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Sandoval Alves Rocha

Fórum das Águas volta a criticar privatização da natureza

5 de janeiro de 2026 Sandoval Alves Rocha
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MANAUS – O Fórum das Águas do Amazonas realizou no dia 23 de dezembro uma confraternização natalina reunindo lideranças de movimentos sociais e organizações da sociedade civil. O evento ocorreu no Espaço Loyola, Centro de Manaus, sendo a ocasião privilegiada para rememorar a atuação do coletivo ao longo do último ano, assim como fortalecer a união entre os atores sociais que lutam contra o avanço do mercado sobre a natureza.

Mobilizado pelo espírito natalino, o encontro foi um momento em que se celebrou a atuação do Fórum das Águas pela defesa dos direitos humanos à água e ao saneamento, estimulando a reflexão sobre os desafios impostos pelo capitalismo selvagem que domina a Amazônia, devastando a biodiversidade, eliminando as culturas e gerando pobreza e desigualdade social.

O modelo de desenvolvimento adotado na região tem concentrado a riqueza nas mãos de poucos grupos econômicos (grandes empresários, latifundiários, bancos e políticos desonestos) e é o principal responsável pelo aprofundamento das mudanças climáticas.

Na apresentação das ações do Fórum, um dos coordenadores destacou a espoliação sofrida pela população de Manaus colocada em curso pela empresa Águas de Manaus, propriedade do grupo Aegea Saneamento e Participação.

A liderança frisou denúncias realizadas por lideranças em bairros e comunidades da periferia contra a concessionária de água e esgoto: faturas impagáveis, cobranças por serviços não oferecidos, destruição de ruas e calçadas, falta ou má qualidade da água, morosidade na expansão do esgotamento sanitário, fiscalização insuficiente e ineficiente, desrespeito aos consumidores, falta de transparência na gestão dos serviços e a ausência de participação popular na política de saneamento.

A empresa é também acusada de cooptação e compra das lideranças visando desmobilizar as articulações da sociedade civil contra o seu atendimento precário. Um cidadão que recusou ser cooptado pela Águas de Manaus alertou que a concessionária tem promovido festas e confraternizações, oferecendo presentes às lideranças em troca de aliança e apoio popular.  Ao oferecer presentes em troca apoio, certamente as iniciativas não beneficiam a população! Esta prática que fere a ética social e empresarial revela o nível de estratégias adotadas pela empresa para manter os seus estratosféricos lucros.

Na confraternização do Fórum das Águas muitos destacaram a importância do coletivo para mobilizar o debate sobre o saneamento básico na Amazônia. A este respeito, o Vereador José Ricardo (PT) falou sobre o seu livro publicado recentemente com o título “Lutas e Movimentos Sociais no Amazonas”. Entre muitas iniciativas da sociedade civil, o parlamentar destaca também nesta publicação a história do Fórum das Águas desde as suas origens, relembrando os atores que fizeram parte desta trajetória de luta pela preservação das águas e por uma política pública de saneamento básico democrática e sustentável.

O ex-vereador Waldemir José também resgatou as origens do Fórum das Águas lembrando a crise hídrica e humanitária instalada em Manaus pela privatização da água e esgoto, que há 25 anos perdura com o apoio incondicional dos poderes públicos e meios de comunicações locais. Waldemir se remeteu às Comissões Parlamentares de Inquéritos (2005, 2012 e 2023) instauradas pela Câmara dos Vereadores (CMM) para investigar a trágica atuação do setor privado no saneamento da capital amazonense. Neste cenário, ele destacou a importância do Fórum das Águas para trazer à tona a insatisfação da população e expor os péssimos serviços da empresa frente às estratégias comunicacionais da concessionária que buscam esconder tudo isso da sociedade.

Outro aspecto destacado reafirma a importância das parcerias entre os movimentos sociais e organizações da sociedade civil para confrontar as políticas neoliberais de espoliação do homem e da natureza. A lógica do capital tem anulado e mitigado as iniciativas de valorização da vida para impor racionalidades técnicas e utilitaristas que beneficiam os setores mais poderosos, criando um mundo dividido, desigual, injusto e ambientalmente insustentável. Diante desta realidade, é necessário fortalecer as parcerias entre os movimentos sociais promovendo fóruns de debates que denunciem as contradições capitalistas e tirem a população do consumismo anestesiante.

A fragilidade dos direitos humanos e das democracias exige que a sociedade civil renove as suas estratégias de mobilizações sociais, políticas e ambientais, buscando promover os bens comuns e garantir um mundo justo e sustentável para as próximas gerações. Os avanços tímidos da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) mostram que as superpotências não se empenham adequadamente na superação dos desafios socioambientais, portanto não justifica esperarmos passivamente pelas iniciativas destes atores. A democracia, a implantação dos direitos humanos e a preservação dos ecossistemas dependem em grande parte da nossa capacidade de mobilização e incidência.

Em clima de Natal e já comemorando o Ano Novo, o Fórum das Águas se alegra por ser um promotor de esperança em meio a tantas intervenções que priorizam o aquecimento do mercado e o lucro das empresas em detrimento da defesa da vida, que tem sido constantemente eliminada e precarizada em Manaus e na Amazônia. Não podemos deixar de sonhar com o bem comum, pois estes sonhos nos mobilizam para a ação, transformando desejos em realidades palpáveis.

É necessário sonhar juntos frente aos destruidores e profanadores de sonhos. O Natal e o Ano Novo nos convidam a um caminho de resistência e nos apelam para nunca perdermos a fé e a esperança, mesmo diante de cenários desfavoráveis.


Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia, Fórum das Águas, privatização da água, Saneamento Básico
Cleber Oliveira 5 de janeiro de 2026
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