
Por Paula Ferreira e Sofia Aguiar, do Estadão Conteúdo
BRASÍLIA – O governo federal anunciou nesta terça-feira (12) a criação de 100 novos campi de institutos federais em todo o País. Com a medida, o Ministério da Educação criará 140 mil novas vagas.
De acordo com o governo, serão investidos R$ 2,5 bilhões para a construção das novas unidades por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O evento de lançamento ocorreu na manhã desta terça no Palácio do Planalto com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula disse que a intenção é chegar a mil unidades. “Eu lembro do Romário, do Pelé e do Túlio Maravilha querendo marcar mil gols. Por que não podemos tentar chegar a mil Institutos Federais no Brasil?”, disse na cerimônia realizada no Palácio do Planalto. “Temos uma meta: marcar mil gols e os nossos mil gols vai ser construir mil institutos federais nesse País”.
O presidente disse que não considera “gasto” o dinheiro investido na educação. “É proibido no meu governo falar que dinheiro de educação é gasto. Dinheiro de educação é o mais importante investimento que um país pode fazer. O que é gasto é dinheiro em cadeia, gastar fortuna para combater droga, contrabando, o crime organizado. Isso é gasto”, reforçou.
Além da criação dos novos campi, o governo anuncia um investimento de R$ 1,4 bilhão para incrementar a estrutura das unidades que já existem. O dinheiro será usado para construção de refeitórios, bibliotecas, quadras esportivas e salas de aula, além da aquisição de equipamentos.
Atualmente, a rede federal tem 656 campi em todo o País. Gestores, porém, têm apontado a demanda de mais verba diante das restrições orçamentárias dos últimos anos e do ingresso de mais alunos de camadas vulneráveis, com a expansão das cotas.
São Paulo será o mais beneficiado
São Paulo terá o maior número de municípios beneficiados com a criação dos institutos. No total, 12 cidades serão atendidas no Estado. Considerando as regiões do País, o Nordeste terá o maior número de unidades, com 38 novas unidades. Em seguida, a Região Sudeste receberá 27 unidades; o Sul, 13 unidades; o Norte com 12; e o Centro-Oeste, com 10.
Segundo especialistas, a ampliação das vagas do ensino técnico é fundamental para dar mais oportunidades aos jovens e conectar a formação das novas gerações com o mercado. O Brasil está entre os cinco países com menor taxa de matriculados na educação profissional, considerando 45 nações analisadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
No Brasil, só 10% dos alunos cursam o técnico, quando a taxa é de 68% na Finlândia e de 49% na Alemanha. A oferta de vagas no técnico é limitada e algumas vezes é necessário ser aprovado por processo seletivo (vestibulinho).
Pós-doutorando em Educação na Universidade Stanford, Gustavo Moraes afirma que, apesar das dificuldades orçamentárias ocorridas nos últimos anos, a rede federal de ensino profissional presta um serviço de excelência no Brasil.
Segundo ele, é preciso qualificar o sistema aprimorando alguns aspectos, como o fornecimento de formação continuada para os professores que atuam na rede, uma vez que atuam em geral em modelo de Dedicação Exclusiva, o que acaba restringindo o contato com o mercado.
Moraes argumenta que, nesse sentido, é importante valorizar as avaliações dos institutos e dos professores para incentivar essa qualificação.
“Isso, muitas vezes, tem efeito colateral. O professor não pode estar dentro do mundo do trabalho, porque está restrito à atividade da docência, é importante que tenha programas de formação continuada profissional e que isso seja fomentado e valorizado. No âmbito da educação profissional, é importante essa experiência profissional, por exemplo, que possam conseguir registrar novas patentes, estar atuando junto às empresas de tecnologia nas suas diversas áreas”, disse Gustavo Moraes, que é pesquisador do Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais).
Crescimento e orçamento
Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor do Cefet-RJ, Álvaro Chrispino afirma que a criação dos institutos federais garantiu o crescimento dos locais onde foram inseridos e reduziu o êxodo de jovens para cidades grandes em busca de oportunidades. E afirma que a expansão do modelo é uma política pública importante, mas pondera que é preciso garantir a ampliação orçamentária para garantir a qualidade das unidades já existentes.
“Se não houver incremento no orçamento para essa despesa e para a reposição dos salários para os outros servidores, é um ponto sensível”, disse.
De acordo com ele, o governo precisará criar mecanismos para atrair professores qualificados para os locais onde os novos institutos serão instalados.
“Imagine que haja no interior de um Estado um instituto federal, o governo abre concurso e coloca exigência de doutorado para docente. Essa é uma dificuldade, porque a carreira pede isso. Alguém que tenha sido formado num grande centro terá disposição para se fixar no interior? Esse é sempre um desafio em um País do tamanho do nosso. Como faço a gestão disso? Qual o perfil do concurso para atender a demanda local?”, analisa Chrispino.
