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Dia a Dia

Médico da Prevent Senior admite equívoco no registro de estudo sobre cloroquina

11 de novembro de 2021 Dia a Dia
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Hospital pertencente a Prevent Senior em São Paulo (Foto: Divulgação)
Por Mariana Zylberkan, da Folhapress

SÃO PAULO, SP – O médico da Prevent Senior Rodrigo Barbosa Esper, autor do estudo sobre a efetividade da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com Covid, reconheceu que cometeu um equívoco no registro do documento que analisou a reação de doentes ao medicamento.

Em depoimento à CPI da Prevent, conduzida pela Câmara Municipal de São Paulo, nesta quinta-feira (11), Esper disse que analisou os dados da equipe de telemonitoramento dos pacientes da operadora com sintomas gripais no início de abril de 2020, dias após os primeiros registros de Covid.

Dos cerca de 600 pacientes, num total de 1.700 atendimentos, 5% tomaram o chamado “kit Covid”, composto por medicamentos como hidroxicloroquina e azitromicina -que não têm comprovação de efetividade no tratamento da doença- e tiveram menos necessidade de internação.

“Quando me deparei com isso, entendi que era um dever ético e moral avisar a comunidade médica”, disse Esper durante o depoimento aos vereadores. .

Com base nesses dados, o médico relatou que redigiu um artigo observacional e o incluiu de forma equivocada sob número de outro tipo de investigação registrado na Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).

“Fiquei sabendo do registro na Conep de um estudo ambulatorial e, por equívoco, entendi que havia um grupo escrevendo os protocolos de pesquisa [sobre uso de hidroxicloroquina em pacientes com Covid]. Peguei aquela autorização, na madrugada, e coloquei no manuscrito”, disse o médico sobre o trâmite de registro de pesquisas científicas.

Ao se dar conta do erro, alguns dias depois após repercussão das informações, Esper disse que retirou o estudo automaticamente da plataforma. “Isso jamais foi publicado”, disse o médico, que foi convocado pelo Conep na época para dar explicações. Em seguida, o estudo foi suspenso pelo órgão.

O diretor do Conep, Jorge Venâncio, disse em depoimento à CPI da Câmara que havia fortes indícios de fraude no estudo apresentado pelo médico da Prevent Senior.

No depoimento aos vereadores, Esper negou qualquer tipo de experimentação com pacientes da Prevent Senior, e reconheceu que há práticas off label, nome dado ao uso de medicamentos para fins não previstos na bula original, como foi o caso da hidroxicloroquina durante a pandemia.

A análise com os números do telemonitoramento da Prevent Senior feita por Esper foi publicada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em uma rede social.

Favorável ao uso da cloroquina, Bolsonaro atribuiu os dados ao presidente da operadora de saúde, Fernando Parrillo, e usou os números para defender o uso do “kit Covid”.

Esper reclamou da politização do tratamento experimental na pandemia. “Quero deixar claro que não sou ligado a nenhum partido político assim como a Prevent Senior”, disse.

A CPI da Prevent Senior ouviu também nesta quinta-feira outros três integrantes da operadora de saúde: o médico Rafael de Souza da Silva, diretor do departamento de telemedicina, a diretora clínica Daniella Cabral de Freitas, e o diretor de gestão Sérgio Antônio Dias Silveira

Os médicos haviam sido convocados para prestar depoimento como testemunhas à CPI na sessão da semana passada, mas a participação foi adiada para esta quinta-feira. Na ocasião, o advogado dos médicos apresentou um habeas-corpus preventivo que lhes garantiu o direito de ficar calado e de não produzir provas contra si mesmos.

Na ocasião, em nota, a Prevent Senior afirmou que havia previsão de que os médicos participassem de forma remota, mas como foi exigida a presença física, os depoimentos tiveram que ser adiados.

Ao ser questionado pelo presidente da CPI, o vereador Antonio Donato (PT), sobre envio de mensagens aos médicos sobre o dever de prescrever flutamida -mais um medicamento sem eficácia comprovada- aos pacientes com Covid, Esper negou qualquer interferência na autonomia dos profissionais.

Os médicos ouvidos reconheceram a existência de um guia clínico que norteou os atendimentos no início da pandemia.

Primeiro a ser ouvido, o médico Rafael de Souza da Silva, diretor do departamento de telemedicina da operadora, também negou qualquer orientação que interferisse na autonomia do médico.

De acordo com depoimentos de médicos que denunciaram a Prevent Senior à CPI do Senado, havia determinação expressa da direção da empresa em prescrever os medicamentos do “kit Covid”, apesar do avanço das pesquisas que levou à constatação da falta de efetividade dos medicamentos para tratar a doença.

O médico também negou que tenha assinado todas as receitas para “kit Covid” prescritas via telemedicina, informação apurada pela CPI, segundo Donato.

O diretor de telemedicina reconheceu que, no início da pandemia, foram prescritos kits Covid a pacientes com sintomas gripais mesmo sem a confirmação de infecção pelo coronavírus porque “os testes eram escassos e demoravam até 14 dias para obter o resultado”.

Força-tarefa Entidades médicas parceiras da força-tarefa instaurada pelo Ministério Público de São Paulo para investigar a Prevent Senior irão examinar pacientes da operadora que tiveram problemas de saúde após tomarem os medicamentos do “kit Covid”.

Ao menos quatro pacientes ouvidos pelos promotores relataram problemas como falta de ar e arritmia durante o tratamento.

Os exames serão realizados pela APM (Associação Paulista de Medicina) e pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo). As entidades também foram convocadas a analisar os prontuários de pacientes da Prevent Senior.

A força-tarefa investiga se a administração do kit Covid causou danos ou agravou o estado de saúde de pacientes com doenças cardíacas.

Nesta quarta-feira (10), os promotores receberam um terabyte de documentos dos integrantes da CPI do Senado.

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Assuntos cloroquina, estudo, Prevent Senior, registro
Redação 11 de novembro de 2021
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