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Política

Itamaraty negocia aliança com Japão e EUA em gesto anti-China

7 de junho de 2020 Política
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Itamaraty informou que servidores podem publicar artigos de opinião, desde que  esclareça de forma explícita que o conteúdo é de responsabilidade do autor (Foto: ABr/Agência Brasil)
Itamaraty negocia acordo com Japão e EUA (Foto: ABr/Agência Brasil)
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Da Folhapress

BRASÍLIA – Em um novo gesto anti-China, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, trabalha para lançar uma aliança estratégica com Estados Unidos e Japão para defender valores comuns na Ásia e na América Latina.

O plano – um diálogo trilateral de alto nível dos três países – foi apresentado no ano passado pelos japoneses, que viram no alinhamento do governo Jair Bolsonaro com os EUA uma oportunidade para propor a ideia ao Itamaraty.

Segundo disseram interlocutores, Ernesto abraçou com entusiasmo o projeto, embora tenha sido alertado por subordinados que a concretização desse fórum será visto pela China, inevitavelmente, como uma provocação.

Em um dos primeiros esboços da nova aliança trilateral, de acordo com relatos feitos à Folha de S.Paulo, o governo do Japão ressaltou que compartilha com EUA e Brasil valores comuns, como a defesa da democracia e do livre mercado. A proposta ganhou corpo, e a expectativa de Ernesto é lançá-la nos próximos meses.

A preocupação levantada por diferentes setores do Itamaraty é que os EUA, no plano global, e o Japão, no regional, são hoje os maiores antagonistas do governo chinês.

Ao aceitar integrar um fórum de diálogo político com esses dois atores, o Brasil seria levado a assumir posições sobre o delicado jogo de poder do Pacífico que desagradariam ao maior parceiro comercial do país.

Só em relação ao agronegócio, a China comprou US$ 11,85 bilhões (R$ 58,84 bi) em produtos brasileiros no primeiro quadrimestre de 2020, segundo dados do Ministério da Agricultura.

Japoneses e americanos também são críticos do que consideram a presença cada vez mais agressiva da China na América Latina, seja como compradora de commodities e investidora em projetos de infraestrutura, seja pelo apoio político à ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela. Existe o receio de que esses debates também entrem na pauta da nova aliança, forçando o Brasil a abordar assuntos que podem criar rusgas com os chineses.

Outro assunto que interlocutores consideram que EUA e Japão tentariam empurrar para dentro do diálogo trilateral é segurança da informação. Os dois países dizem que a empresa chinesa Huawei não deveria fornecer equipamentos para redes de 5G, e os americanos pressionam o Palácio do Planalto para que o Brasil siga o mesmo caminho, em um novo flanco de disputa com Pequim.

A iniciativa de um diálogo trilateral articulada entre americanos e japoneses não é inédita. Ambos os países têm alianças lançadas com Índia e Austrália. Nesses casos, são realizados encontros e contatos para discutir diversos assuntos, como ampliação do comércio e segurança marítima na região do Indo-Pacífico. No pano de fundo dessas articulações, é constante a preocupação com o avanço mundial de Pequim.

Procurada, a Embaixada do Japão em Brasília disse que não comenta o assunto. “Não há nada para poder responder até o momento. Também não está definida a realização do diálogo em questão”, respondeu.

A Folha de S.Paulo questionou a Embaixada dos EUA, mas não obteve resposta. O Itamaraty tampouco respondeu.

A relação da administração Bolsonaro com a China é um dos principais pontos de divergência entre as chamadas alas pragmática e ideológica do governo.

Enquanto o vice-presidente, Hamilton Mourão, e os Ministérios da Economia e da Agricultura tentam evitar bolas divididas com os asiáticos, Ernesto, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) – filho do presidente – e o assessor especial para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, seguem a linha de Donald Trump de enfrentamento com Pequim.

Após meses de disputa, o lado pragmático parecia ter imposto sua visão no fim do ano passado, mas a eclosão da crise do coronavírus deu novo impulso para os ideológicos. O momento mais tenso neste ano ocorreu em março, após Eduardo ter afirmado em suas redes sociais que o governo chinês era culpado pela pandemia.

“Quem assistiu a Chernobyl (série sobre o acidente nuclear de Tchernóbil) vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, disse o filho do mandatário na ocasião.

A manifestação gerou uma dura reação do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, que acusou Eduardo de promover um “insulto maléfico contra a China e o povo chinês”.

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Assuntos Ernesto Araújo, Itamaraty, ministério das relações exteriores
Cleber Oliveira 7 de junho de 2020
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