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Variedades

Lapouge volta ao País para lançar ‘Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil’

6 de abril de 2015 Variedades
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Lapouge diz que vê o Brasil “por intermitência” (Divulgação)

 

PARIS – Colaborador do Estado desde 1951, o escritor e jornalista francês Gilles Lapouge, aos 92 anos, volta ao País para lançar seu corajoso Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil, amanhã, 7, na Aliança Francesa de São Paulo (e, na quarta, 8, na Aliança do Rio), após participar de duas palestras e um almoço com a comunidade francesa, uma série de eventos coordenada pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela Editora Manole. Lapouge visita regularmente o Brasil, mas se define como uma espécie de Joachim du Bellay contemporâneo, o poeta francês do século 16 que, escrevendo sobre o mítico Ulisses, deu a entender que viajava um pouco a contragosto e voltava sempre feliz à terra natal. Lapouge diz que vê o Brasil “por intermitência” – e esses hiatos garantem ao escritor o “olhar distante” recomendado por seu amigo Lévi-Strauss, permitindo distinguir melhor os traços e sons da terra.

De fato, poucos jornalistas têm a independência ideológica de Lapouge para criticar com autoridade um país que passou por tantas metamorfoses a ponto de não se reconhecer em nenhum dos modelos adotados pelos sucessivos governos nesses 64 anos de convivência do autor com o Brasil. Lapouge conheceu o “Brasil louco” de Jânio Quadros, a “tirania militar que durou 20 anos”, o “Brasil inteligente” de Fernando Henrique Cardoso e o Brasil de Lula. Quando desembarcou aqui, em 1951, vindo de uma Europa cinzenta, em ruínas, encontrou um país colorido. Mais tarde, admite, percebeu que esse era um país “ardiloso e até mesmo um pouco mentiroso”. E muito barulhento.

Lapouge, ao contrário do escritor austríaco Stefan Zweig, que também morou aqui, não concorda que o Brasil seja uma democracia livre de preconceitos raciais – e diz isso com todas as letras em seu incomum dicionário, que vai de “a” – de abelhas africanas importadas em 1956, que fugiram e espalharam seu veneno pelo país – a “v”, de vazio, que define a vasta terra desolada.

Alguns dos verbetes desse dicionário certamente estarão na pauta da palestra desta terça, às 10 horas, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) para os alunos de Economia e Relações Internacionais.

Ao final da palestra, será realizado um debate com a participação dos professores Luiz Alberto de Souza Aranha Machado e Victor Mirshawka, do psicanalista Jorge Forbes e do jornalista Roberto Lameirinhas, editor de Internacional do jornal O Estado de S. Paulo. Às 15 horas, a economia e a política do Brasil estarão em pauta na palestra do escritor aos alunos do Liceu Pasteur. Às 19 horas, após o lançamento de seu livro, Lapouge conversa com Jorge Forbes e o editor do Caderno 2 Ubiratan Brasil.

O Brasil, segundo Lapouge, “é uma vasta ruína”. E é justamente por isso, conclui, “que ele é tão belo, tão comovente”. Nos anos 1950, ele costumava passear pelo quadrilátero formado pela praça da República, as avenidas São João e São Luiz e o Vale do Anhangabaú – “belo como uma avenida Montaigne”, escreve ele em seu dicionário. Agora, quando se perde nessas ruínas, seu coração fica “apertado” com a “vulgaridade desgastada dos prédios e o fedor das marquises” do centro. Hoje, quando retorna a São Paulo, faz questão de não passar pelo mesmo quadrilátero – “para não sofrer com a derrota de minhas lembranças”.

E, se alguém tiver a péssima ideia de levar Lapouge a um restaurante típico, desses com nostalgia colonial, é bom saber que em seu livro ele relata uma experiência chocante vivida nestes tristes trópicos. Em Recife, há 20 anos, convidado para jantar num restaurante refinado da praia de Boa Viagem, ficou paralisado ao ver uma jovem negra vestida com um longo branco de rendas, que lavou as mãos dos clientes e, ao se afastar, exibiu seus pés travados por braceletes de aço, como uma escrava. O maître até tentou explicar, rindo, que era um “simulacro”. Educadamente, Lapouge levantou-se e foi procurar outro “simulacro”.

Voltando a Stefan Zweig, Lapouge, inconformado com as “besteiras” escritas pelo austríaco sobre a fraternidade e integração racial no Brasil, diz em seu livro que o autor de Amok “não entendeu nada do Brasil”. “Que se danem os adeptos da cordialidade”, escreve. “O Brasil é um país violento, não tem rivais. Ele mata no atacado, não no varejo”, conclui. Homem cordial? Isso é invenção de intelectual modernista.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

 

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Assuntos brasil, Escritor, livro
Valmir Lima 6 de abril de 2015
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