
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — Com temperaturas que chegam a 39ºC, estudar nas escolas públicas de Manaus é uma verdadeira “prova de fogo”. Quando não há ar-condicionado, ou o aparelho não dá conta de esfriar as salas de aula, o ambiente esquenta, literalmente.
A mãe de um aluno da Escola Estadual Professora Hilda de Azevedo Tribuzi, na Avenida Noel Nutels, zona norte da capital, relatou o drama do filho de 12 anos. O adolescente se queixa do calor no colégio, principalmente nas aulas de educação física.
“Meu filho tem chegado em casa com muito mal-estar. Ele fala que não quer ir muito para a escola porque está muito quente. Ele fica com muita dor de cabeça. Os colegas ficam cansados e os gritos aumentam, pois é muito ruim estar na sala. Chegar da educação física e encontrar a sala ainda mais quente deixa todos suados”, relata.
Ao buscar o filho na escola, ela disse que percebeu estudantes tossindo. O calor, combinado com a fumaça das queimadas que ocorrem em todo o estado do Amazonas, prejudica a qualidade do ar.
“O meu filho melhora, mas depois adoece. Com aquele ar-condicionado que não refrigera, a cidade toda poluída e cheia de fumaça, os alunos espirram uns sobre os outros. As UBS [Unidades Básicas de Saúde] estão cheias de crianças doentes. E as escolas também”, reclama a mãe.
“Eles ficam irritados, alguns têm falta de ar por problemas respiratórios. O calor dificulta muito a aprendizagem. Os professores também passam mal. Volta e meia há um professor doente. Como o aluno vai aprender sem o professor na sala porque ele está doente? Não conseguem respirar e um acaba passando doença para o outro”, diz a mulher, que preferiu não ser identificada.

Improviso
O ATUAL apurou que professores e pais estão se mobilizando para arrecadar recursos a fim de garantir a manutenção de aparelhos de ar-condicionado. Com salas que têm em média de 40 a 45 alunos, há casos de aparelhos que apenas ventilam, insuficiente para refrigerar o ambiente.
Na Escola Estadual Senador Manuel Severiano Nunes, no bairro Alvorada, zona centro-oeste, a situação é semelhante. Conforme apurou o ATUAL, os alunos vão para os corredores onde a temperatura é mais amena do que nas salas de aula.
Outras alternativas são intercalar turmas no auditório, onde o ambiente é mais aberto, ou na biblioteca, onde há refrigeração.
Manifestação
Pais e alunos da Escola de Tempo Integral Gilberto Mestrinho, na Avenida Urucará, no bairro Cachoeirinha, realizaram uma manifestação na manhã de quarta-feira (18) para cobrar a instalação de ar-condicionado nas salas.
Uma mãe, identificada apenas como “Alaíde”, relatou a falta de aparelhos nas salas, além das condições “precárias” dos banheiros. Segundo ela, a direção da escola solicitou ajuda à Seduc, mas não obteve retorno.
“O diretor já fez vários ofícios pedindo à Seduc […] já foram à Seduc, mas eles disseram que ‘infelizmente, temos que aguardar’. Aguardar o quê? Nossas crianças estão precisando, eles são crianças, são seres humanos”, desabafou.
“Alaíde” lembra que a escola é de tempo integral, mas “as crianças estão aí sofrendo”. “Temos que buscá-las ao meio-dia, às 10 da manhã, às 14 horas. Não tem condições. Na verdade, o horário de saída é às 16h”, disse. “O calor da sala é horrível. Estamos pedindo [ajuda] porque temos direito. Professores e alunos adoecendo, alunos indo embora cedo devido ao calor. Seduc, faça alguma coisa”, pediu.
Na escola Altair Severiano Nunes, no Conjunto Eldorado, Parque 10 de Novembro, a situação é idêntica. A escola tem 8 salas, mas apenas duas têm condições ambientais adequadas para as aulas. Nas demais o calor é “agonizante” e deixam os alunos inquietos.
Riscos à saúde
Ao ATUAL, o pneumologista David Luniere citou os riscos à saúde que alunos e professores enfrentam em salas de aula sem climatização. Segundo ele, a falta de ar-condicionado em ambientes fechados pode levar à desidratação.
“Em escolas onde não existe climatização do ambiente, o aumento de temperaturas pode levar a eventos de desidratação, pode levar a déficit de atenção porque o calor vai incomodar com a desidratação, a pessoa vai ter perda de capacidade de reter conteúdo na memória. Assim como também a própria atenção em se concentrar em algo que possa gerar capacidade de aprendizado”, alerta o especialista.
Luniere também ressalta que a falta de ventilação pode agravar problemas respiratórios em alunos com histórico familiar de doenças. “Tem a tosse, sensação de falta de ar, desconforto torácico. Se o paciente de fato apresentar esses sintomas, então pode ocorrer crises respiratórias da sua doença de base, pode levar a outros sintomas como chiado no peito, entre outros”.
David Luniere observa que, ao entrar em um ambiente quente e abafado, onde o ar não circula adequadamente, a umidade relativa do ar aumenta. “Então, já está quente e você vai entrar em um ambiente que é mais quente, que não circula ar, que está abafado, que gera uma alta umidade onde não há ventilador ou janelas adequadamente abertas para circular o ar. Isso pode, sim, gerar fator de gatilhos para o aparecimento de sintomas de doenças de base”, acrescenta.
Luniere enfatiza que a ausência de climatização em salas de aula afeta não apenas o conforto, mas também as funções neurocognitivas. “Um ambiente de sala de aula onde não há um climatizador de ar, um ar condicionado, que gere uma circulação de ar adequada de calor extremo, onde gera esse desconforto na pessoa, vai levar a alterações neurocognitivas. Terá um déficit de atenção”.
“Pode não ter uma capacidade de reter o conteúdo de forma adequada, tendo um déficit de memória. Pode ter um aumento da irritabilidade, impaciência, justamente porque fica difícil, não só pela questão do conforto no ambiente, mas como também prejudica a questão da respiração, porque vai gerar um ar mais pesado para se respirar e dessa forma o paciente tolerar esse sintoma”, concluiu.
Manutenção programada
Em nota, a Seuc informou que nas escolas citadas os serviços de recuperação dos aparelhos de ar-condicionado estão programados e deverão ocorrer de acordo com o cronograma de atendimento das empresas especializadas.
“A Secretaria de Educação, por meio de seu departamento de infraestrutura, ressalta ainda que devido às altas temperaturas e a forte onda de calor registradas no Amazonas, intensificadas pelo verão amazônico, está reforçando as ações de manutenção nas escolas da rede estadual, de modo que possa amenizar a situação”, comunicou a Seduc.
