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Dia a Dia

Mortes por Covid-19 em Manaus podem ter sido 108% maior que as registradas, diz estudo

19 de julho de 2020 Dia a Dia
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covid
Subnotificações podem ter influenciado números imprecisos sobre mortes (Fotos: Geizyara Brandão/ Susam)
Da Redação, com Ascom Fiocruz

MANAUS – Em quase 5 meses após o surgimento dos primeiros casos de Covid-19 no país, ainda não é possível atestar números precisos da mortalidade específica pela doença devido às falhas da cobertura da vigilância laboratorial e epidemiológica e as subnotificações. Em Manaus, o número de mortes pode ter sido três vezes maior que o dos registros oficiais, segundo estudo da Fiocruz.

A pesquisa analisou a mortalidade em Manaus no período entre a 11ª e a 16ª semana epidemiológica (de 15 de março a 25 de abril de 2020). Essa investigação, em junho, apontou um número explosivo de mortes na cidade em relação aos anos anteriores, o que poderia indicar mortes causadas pela Covid-19, além de revelar a fragilidade dos serviços de saúde na cidade.

Os pesquisadores ampliaram a análise dos dados para outras três capitais (Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo) para estimar quantas mortes excedentes aconteceram nessas cidades, sejam elas diretamente atribuídas à Covid-19 ou indiretamente.

“Em São Paulo, por exemplo, em torno de 28% das mortes excedentes não foram diretas e oficialmente associadas à Covid-19. Neste caso, é possível que a proporção de subnotificações relativas à doença seja menor do que nas demais cidades. Por outro lado, em Manaus, o número de mortes excedentes pode ter sido 108% maior do que a quantidade atribuída direta e oficialmente à Covid-19. Em outras palavras, a chance de ampla subnotificação de mortes por Covid-19 parece ser bastante real, principalmente se lembrarmos que Manaus, entre as capitais com mais de 1,5 milhão de habitantes, é a única sem Serviço de Verificação de Óbito e, historicamente, com precária estrutura de vigilância epidemiológica”, disse o pesquisador Jesem Orellana.

“Não por acaso, a proporção de mortes no domicílio ou via pública em Manaus foi aproximadamente 100% maior em 2020, quando comparado a 2019. Um quantitativo aproximadamente três vezes maior do que o observado em São Paulo, no mesmo período. Em cidades como Rio de Janeiro e Fortaleza essa proporção também foi bastante elevada, sugerindo não só ampla subnotificação, como graves falhas no enfrentamento da epidemia”, afirma Orellana.

As notificações diretamente atribuíveis à Covid-19 informam a ocorrência de mais de 74 mil mortes no Brasil. O estudo do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) foi em conjunto com  a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a UEA (Universidade do Estado do Amazonas). Os pesquisadores adotaram modelo matemático para analisar o período de 23 de fevereiro a 13 de junho de 2020, tendo como base os anos de 2015 a 2019, para estimar as mortes esperadas.

Segundo a investigação, houve uma somatória de mais de 22 mil mortes excedentes durante a epidemia em quatro capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Manaus. Para a análise, foram utilizados dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do Ministério da Saúde e da Central de Informações do Registro Civil Nacional, bem como relatórios epidemiológicos de secretarias de saúde.

Os pesquisadores observaram que o número de mortes excedentes variou ao longo do tempo, mas, em geral, os picos mais proeminentes de mortalidade ocorreram nos meses de abril e maio, especialmente em Manaus e Fortaleza. Embora, esse número tenha sido proporcionalmente menor em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

“Avaliar o excesso de mortes pode ser a única e mais viável forma de se mensurar rapidamente os impactos ou a severidade da crise sanitária e sua possível relação com a capacidade de resposta ao problema”, disse Jesem Orellana.

Segundo o pesquisador, o indicador de mortalidade por causas naturais, utilizado na análise, representa o total de óbitos ocorridos em cada cidade, em certo intervalo de tempo e em indivíduos com 20 anos ou mais, excluindo as mortes não-naturais ou violentas, como acidentes de trânsito, suicídios e homicídios.

As cidades investigadas foram selecionadas especialmente porque concentravam nesse período, em torno de 35% de todas as mortes por Covid-19 notificadas no Brasil, e aproximadamente 67% de todas as mortes por Covid-19 notificadas pelas 27 capitais, até o fim da semana epidemiológica 24 (7 a 13 de junho).

O pesquisador alerta ainda que a análise das quatro capitais representa menos de 15% da população brasileira, e que se o estudo considerasse outras metrópoles e municípios, o excedente de mortes seria muito maior

“Na verdade, se a gente for pensar em Brasil, com 5000 e poucos municípios, esse número de mortes excedentes pode facilmente passar dos 100 mil e, nesses 100 mil, provavelmente, vamos ter muitos casos de Covid-19 que foram mal classificados. Essa estatística que estamos vendo hoje, de aproximadamente 74 mil mortes, está aquém da realidade, o número de mortes do Brasil, pode ser muito maior”, disse.

O pesquisador informa que seu grupo continua os estudos sobre essa temática e, em breve, serão publicadas novas análises.  

Acesse aqui o estudo Explosão da mortalidade no epicentro amazônico da epidemia de Covid-19.

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Assuntos Covid-19, Fiocruz, manchete, mortes por coronavirus, subnotificação
Cleber Oliveira 19 de julho de 2020
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1 Comment
  • Iacob Rodrigues disse:
    19 de julho de 2020 às 20:51

    Manaus e uma cidade com dois milhões de pessoas. A maioria da população e composta de pessoas jovens, sem apenas 27 ℅ da população composta de pessoas idosas. Houve muito pouco teste para covid 19. Isso impossibilita ter uma visão do total de pessoas que foram infectadas. Vi centenas e centenas de pessoas com sintomas leves de covid, voltar para casa sem fazer o teste. Acredito que, embora tenha havido muitos óbitos, devido a população manauara ser jovem, a maioria teve a sars cov2 de maneira assintomática. Se esse for o caso, Manaus teve caso de covid em média 20 vezes mais que as estatísticas mostram. Isso significa que 70℅ da população já teve covid. Temos aí uma imunidade de rebanho.

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