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Geral

Live de mentiras de Bolsonaro exige tomada de posição do mundo político

30 de julho de 2021 Geral
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Por Igor Gielow, da Folhapress

SÃO PAULO – Ao longo dos excruciantes dois anos e meio de governo, Jair Bolsonaro notabilizou-se por elevar a níveis apopléticos o padrão de seu modelo norte-americano, Donald Trump.

Ou seja, repetir pequenas e grandes mentiras à exaustão, jogar para um nicho radicalizado, falar grosso e ameaçar instituições sempre que possível.No mundo político, isso costuma ser normalizado ora como tática eleitoral, ora como estridência vazia ao fim.

Mesmo aqueles que denunciam a impropriedade da condução da Presidência o fazem com a certeza de que Bolsonaro não comanda as legiões que alega ter.

Só que o show de horror e mentira protagonizado por Bolsonaro em sua infame live acerca das urnas eletrônicas na quinta (29) obriga atores políticos sérios a tomar uma posição mais incisiva acerca do que ocorre em Brasília.

Há reação no meio judicial superior, ainda tímida. Críticos de sempre falarão o de sempre. Bolsonaro prometerá a seus inquilinos do centrão que irá moderar suas falas e que não ameaça eleição alguma.

Com seus 15 minutos trumpistas de fama, recuará para preparar o próximo show. Do ponto de vista eleitoral, funciona para o seus 20%-25% de púlbico ainda fiel. Institucionalmente, num país um pouco mais sério, seria intolerável.

Afinal de contas, além de se dirigir à nação ao lado de um técnico de mentirinha e usar vídeos tirados do YouTube, no melhor estilo blogueiro nerd, Bolsonaro apoiou-se no ministro Anderson Torres (Justiça e Segurança Pública).

Como se sabe, o policial federal Torres é visto como representante da bancada da bala no governo -Bolsonaro também, claro. A mesma base policialesca com que o bolsonarismo gostaria de marchar sobre o Capitólio, digo, o Congresso e o Supremo nos seus delírios mais animados.

Tudo com recursos públicos, transmissão por canais oficiais do governo e tal. Isso para não citar o retorno da defesa de remédios milagrosos ineficazes contra a Covid-19, feita na introdução da pantomima.

Nem tampouco pode ser considerado normal um chefe de Executivo acusar repetidamente o presidente do Tribunal Superior Eleitoral de estar a serviço do candidato que deve enfrentar no ano que vem, porque não foi nada diferente disso que Bolsonaro falou sobre Luís Roberto Barroso.

Hombridade na vida pública é artigo barato no Brasil, mas o fato de que ninguém acredita muito no que o presidente berra não deveria significar leniência.

No mais, a live proporcionou ao observador mais distante uma condensação dos delírios, medos e táticas previsíveis que Bolsonaro vem cozinhando de cercadinho em cercadinho nos últimos meses.

É um roteiro golpista para a eleição de 2022, sem dúvida, contando com a certeza de que o Congresso vai barrar o dito voto impresso.

Mas o objetivo final que parece ser outro, já que permanecer no poder a qualquer custo poderá ser inviável ao fim. Os termos da rendição estão ali, e o próprio Bolsonaro os enunciou: poupem minha família e não me prendam.

No primeiro caso, o raciocínio foi reverso, com os queixumes sobre o que chama de perseguição a seus filhos políticos. No segundo, foi direto: ele voltou a usar o exemplo da ex-presidente boliviana Jeanine Añez como algo que pode ocorrer por aqui.

O que Jeanine fez, segundo o brasileiro? “Está presa por participar de atos antidemocráticos”, disse, usando exatamente o termo da investigação que corre desde o ano passado contra o bolsonarismo. Não foi ato falho, foi oferta de acordo lá na frente.

E também, claro, a expressão do que apavora o presidente, apesar de sua verborragia.

Essa é uma leitura relativamente otimista. A pessimista fala por si e já é conhecida. Segundo esta, Bolsonaro não aceitará as eleições e reza por uma insurreição à la Capitólio para impor, com a ajuda presumida por ele das Forças Armadas, algum tipo de ruptura.

Falta combinar com a realidade, ​ainda que não seja desprezível o encontro de visões dos militares e do presidente. Qualquer tenente-coronel da PM, por mais bolsonarista que seja, sabe que o Brasil seria desplugado do sistema internacional se algo assim ocorresse, com efeitos econômicos e sociais devastadores para o país.

O centrão que tão avidamente adentrou o centro do governo deve ter pensamentos semelhantes, ainda que pareça crer, como militares acreditaram antes dele, que poderá controlar o temperamento irascível do presidente -ao menos o suficiente para se fartar das benesses orçamentárias de sua posição de força.

Essas ponderações podem afastar o risco de cenários totalmente sombrios, mas é ingenuidade supor que o tecido institucional passará incólume por tais provações. Aí que entra a pergunta inicial, acerca da disposição do mundo político de manter o show de mentiras no ar.

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