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Geral

Garimpo de ouro divide terra indígena em duas no sul do Pará

8 de agosto de 2022 Geral
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Por Lalo de Almeida e Vinicius Sassine, da Folhapress
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TERRA INDÍGENA BAÚ – O garimpo ilegal de ouro dividiu uma terra indígena no sul do Pará. Lideranças tomaram rumos distintos. Alguns indígenas foram cooptados por garimpeiros, enquanto outros passaram a organizar expedições para tentar flagrar e combater a atividade ilegal.

Na terra Baú, dos indígenas kayapó mekrãgnoti (eles se denominam mebemgôkre), a cisão está longe do fim. É um resumo do que significou o estímulo do governo Jair Bolsonaro (PL) à mineração nesses territórios, à margem da lei, ao longo de quase quatro anos de gestão.

No território de 1,5 milhão de hectares, equivalente a quase três vezes o tamanho de Brasília, existem cinco aldeias, mais indígenas isolados. A Baú, que leva o mesmo nome da terra indígena, é a aldeia-mãe, onde vivem 24 famílias, cerca de 150 pessoas.

A aldeia Baú se transformou num foco de resistência ao garimpo ilegal. A comunidade vive do extrativismo -em especial a coleta de cumaru e de castanha-, da caça e da pesca.

Já integrantes de outras aldeias passaram a ser permissivos ao garimpo, uma atividade que já existia há décadas na região, mas que voltou a ganhar força a partir de 2018.

“Na nossa luta, a gente não aceita os garimpos, nem madeireiros. Estamos protegendo a área. Mas do outro lado do rio tem garimpo, e lideranças trabalhando com garimpeiros e madeireiros”, resume o cacique Bepdjo, da aldeia Baú.

Uma análise feita por perito do MPF (Ministério Público Federal) no Pará no fim de 2018 já mostrava elevadas concentrações de mercúrio em peixes coletados na terra Baú, acima do limite de segurança estabelecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

O peixe dos rios Baú e Curuá é a principal fonte de alimento nas aldeias, de acordo com o MPF, o que ampliava a preocupação com a contaminação proveniente de garimpos.

Em 2019, o primeiro ano do governo Bolsonaro, lideranças de aldeias como a Kamaú decidiram deixar formalmente a entidade que representa os indígenas do território, o instituto Kabu. O motivo, segundo constatação de lideranças locais, foi a expectativa de ganho fácil com o garimpo ilegal.

O Kabu é o instituto responsável por administrar os recursos da compensação ambiental paga pelo asfaltamento da BR-163, que conecta Santarém (PA) a Cuiabá. Os pagamentos foram interrompidos em 2020, o que é contestado na Justiça.

A BR-163 é uma das rotas centrais para escoamento de grãos do Centro-Oeste, com impacto direto nas comunidades indígenas do sul do Pará. Os kayapó vivem em cinco terras indígenas na região.

O movimento de deixar o Kabu, que representa 11 aldeias das terras Baú e Menkragnotí, foi o início do processo de reabertura ao garimpo.

Hoje, na terra Baú, as águas do rio Curuá estão poluídas pela atividade do garimpo -a coloração é marrom acinzentada, com aspecto leitoso. Longos trechos de floresta foram derrubados e escavados na busca de ouro. A atividade ilegal também é desenvolvida por meio de dragas.

A reportagem esteve no local e constatou a divisão entre as aldeias, que fica muito evidente em uma das bases de vigilância mantidas pelos indígenas que fiscalizam e combatem o garimpo.

A base fica no rio Pixaxá. Para chegar até sua foz, é preciso navegar pelas águas poluídas do Curuá por meia hora, rio acima. No caminho, há uma área de garimpo na beira do rio, recém-desativada após uma ação da Polícia Federal.

Do lado direito do rio, é possível visualizar a área degradada pelo garimpo, no território da aldeia Kamaú. Do lado esquerdo, está a floresta intocada no território da aldeia Baú.

“Alguns indígenas se venderam, uns cinco ou seis. Hoje, eles não atuam mais [com o garimpo ilegal]”, afirma Adriano Amorim, representante da associação Mantinó, que diz representar as aldeias da terra Baú, menos a aldeia Baú.

“Toda a terra Baú quer trabalhar com extrativismo. Após as aldeias se desligarem do instituto Kabu, houve infiltração de garimpeiros, e eles estão à procura de ouro. Mas não há hoje exploração de garimpo, nem indígenas associados a isso. Há muita picuinha entre as lideranças”, diz Amorim.

O cacique Bepdjo afirma que há lideranças aceitando as ofertas do garimpo ilegal. “Cada um pensa diferente. Eles aceitaram a divisão entre nós. Nós falamos a mesma língua, andamos juntos, lutamos juntos. Por causa do garimpo, a gente se dividiu”.

Em julho, a PF fez uma operação na terra Baú e destruiu seis balsas e seis motores usados no garimpo ilegal.

Uma das balsas, equipada com televisão e ar-condicionado, foi avaliada pelos policiais em R$ 2 milhões. A polícia apreendeu 82 gramas de ouro, e um garimpeiro foi multado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em R$ 1 milhão.

Na divulgação sobre a operação, a PF apontou a divisão entre os indígenas: “A operação também busca acabar com o conflito entre dois grupos indígenas dos kayapós presentes na região: uma parcela menor, a favor da presença dos garimpeiros, e um grupo maior, que é contra essa presença”.

Segundo a PF, “a extração irregular de ouro pode causar danos graves ao meio ambiente como a poluição dos leitos dos rios e danos irreparáveis à fauna e à flora, além de interferir na preservação e manutenção das tribos indígenas”.

As aldeias Baú e Kamaú são próximas, e há festas e parentes que conectam as duas comunidades. O garimpo ilegal vem rompendo essa conexão.

Integrantes da Baú decidiram combater e até mesmo tentar fechar áreas de garimpo. Desde 2020, já foram feitas cinco expedições. Num único local foram encontrados 40 garimpeiros.

A PF, na ação em julho, buscou inativar quatro áreas de garimpo. Em uma delas chegou a ser fundada uma aldeia nova, com perspectiva de exploração ilegal do ouro.

A região é de difícil acesso. De Belém a Novo Progresso (PA), são 1.600 quilômetros. De Novo Progresso até o povoado Esplanada, são mais 30 quilômetros, pela BR-163. Duas horas numa estrada de terra separam o povoado da entrada da terra indígena. Pasto, plantações de milho e esqueletos de castanheiras queimadas dão lugar à mata fechada a partir dessa entrada.

Ainda é possível notar ramais, dentro da terra indígena, usados para extração ilegal de madeira.

O contraponto ao garimpo ilegal é feito em especial pelas mulheres extrativistas da aldeia Baú. Com os filhos no colo, elas enchem de cumaru os paneiros que carregam nas costas. Enquanto coletam as sementes, os homens aproveitam para caçar e pescar. O cumaru é usado pela indústria de cosméticos para a fabricação de óleos e fragrâncias.

O peso nas costas é sustentado por uma fita presa à cabeça. Os paneiros abarrotados de cumaru são transportados nas embarcações à aldeia, onde são colocados para secar ao sol.

“A gente, da aldeia Baú, protege nossas árvores, o lugar onde a gente nasceu, a raiz profunda da terra. E vamos continuar defendendo”, diz o cacique Bepdjo.

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Assuntos garimpo ilegal, Pará, terra indígena
Murilo Rodrigues 8 de agosto de 2022
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