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Dia a Dia

Governo institui grupo para analisar e corrigir falhas no caso Maria da Penha

2 de junho de 2026 Dia a Dia
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Ativista Maria da Penha foi ameaçada e entrou para programa de proteção (Imagem: YouTube/Reprodução)
Ativista Maria da Penha foi ameaçada e entrou para programa de proteção (Imagem: YouTube/Reprodução)
Da Agência Gov

BRASÍLIA – O governo federal instituiu o Grupo de Trabalho Interministerial para realizar o Estudo do Caso Maria da Penha para analisar falhas e os desafios enfrentados pelo sistema de justiça brasileiro na investigação, processamento e julgamento da tentativa de feminicídio sofrida por Maria da Penha Maia Fernandes em 1983. A portaria foi publicada no Diário Oficial da União da segunda-feira (1º).

A medida integra os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro perante a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos).

Coordenado pelo Ministério das Mulheres, o grupo reúne representantes dos ministérios da Justiça e Segurança Pública, das Relações Exteriores, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Advocacia-Geral da União.

Também participam, como convidados, Maria da Penha Maia Fernandes, representantes do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), do Conselho Nacional do Ministério Público, do Cladem (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres), do Centro pela Justiça e o Direito Internacional e do Instituto Maria da Penha.

O GTI terá a missão de elaborar um estudo, com perspectiva de gênero, sobre a persecução penal referente à tentativa de homicídio contra Maria da Penha e os procedimentos administrativos relacionados ao caso. Ao final dos trabalhos, será produzido um relatório nacional que reunirá as lições aprendidas, identificará avanços institucionais alcançados desde então e apontará medidas voltadas à reparação simbólica e às garantias de não repetição.

“A história de Maria da Penha é também a história da luta de milhares de mulheres brasileiras por justiça e dignidade. Este grupo de trabalho representa um compromisso do Estado brasileiro com o cumprimento das recomendações internacionais de direitos humanos, com a reparação das falhas reconhecidas no caso e com o fortalecimento permanente das políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres. Mais do que revisitar o passado, estamos produzindo conhecimento para fortalecer as respostas institucionais e assegurar que nenhuma mulher tenha seu direito à justiça negado”, afirmou a ministra das Mulheres, Márcia Lopes.

Justiça e a não repetição

A criação do grupo decorre de acordo firmado em 2022 entre o Estado brasileiro, as peticionárias do caso e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Diante da impossibilidade jurídica de responsabilização dos agentes envolvidos nas omissões e demora injustificada ocorridas à época, foram pactuadas medidas alternativas para o cumprimento da recomendação internacional, entre elas a elaboração de um relatório nacional sobre o caso, ações de sensibilização do sistema de justiça, a realização de um ato de retratação simbólica e iniciativas voltadas à preservação da memória e da verdade.

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello dos Santos, ressaltou que mais de duas décadas após a decisão da CIDH, o caso Maria da Penha impulsiona transformações no Brasil.

“Este grupo de trabalho será um espaço de reflexão, memória e construção coletiva, reunindo instituições do Governo e da sociedade civil para registrar as lições aprendidas com o caso e fortalecer as políticas de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania tem atuado na articulação interinstitucional necessária para o cumprimento das recomendações internacionais e seguirá contribuindo para que esse processo fortaleça as garantias de não repetição e o acesso à justiça para todas as mulheres”, afirmou.

O Caso Maria da Penha tornou-se um marco internacional no reconhecimento da violência doméstica e familiar contra as mulheres como violação de direitos humanos. Em 2001, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro pela demora e omissão na condução do processo, decisão que impulsionou mudanças estruturais e inspirou a criação da Lei Maria da Penha, considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres.

Direitos das mulheres

Durante a reunião inaugural do GTI, realizada em abril deste ano, representantes dos órgãos participantes destacaram que o trabalho contribuirá para registrar as transformações promovidas pelo Estado brasileiro desde a condenação internacional, refletir sobre as falhas identificadas no caso e fortalecer as respostas institucionais diante da violência contra as mulheres.

Além da elaboração do estudo, o GTI contribuirá para a preservação da memória institucional do caso e para a identificação de caminhos capazes de aprimorar as políticas públicas e o funcionamento do sistema de justiça. A iniciativa busca transformar as lições deixadas por um dos casos mais emblemáticos da história dos direitos das mulheres no Brasil em instrumentos concretos de prevenção e enfrentamento à violência de gênero.

Homenagens

A criação do Grupo de Trabalho Interministerial soma-se a um conjunto de iniciativas conduzidas pelo Ministério das Mulheres para preservar a memória, fortalecer o legado de Maria da Penha e ampliar a efetividade das políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres.

Entre as ações está a implementação do Memorial da Mulher Brasileira – Casa Maria da Penha, fruto de parceria entre o Ministério das Mulheres e a Universidade Federal do Ceará (UFC). O espaço funcionará no imóvel em Fortaleza onde Maria da Penha sobreviveu às tentativas de feminicídio e funcionará como local de memória, educação em direitos humanos e promoção dos direitos das mulheres.

A iniciativa, que atende a uma das medidas pactuadas entre o Estado brasileiro, as peticionárias do caso e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, também prevê a criação de uma clínica de direitos humanos na UFC.

Em 2025, a AGU, com apoio do Ministério das Mulheres, também ajuizou ação civil pública contra a disseminação de conteúdos desinformativos sobre a história de Maria da Penha. A medida busca preservar a verdade histórica e proteger a memória de uma das principais referências da luta pelos direitos das mulheres no Brasil.

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