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Variedades

Há exatos 50 anos, Maria Bethânia subia no palco de ‘Opinião’

13 de fevereiro de 2015 Variedades
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No final de 1964, uma estudante de 18 anos chamada Maria Bethânia Viana Telles Veloso, do Colégio Severino Vieira, de Salvador, havia sido reprovada em matemática. Foi para sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, a 72 quilômetros da capital, estudar para a ‘segunda época’ na casa da irmã Mabel, professora. Logo ao chegar, o telefone tocou e a voz dizia ser Nilda Spencer, atriz e diretora da Escola de Teatro da Bahia. Bethânia achou que era trote e desligou a ligação duas vezes. Mabel atendeu a terceira. Era um convite para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, no Rio. A música mesclada ao teatro ocuparia sua vida para sempre, a partir dali.

Nesta sexta-feira, 13, faz exatos 50 anos que Bethânia iniciou sua carreira profissional em Opinião, ao lado de Zé Kéti e João do Vale. Antes, ela havia se apresentado em shows coletivos do Teatro Vila Velha, na capital baiana, acompanhada por jovens artistas. Entre eles seu irmão, Caetano, Gilberto Gil, Tom Zé e Maria da Graça, que logo trocaria seu nome para Gal. Houve ainda um solo, Mora na Filosofia, quando conheceu Nara, que lhe ensinou músicas do espetáculo com o qual despontaria nacionalmente. Um homem também a viu cantar e foi decisivo para sua escolha. “Não sei o nome dele, mas Thereza Aragão (integrante do grupo Opinião) me disse que ele era amigo dos criadores do Opinião e ele foi muito forte: ‘É ela, vocês vão ver. Tem que ser ela’”, relembra Bethânia, que obteve a bênção do pai, Seu Zeca, para a viagem. “Se for feliz, você é a responsável. Se for infeliz, eu sou o culpado.”

Escrito por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, Paulo Pontes e Armando Costa, Opinião era dirigido por Augusto Boal e estreou no mesmo ano do golpe militar. Foi o primeiro a contestá-lo, misturando canções políticas, que retratam a vida nas favelas cariocas e a miséria no Nordeste. “Era um grande sucesso. Nara, minha grande heroína, era maravilhosa. Com João do Vale vindo do sertão nordestino e Zé Kéti descendo do morro carioca, aquilo era uma força do Brasil. Era uma expressão nítida”, afirma Bethânia.

Ao chegarem ao Rio, ela e Caetano foram direto ao Shopping Cidade Copacabana, na zona sul, onde ficava o Teatro Opinião. Era de manhã e não havia ninguém. Foram para a casa de uma prima no Méier. À noite, voltaram e foram recebidos pelo grupo do teatro. Enquanto Suzana de Moraes fazia o espetáculo, Bethânia ensaiava com a diretora musical Geni Marcondes. “Foi uma grande professora, me botou pra morar dentro da casa dela. Ensaiávamos de 8 da manhã até 8 da noite.” Depois, houve ensaios com Zé Kéti e João do Vale.

Bethânia recorda que não teve contato com Boal de imediato. “Ele demorou muito a me olhar, era muito compromissado. Um dia, perguntei quem era o diretor. ‘Mas ele não fala comigo.’ Eu estava subindo a escada do teatro e ele descendo. Falei: ‘Pare aí, eu sou a cantora que você vai dirigir’. Aí ele falou: ‘Gostei de você’. Ele pegou e me adotou na hora, um grande mestre, um grande amigo.” Os dois ainda trabalharam juntos em musicais imediatamente posteriores, Arena Canta Bahia e Tempo de Guerra.

A lembrança que Bethânia diz ter da noite daquele 13 de fevereiro de 1965 é “nítida”. “Foi muito calmo, muito mais do que é hoje. Eu chegando para a estreia e as pessoas nervosas. Thereza Aragão perguntou a Caetano: ‘Mas ela está calma, é um bom sinal? Não estou entendendo’. Caetano falou: ‘Ela está calma porque ela sabe’.”

Com Carcará (João Do Vale/José Cândido), Bethânia arrebatou o público, assumindo a postura do bicho malvado e valentão que ‘pega, mata e come’. Foi um impacto e ela logo chamou a atenção das gravadoras. Escolheu a RCA e por lá, ainda em 1965, lançou seu primeiro álbum. Entre as condições, gravar os amigos da Bahia. Caetano, Gil, Gal (ainda Maria da Graça) e Tom Zé registraram compactos simples.

“Qualidades iniciais ela tem, e muitas. Mas, se não se dedicar a sério à sua arte, não passará de um fenômeno mais político do que propriamente musical”, disse uma crítica do jornal O Estado de S.Paulo sobre seu primeiro álbum. Àquela época, Bethânia era só Carcará. “Foi muito grande, imediato e eu só podia cantar Carcará. E não era uma música corriqueira. Era uma música que exigia uma teatralidade, tinha um significado, um motivo, Parei, achei que estava chato e voltei pra Bahia”, conta Bethânia.

Um ano depois, o empresário Guilherme Araújo a chamou para um novo show no Rio. “Com uma condição: não canto Carcará, só quero cantar músicas de amor.” Guilherme topou. Surgia Comigo me Desavim, o primeiro de vários espetáculos de Bethânia dirigidos por Fauzi Arap. Nele, a cantora dizia em off: “Não existe só a cantora do Carcará. Existe também a pessoa Maria Bethânia”.

Carcará ficou como a base, não o centro da história de Bethânia. Tanto que ela nem planejava incluí-la em Abraçar e Agradecer, show que chega a São Paulo em março. A música acabou entrando como vinheta ao fim do segundo ato, por iniciativa dos músicos. “Eles me mostraram e eu achei lindo. Eu disse: já que vocês me mostraram, eu vou ficar em cena, não vou dar as costas a Carcará. Porque Carcará tem a coisa guerreira que mora em mim, no amor, na delicadeza e na briga.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

 

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Assuntos Bossa Nova, maria bethania, musica
Valmir Lima 13 de fevereiro de 2015
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