
Por Teófilo Benarrós de Mesquita, do ATUAL
MANAUS – O rio Negro atingiu a cota de alagação no dia 11 de maio. A marca, de 27,5 metros de profundidade, serve de alerta ao poder público para adotar providências que previnam contra prejuízo material e econômico causado pelo avanço das águas sobre as ruas no Centro de Manaus.
Os comerciantes que são atingidos pelas cheias improvisam ou recorrem a medidas como elevação do nível do piso para proteger mercadorias. Alguns transferem o estoque para depósitos em áreas não afetadas. São ações repetidas a cada ano no período de cheia.
Entre prevenir e remediar, os lojistas preferem a primeira opção. A preocupação é com a classificação da enchente. Em caso de “severa”, as medidas para salvar produtos é imediata. Quanto mais alta a cota, maior a severidade da cheia.
É o caso de Aluísio Souza, de 50 anos, proprietário do Atacadão do Alho, na Rua dos Barés. “Creio que o tempo já passou. O dia 15 de maio é o sinalizador. Este ano não deve encher muito”, aposta. Marco Antunes, 56 anos, do Armazém Português, na Rua Barão de São Domingos, diz que a natureza é bonita, mas imprevisível. Ele prefere se mobilizar para diminuir o prejuízo a ter que apostar na sorte.

Marco Antunes monitora a cheia do Rio Negro diariamente e pessoalmente, no “olhômetro”. A 90 metros da orla, pela Avenida Lourenço da Silva Braga, uma caminhada de menos de um minuto dá a ele a noção do nível das águas.
Há 20 anos que a rotina é diária para o comerciante. “Em época de cheia severa, a solução é tirar a mercadoria e enviar para o depósito, suspender as compras de novos produto, e instalar paletes de madeiras para proteger das águas as mercadorias que continuam expostas para venda”, diz Marco. Os produtos ficam elevados a 60 centímetros do piso da loja.
Além de ficar dois meses sem renovar o estoque, Marco Antunes diz as vendas despencam na época de cheia severa. “A redução no volume de vendas é de 80% durante o período da cheia”.
O Armazém Português é especializado na venda de produtos naturais, integrais, orgânicos, lights, diets, especiarias, frutas secas, castanhas, azeites e ervas medicinais.
Um dos pontos mais atingidos todos os anos é o Atacadão do Alho. Apesar de ser mais longe da orla do que os estabelecimentos da Barão de São Domingos, o comércio tocado por Aluísio Souza tem uma desvantagem: o local é o ponto mais baixo da Rua dos Barés.
Por isso, de acordo com Aluísio, o estabelecimento é sempre “o primeiro a ser tomado pelas águas” do rio Negro.
Em 2017 o comerciante elevou o nível do chão em 60 centímetros para evitar que os produtos fossem atingidos. Ano passado, sobre o novo piso de concreto, Aluísio aumentou mais 60 centímetros e construiu um novo nível, de assoalho.
Para 2023, Aluísio, que não acredita na ocorrência de uma cheia severa, está no aguardo da evolução das medições. “Mas sempre que vêm jornalistas aqui, é porque estão sendo informados pelas autoridades que haverá alagação”, diz.
Números
Os registros das cotas do rio Negro começaram em 1902, no período da vazante. A primeira cheia medida foi em 1903, com a cota máxima de 27,52 metros, registrada em 25 de junho.
Em 120 anos de medição, as datas das cotas máximas de cheia do Rio Negro variam dos dias 4 de maio (a mais precoce) a 16 de julho (a mais tardia). O dia com maior ocorrência de nível máximo foi 9 de junho, em sete anos: 1907, 1908, 1919, 1953, 1987, 1993 e 2006.
Nesta segunda-feira (22), o Rio Negro atingiu a cota de 27,87 metros. Ano passado, na mesma data (22 de maio), o nível registrado foi de 29,36 metros. Em 2021, quando ocorreu a maior cheia histórica, a medição no dia 22 de maio indicou 29,86 metros. Os últimos dois anos estão as maiores marcas registradas.

Confira as dez maiores cheias históricas:
30,02 metros, em 2021, registrada entre os dias 16 a 20 de junho
29,97 metros, em 2012, registrada entre os dias 29 de maio a 1º de junho
29,77 metros, em 2009, registrada entre os dias 1º e 2 de junho
29,75 metros, em 2022, registrada entre os dias 22 e 25 de junho
29,69 metros, em 1953, registrada em 9 de junho
29,66 metros em 2015, registrada em 29 de junho
29,61 metros em 1976, registrada em 14 de junho
29,50 metros em 2014, registrada entre 3 e 8 de julho
29,42 metros em 1989, registrada em 3 de julho
29,42 metros em 2019, registrada entre 22 e 25 de junho
