
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Representantes de grandes empresas dos setores automotivo, de eletroeletrônicos e de alimentos instaladas no PIM (Polo Industrial de Manaus) admitem que a logística é um problema para a região, mas afirmam que conseguem superar ou compensar esse entrave, principalmente com os incentivos fiscais ou com estratégias próprias de produção e suprimento.
Na última quarta-feira (11), a Samsung Eletrônica da Amazônia, o Grupo 3 Corações, o Grupo BMW e a Mineração Taboca participaram do evento Raízes do Investimento, realizado pela Sedecti (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação).
No evento, os representantes das companhias expuseram dados sobre os investimentos realizados no PIM (Polo Industrial de Manaus). A Mineração Taboca, adquirida em 2018 pelo grupo chinês CNMC, também anunciou que investirá R$ 500 milhões para expandir a operação na região entre 2026 e 2028.
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Ao ser questionado sobre a questão logística, Fabiano Mariscal, gerente sênior de controladoria da Samsung, apontou o fator como “um dificultador para a operação em si”. “A gente vive a sazonalidade do próprio rio, a época da vazante. Então, a gente já teve dificuldades aqui”, completou.
Mesmo com os desafios, a empresa sul-coreana expandiu sua produção e se consolidou na região. Ela começou em 1995 produzindo dois produtos em uma área de 86.000 m² e 318 funcionários. Hoje ela conta com uma área de 128.000 m² e 3.500 funcionários, que produzem 9 tipos de produtos, incluindo smartphones, tablets e televisores, e 8 tipos de componentes.

Para Alex Luís Donatti, diretor da planta da BMW Group em Manaus, é possível superar esses entraves realizando investimentos para mitigar efeitos de cadeia de suprimento, local ou mundial. A empresa, que tem 240 trabalhadores, é responsável pela produção de motocicletas premium na capital amazonense.
“Nós investimos muito nos últimos anos, justamente em capacidade produtiva, capacidade logística, para poder lidar com qualquer tipo de entrave que possa acontecer. Estamos preparados e nos últimos anos não tivemos problemas. Conseguimos manter a operação rodando com todos os acontecimentos que tivemos”, disse Donatti.
Desde que chegou a Manaus, em 2016, a BMW expandiu sua planta de 10 mil m² para 15 mil m² e hoje conta com 28 fornecedores nacionais. Por dia, ela produz 66 veículos de 13 modelos.
Wellysson Araújo, gerente tributário do Grupo 3 Corações, afirmou que os incentivos fiscais são fundamentais para superar os entraves logísticos da região. A empresa, que está no estado desde 2000, adquiriu a marca regional Café Manaus e expandiu sua produção industrial em 2018, elevando o faturamento de R$ 72 milhões para R$ 505 milhões em 2025.
“Acho que a logística é, sim, um dificultador. Quando a gente fala da circulação de mercadorias no Brasil, ela também é um obstáculo. O que faz com que isso seja superado são os incentivos fiscais. Por isso, considero que esses incentivos para a região são indispensáveis para que os investimentos continuem no Estado e ele siga crescendo”, afirmou Araújo.

Zona Franca de Manaus
Para os representantes das grandes empresas, a ZFM (Zona Franca de Manaus) continua sendo importante e competitiva, seja pela geração de empregos, atração de indústrias ou manutenção da atividade econômica.
Até dezembro de 2025, segundo a Suframa, a ZFM tinha 516 empresas e gerava 128,3 mil empregos diretos. Um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), coordenado pelo professor Márcio Holland, aponta que o modelo gera cerca de 500 mil empregos diretos e indiretos.
Para Fabiano Mariscal, a ZFM “é muito importante para o desenvolvimento da própria região, para a manutenção da floresta, para as questões ambientais”. “Então, nesse sentido, eu considero que a Amazônia é insubstituível e por isso precisa de incentivos fiscais para que seja mantida”, disse o executivo.
Alex Donatti afirmou que o modelo está “bem consolidado” e está “seguro no longo prazo”. “Quando decidimos investir na Zona Franca, por exemplo, nós olhamos o longo prazo. E se nós estamos aqui e continuamos investindo é porque para nós esse modelo funciona, atende e traz benefícios para o mercado nacional”, disse.
Bioeconomia
Embora com visões diferentes, os representantes das empresas mencionam a importância de ampliar iniciativas econômicas na região, seja com sustentabilidade, uso de recursos locais ou novas oportunidades de investimento.
Wellysson Araújo afirmou que considera desafiador ter uma matriz econômica amparada nos recursos naturais do estado. Para isso, segundo ele, é preciso haver uma mobilização de políticos e empresários.
“Tem que ter uma mudança de percepção de toda classe política e da classe também empresarial para que a gente comece a investir cada vez mais em produtos da região. Exemplo disso, a Três Corações acabou de lançar um café feito exclusivamente com café robusta amazônico, que é um produto da região amazônica. Então eu entendo que é possível, mas é desafiador”, disse Araújo.
Sobre a bioeconomia baseada nos recursos naturais, Fabiano disse que a Samsung “avalia qualquer possibilidade de investimento nesse setor”, como em outros, e surgindo a oportunidade, dentro das possibilidades e da viabilidade, ela vai “fazer investimento naquilo que for possível para ela”.
Alex Luís Donatti afirmou que a BMW mantém iniciativas voltadas à sustentabilidade na fábrica de Manaus. Segundo ele, a planta utiliza painéis fotovoltaicos e realiza compensação da energia consumida.
O diretor citou ainda o projeto Upcycle Element, que destina resíduos da produção, como pallets e uniformes, a uma associação local que transforma o material em novos produtos e gera renda para famílias da comunidade. Para Donatti, essas ações mostram que é possível integrar a indústria a práticas sociais e ambientais.

Para Wellysson, também seria importante ampliar incentivos voltados a investimentos em bioeconomia e no uso de recursos da região.
Floresta em pé
Questionados sobre o argumento de que a Zona Franca contribui para manter a floresta em pé, representantes das empresas afirmaram que o modelo ainda pode conviver com práticas de sustentabilidade.
Alex Donatti disse que a BMW busca mitigar ao máximo os impactos da operação na Amazônia e destacou que a fábrica destina corretamente 100% dos resíduos gerados, sem envio para aterros sanitários.
Wellysson Araújo afirmou que o argumento continua válido e defendeu que é possível avançar com atividades como o agronegócio sem derrubar a floresta, desde que haja reposição e ações de reflorestamento. “Eu acho que é possível evoluir com o agronegócio e mesmo assim mantendo a floresta em pé, através de reposição. Eu acho que tudo isso é possível”, disse.
PPB
Questionados sobre a competitividade econômica da Zona Franca de Manaus e as exigências do PPB (Processo Produtivo Básico), representantes das empresas afirmaram que o modelo estimula a produção local e a formação de cadeias de fornecedores.
Fabiano Mariscal disse que o PPB foi criado para equilibrar a utilização de insumos importados e nacionais, além de garantir etapas de produção no país. Segundo ele, o mecanismo também precisa acompanhar a velocidade de produção e o avanço tecnológico das indústrias.
“O PPB também controla e avalia esse equilíbrio entre matéria-prima importada e nacional. O que precisa é adequar essas regras à velocidade de produção e ao avanço das tecnologias utilizadas pelas indústrias”, disse o executivo da Samsung.

Alex Donatti afirmou que a empresa já conta com 28 fornecedores nacionais em sua operação. Para ele, a presença de centenas de indústrias na Zona Franca contribui para atrair investimentos e ampliar a nacionalização dos produtos e processos produtivos.
“É um modelo que atrai mais investimentos e indústrias para a região. Para o nosso negócio, isso é muito positivo, porque cada vez mais o nosso produto se torna nacionalizado e os processos de transformação passam a ocorrer aqui”, afirmou Donatti.
Wellysson Araújo afirmou que considera o modelo economicamente competitivo, mas defendeu que as exigências de uso de recursos da região são importantes para gerar riqueza local. Segundo ele, além de emprego e renda, é necessário ampliar o aproveitamento de insumos regionais para tornar a economia mais sustentável.
“Eu acho que o modelo da Zona Franca é economicamente competitivo e que essas exigências de uso de recursos da região precisam existir para que a riqueza realmente fique aqui. Se a gente apenas importar tudo e montar os produtos, talvez esse não seja o melhor modelo”, disse Araújo.
