
EDITORIAL
MANAUS – Havia muita expectativa dos dois lados da militância, dos eleitores e apoiadores dos candidatos a presidente da República Jair Messias Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para as entrevistas ao Jornal Nacional, da TV Globo. Na noite desta quinta-feira, com a sabatina de Lula, esses lados trataram de avaliar, com uma visão apaixonada, como cada um se saiu frente ao eleitorado brasileiro.
Avaliando os apresentadores/entrevistadores William Bonner e Renata Vasconcellos, é justo dizer que foram mais condescendentes com Lula do que com Bolsonaro, mas é compreensível. Bolsonaro é o atual presidente do Brasil e o governo e o comportamento dele precisam ser avaliados. Pesa contra Bolsonaro o fato de ele, desde o início da pandemia, ter se recusado a conceder entrevista a jornalistas de veículos que não adotam uma linha editorial de defesa do seu governo.
Uma oportunidade como tiveram os apresentadores do Jornal Nacional não poderia ter sido desperdiçada. Bonner e Vasconcellos foram polidos nas perguntas, mas ao mesmo tempo, firmes. Refizeram aquelas em que o candidato do PL não respondeu. Mas também o fizeram com Lula.
A entrevista com Lula foi iniciada com o tema corrupção, e não poderia ser outro o tema inicial, dados os acontecimentos dos últimos cinco anos, em que Lula foi preso, impedido de disputar a eleição presidencial de 2018, libertado da prisão e seus processos na Justiça invalidados por erros tanto do Ministério Público Federal quanto do juiz Sérgio Moro.
Lula fugiu à pergunta formulada por William Bonner, mas não fugiu ao tema. Questionado sobre que garantias ele daria ao eleitor de que os escândalos de corrupção na administração dele não voltariam a ocorrer em um eventual novo governo, Lula dedicou a resposta ao que o governo do PT fez para fortalecer os mecanismos de controle das contas públicas e para evitar corrupção.
Faltou aos apresentadores a pergunta seguinte: Por que, com todo esse aparato que o senhor disse que foi criado para combater a corrupção, ela ainda assim ocorreu no seu governo? Bonner voltou a insistir na pergunta inicial, e não houve resposta novamente. Lula poderia dar qualquer resposta, mas nenhuma convenceria o eleitor indeciso, por exemplo, porque em campanha eleitoral o que mais se faz é prometer. Seria apenas mais uma promessa.
A mesma estratégia, de questionar o que Bolsonaro fará em eventual segundo mandato, foi utilizada pelos apresentadores. No caso do resultado das eleições, o apresentador insistiu para que Bolsonaro assumisse publicamente o compromisso de respeitar o resultado das urnas, seja ele qual for.
No caso do meio ambiente, os apresentadores do Jornal Nacional insistiram para que o candidato do PL firmasse compromisso para preservar a Amazônia, reduzir o desmatamento, aumentar o poder dos órgãos de fiscalização. Qualquer resposta que Bolsonaro desse seria mera retórica.
Mas para o eleitorado, a militância e os apoiadores, tanto Bolsonaro quanto Lula foram bem na entrevista, em um espaço que tem a maior audiência entre os programas televisivos do país.
Na segunda-feira (22), depois do programa, partidários de Bolsonaro comemoravam o que consideraram uma vitória do candidato, apesar da inquirição dos apresentadores do JN. Do outro lado, os aliados, eleitores e militantes do PT faziam festa por considerar que Bolsonaro se saiu mal na sabatina. O mesmo comportamento de ambos os lados foi visto na entrevista com Lula.
Considerando mais o comportamento e a forma de se expressar dos candidatos e menos o conteúdo do que disseram, é possível enxergar um Bolsonaro mais acanhado do que normalmente ele costuma ser. Durante as perguntas, o candidato do PL se mostrava apreensivo, tenso, inconformado com o questionador. Em algumas vezes, sem levantar a voz, contestou dados e chegou a dizer que Bonner apresentou “fake news”. Mas Bolsonaro manteve o controle e respondeu sem levantar a voz.
O candidato do PT adotou um comportamento mais descontraído, abrindo sorrisos quando discordava das perguntas. Quando questionado sobre o governo de Dilma Rousseff, Lula chegou a brincar, e dizer o que Dilma dissera a ele: “Se perguntarem sobre o meu governo, não responda, fala pra me convidarem que eu vou lá pra discutir com eles”. Algumas vezes, Lula levantou o tom de voz, mas para enfatizar o assunto sobre o qual discorria.
Nesse tipo de entrevista, o que fica para o eleitorado que busca um motivo para votar em um candidato é menos as promessas ou compromissos assumidos (que muitas vezes não são cumpridos) e mais a essência da pessoa.
Neste sentido, é possível avaliar, assistindo às entrevistas, que estão disponíveis na internet, a essência de cada candidato, porque ali, apesar das orientações dos marqueteiros, o entrevistado está sozinho, orientado pela história de vida, pela formação intelectual e pala sua própria consciência.

