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Dia a Dia

Geólogo atribui seca no Oeste do AM a três ocorrências seguidas do La Niña

16 de outubro de 2022 Dia a Dia
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Efeitos da seca na orla do município de Tefé, zona central do Amazonas (Foto: Prefeitura de Tefé/Divulgação)
Efeitos da seca na orla do município de Tefé, zona central do Amazonas (Foto: Prefeitura de Tefé/Divulgação)
Por Teófilo Benarrós de Mesquita, do ATUAL

MANAUS – A vazante severa nos rios da região Oeste do Amazonas está relacionada a três ocorrências consecutivas do evento La Niña, fenômeno de variabilidade climática ligado ao resfriamento anômalo das águas do Oceano Pacífico Tropical. É o que diz o geólogo Naziano Pantoja Filizola Júnior, especialista em Hidrologia da Amazônia e professor do Departamento de Geologia da Ufam (Universidade Federal do Amazonas).

Municípios da região estão sob os efeitos da seca. Moradores de Tefé, Uarini e Alvarães relatam que há dificuldade para o abastecimento de alimentos nas sedes e nas comunidades; os valores cobrados para transporte de pessoas e cargas disparou, e em alguns lugares as aulas estão suspensas.

“A variabilidade de nível no rio Solimões/Amazonas é relativamente conhecida e possui uma previsibilidade razoável em condições climáticas ditas “normais”. Ou seja, há uma relação da variabilidade climática com a variabilidade hidrológica. Assim, quando há alguma alteração de ordem climática, os rios se mostram sensíveis a ela”, explica Naziano Filizola.

O especialista em hidrologia da Amazônia aponta a repetição do fenômeno conhecido como La Niña como causa da seca severa na região.

“No caso em questão do atual período este fenômeno de estiagem severa que está acontecendo no Oeste do Amazonas, sobretudo, pode estar relacionado com o evento La Niña que no caso vem atuando desde a primavera de 2021, dando sequência ao mesmo fenômeno de 2020-2021.  Portanto, o período de 2020 a 2022 está sendo caracterizado por 3 ocorrências consecutivas do La Niña. Em geral, a ocorrência de eventos climáticos desse tipo estão relacionadas a uma tendência de estiagem na porção mais a Oeste da Amazônia e às vezes no Sudoeste também”, afirma Filizola.

Naziano Pantoja Filizola Júnior, especialista em Hidrologia da Amazônia, explica a ocorrência (Foto: Acervo Pessoal)

O professor também comenta sobre uma característica hidrológica própria da Amazônia: quando se tem chuvas intensas no meio do ano na porção Norte da bacia se tem pouca chuva na porção Sul da bacia e isso impacta na vazão e no nível do rios. Por isso, há variações.

“E o fruto dessas variações pode ser a ocorrência de uma combinação em determinados anos, em que os períodos de estiagem em uma ou mais regiões ou calhas de rios, por exemplo, se aproximam do período de estiagem de outras, e isso está relacionado a fatores climáticos. E com isso o fenômeno tenderia a se intensificar. O mesmo pode acontecer no período de águas altas causando inundações, por exemplo”, diz. “Alguns trabalhos científicos tem buscado mapear essas variações”, completa.

Por enquanto, ainda não se tem uma sequência bem clara de aumento da severidade da seca, diz Filizola para quem, a estiagem de 2005 foi bem mais forte e ampla do que a deste ano. “No entanto em 2006 o fenômeno não se repetiu”, lembra.

“Do ponto de vista do clima, eventos consecutivos de La Niña são comuns e se deram em aproximadamente metade de todas as ocorrências do fenômeno desde 1900. No entanto, três eventos consecutivos são bem menos comuns e aconteceram apenas três vezes: de 1954 a 1957, depois de 1973 a 1976, e o mais recente entre 1998 e 2001, segundo os centros que estudam essas ocorrências”.

De acordo com Filizola, embora a seca seja resultado de processos naturais, a combinação de monitoramento científico das ocorrências com investimentos em tecnologia e políticas públicas em favor da população vulnerável é uma saída para tentar amenizar os impactos do fenômeno, tanto na vazante como na cheia.

“O monitoramento das condições climáticas e hidrológicas é o que se pode fazer de melhor. Com isso se tem dados para fazer mais e melhores previsões usando modelos cada vez mais precisos que vêm sendo desenvolvidos pelas Universidades e Institutos de Pesquisas”, opina.

“No mais o que se necessita é de investimentos em ciência e tecnologia no setor e uma política pública que mapeie, em escala municipal, as zonas de maior sensibilidade de modo a ter um plano de contingência que dê suporte às populações vulneráveis”, acrescenta.

Esse plano inclui a transferência do núcleo populacional para áreas mais seguras como medida para diminuir os efeitos sobre os moradores atingidos.

“Um plano que ajude a mapear, por exemplo as áreas habitáveis menos vulneráveis a eventos tanto de inundações quanto de estiagem, bem como no que diz respeito à não ocupação de certas áreas urbanas e rurais onde tradicionalmente ocorrem consequências desses fenômenos, mas que por causa da ausência de uma política coerente as populações não têm outra alternativa a não ser reocupar tais áreas”.

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Redação 16 de outubro de 2022
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