não foram encontradas drogas, não foram apreendidas armas ou qualquer objeto a apontar a existência de algum ilícito criminal, nem havia de plano indicativo de qualquer situação de maior monta?
2. Por que motivo deslocar para área de mata com um veículo em que nenhuma suspeita de crime foi coletada? Por que alguém, do nada, diria à polícia que necessitava entregar a materialidade de um crime grave, para sofrer as consequências penais, sem que houvesse qualquer indicativo de que eram criminosos na abordagem inicial? Simplesmente as vítimas abordadas decidiram entregar, do nada, grande quantidade de drogas num ramal ermo, correndo toda sorte de riscos?
3. Seria o sistema de Justiça e Segurança Pública do Amazonas tão ingênuo a ponto de crer na afirmação do 3º Sgt QPPM N. (…) de que um dos integrantes do veículo branco, em uma abordagem na qual não foram encontrados quaisquer ilícitos e sem possuir contra si mandados de prisão ou coisa que o valha, teria “denunciado” a existência de carregamento de drogas escondido em área de mata?
4. Por que razão houve deslocamento para o ramal e foi solicitado o apoio da VTR Comando a uma ocorrência na qual não houve identificação de pessoas com mandados em aberto, não houve apreensão de armas, não houve apreensão de drogas, não houve resistência ou qualquer ocorrência que justificasse a própria abordagem policial inicial?
