
Por Vívian Oliveira, do ATUAL
MANAUS – A jornalista Eliane Cantanhêde, da Globo News, reproduziu comentários machistas e misóginos ao criticar a atuação de Rosângela Lula da Silva, a Janja, mulher do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, na fase de trânsição de governo. O fato ocorreu nesta sexta-feira (11), durante o programa ‘Em Pauta’.
Numa tentativa de enquadrar, de maneira conservadora, a postura da socióloga, Cantanhêde diz que a participação de Janja na equipe de transição representa um problema e se diz incomodada com o excesso de espaço que ela tem ocupado.
“O presidente é o Lula. Tudo tem limite. Ontem (quinta, dia 10), por exemplo, quando Lula fez aquele discurso, ela [Janja] estava ali, sentada. Mas ela não é presidente do PT, não é líder político, não é presidente do partido. Por que ela estava ali?”, criticou.
As falas problemáticas não pararam por aí. A comentarista comparou Janja a outras primeiras-damas que, de acordo com a sua opinião, não se comportavam bem e chamavam muita atenção. Para citar algumas, Yolanda Costa e Silva e sua “maquiagem carregada e super artificial”, e Rosane Collor, que “jogou a aliança e vivia metida em confusão na Casa da Dinda”.
“Isso não é bom. Eu acho que um bom exemplo de primeira-dama foi a Ruth Cardoso, que tinha um brilho próprio, era uma professora universitária, era uma mulher super respeitada na área dela, e cuidou do Comunidade Solidária. Mas ela não tinha protagonismo nem voz nas decisões políticas”, disse.
Em outro momento, Cantanhêde disse que Janja não deveria preparar a posse (ela está na equipe que prepara a cerimônia de posse) e deveria limitar seu papel “ao quarto do casal”.
“[Janja] já incomoda sim, porque ela já começou a participar de reunião, já vai dar palpite, e daqui a pouco ela vai dizer ‘ah, esse pode ser ministro, esse aqui não pode’. Isso dá confusão. Se é assim na transição, imagina quando virar presidente”, comentou.
Nas redes sociais, a jornalista tem sido duramente criticada por colegas de profissão e outros usuários que não pouparam adjetivos para lamentar o ocorrido.
“Me apavora o machismo incrustado na cabeça de mulheres ditas esclarecidas, onde estereótipo dos papéis delegados a nós é o importante. Desprezível fala de Eliane Cantanhêde sobre Janja. Ter opinião e participação política é direito de TODAS nós mulheres! Sem essa de primeira dama”, criticou Gleisi Hoffmann, presidenta do PT (Partido dos Trabalhadores).
“Acabo de ver o comentário misógino da jornalista Eliane Cantanhêde sobre Janja, a esposa de Lula. A tentativa de ‘enquadrar’ de maneira conservadora a postura de Janja – cuja alegria sempre me comove pessoalmente – foi além misógina, cafona”, lamentou a escritora Marcia Tiburi.
“Que fala mais absurda, da Eliane Castanhêde sobre a Janja. Dizer que ela comete excesso de protagonismo, já que o papel de fala da primeira-dama tem que estar limitado ao ‘quarto do casal’, é uma das coisas mais bizarras que eu já ouvi. Roteiro de The Handmaid’s Tale…”, denunciou Luana Alves, vereadora de São Paulo.
“Da série: falas infelizes e machistas ditas por mulheres. Eliane Cantanhêde, minha querida, agradeça a mulheres como Janja e tantas outras que se mostram sim pro mundo e que deram oportunidade para nós pisarmos e estarmos onde estamos hoje”, escreveu uma usuária no Twitter.
Coube ao jornalista André Trigueiro, que também participava do programa, dizer verdades necessárias sobre o comentário machista de Cantanhêde.
“Acho importante demolir esse termo, viu, Lili [se referindo à Eliane]? Não sei a tua opinião, mas ‘primeira-dama’ não favorece ao sindicato que você pertence. Eu acho que a gente tem que reinventar palavras e expectativas em relação ao papel da mulher do homem mais poderoso do Brasil que, já ficou muito claro nesse governo, não será propriamente de alguém que vai cumprir a função de dona de casa, subserviente ao marido. Lugar da mulher é onde ela quiser ficar. E isso o presidente falou na [Avenida] Paulista, no discurso da vitória”, rebateu Trigueiro.
Assista ao vídeo do comentário de Eliane Cantanhêde AQUI.
