
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS — Quanto maior a temperatura e a umidade, maior a sensação de calor. Na linguagem popular do manauara, o calor é “quentura”, “mormaço” e “abafado”. Na capital amazonense, onde o clima é predominantemente quente e úmido, a sensação térmica é significativamente superior à medição registrada pelos termômetros.
O mormaço acontece tanto no inverno quanto no verão amazônico, mas costuma ser mais intenso e frequente no inverno. Nessa época, vem da combinação de calor e umidade; no verão, do calor acumulado e do ar parado. É essa sensação de calor abafado que o manauara sente na pele.
O cálculo desse índice considera a interação direta entre os dois fatores ambientais, segundo o meteorologista Francisco de Assis Diniz. “A umidade do ar é inversamente proporcional à temperatura. Quando a temperatura aumenta, a umidade do ar cai”, explica Assis.
Em regiões de clima quente, a junção da temperatura elevada com a umidade do ar gera o chamado Índice de Calor.
Francisco de Assis esclarece a diferença conceitual entre o índice e a sensação térmica, que é mais usada para o inverno. “A sensação térmica é quando é frio: temperatura baixa com o vento dá a maior sensação de frio. Mas quando é com calor, chama-se Índice de Calor”.
De acordo com o especialista, em Manaus as temperaturas têm sido altas, variando entre 36°C e 37°C, enquanto durante a tarde a umidade tem baixado para a faixa de 40% a 45%. Com uma temperatura de 36°C e umidade de 40% a 45%, a sensação de calor salta para 41°C. Quando a temperatura atinge 37°C com 45% de umidade, o índice de calor chega a 43°C.
Ele explica como o desconforto envolve calor e chuva. “O período de maior desconforto ocorre quando as altas temperaturas coincidem com o início da chuva, pois o aumento da umidade intensifica ainda mais a sensação de calor”.

Próximos meses
A tendência para o segundo semestre em Manaus é de manutenção ou elevação das temperaturas, influenciada por fatores climáticos regionais e globais.
“As temperaturas vão continuar elevadas em Manaus, aumenta agora até a chegada de setembro a outubro, devido à contribuição do El Niño, e também deve haver atraso nas chuvas. Aí as temperaturas devem ficar mais elevadas, mas em compensação, a umidade deve baixar mais ainda, ficando um pouco mais seco”, conclui Francisco de Assis.
Impactos na saúde
O clima equatorial de Manaus, marcado por elevadas temperaturas e umidade relativa do ar, gera um cenário crítico de estresse térmico para o corpo humano.
O corpo resfria-se por meio da transpiração. Em ambientes úmidos, a evaporação do suor é dificultada gerando um incômodo térmico maior. “O ser humano fica sentindo aquele calor sensível, que é exatamente devido ao calor latente”, acrescenta Francisco de Assis.
De acordo com o cálculo do Índice de Calor adotado pelo INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) a partir de parâmetros do NOAA (National Weather Service), alta taxa de umidade impede a evaporação eficiente do suor. Como consequência, o organismo perde seu principal mecanismo natural de resfriamento, fazendo com que a sensação térmica na pele ultrapasse facilmente a faixa dos 40 °C aos 45 °C.
Esse fenômeno, popularmente vivenciado na região como o abafamento do mormaço, sobrecarrega o sistema cardiovascular.
Segundo as diretrizes de vigilância em saúde do Ministério da Saúde e pesquisas conduzidas por instituições como a UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e a FMT-HVD (Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado), a tentativa ininterrupta do corpo de se resfriar provoca a dilatação dos vasos sanguíneos, aceleração dos batimentos cardíacos e perda acentuada de água e sais minerais. Esse processo pode evoluir rapidamente para quadros de desidratação, queda de pressão, tontura e exaustão térmica.
Além dos impactos internos, a retenção do suor sobre a pele traz implicações dermatológicas diretas. Alertas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD Regional Amazonas) apontam que o excesso de transpiração estagnada obstrui os poros e as glândulas sudoríparas, favorecendo o aparecimento de miliária (brotoeja) e processos inflamados.
Paralelamente, o ambiente quente e continuamente úmido sobre o tecido cutâneo cria o cenário ideal para a proliferação de microrganismos, aumentando significativamente a incidência de dermatites e micoses na população local.
