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Dia a Dia

Fiocruz testa isca açucarada no combate à parasita da leishmaniose

2 de janeiro de 2019 Dia a Dia
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Pesquisadores da Fiocruz testam compostos para matar parasita que causa a leishmaniose (Foto: Fiocruz/Divulgação)

Por Marina Estarque, da Folhapress

SÃO PAULO-SP – Uma pesquisa da Fiocruz aponta um novo caminho contra a leishmaniose: em vez de atacar o mosquito transmissor (flebotomíneos ou mosquito-palha) do parasita, a ideia é combater o próprio parasita dentro do intestino do inseto. A pesquisa, publicada na revista Parasites & Vectors em novembro, mostra que compostos orgânicos como a mandelonitrila, presentes em frutas e sementes, são capazes de matar parasitas da leishmaniose, protozoários flagelados do gênero Leishmania.

A forma visceral da doença, a mais grave, passou por uma expansão geográfica no país. Sem tratamento, é fatal em 90% dos casos. O composto com a mandelonitrila eliminou 100% dos parasitas de quatro espécies de leishmania, inclusive L. infantum, causadora da leishmaniose visceral nas Américas, segundo o coordenador do estudo, o chefe do laboratório de bioquímica de insetos da Fiocruz Fernando Genta.

Após os resultados promissores com a mandelonitrila, os pesquisadores decidiram testar se o composto poderia afetar a viabilidade do parasita dentro do sistema digestivo do vetor, o mosquito-palha. Os resultados foram animadores: a substância reduziu em 24% o número de mosquitos infectados e em 64% o de parasitas no intestino do inseto, o que reduz as chances de transmissão da doença.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores colocaram os mosquitos em gaiolas, com algodões molhados com uma solução de sacarose e a mandelonitrila que funcionava como uma isca açucarada. Para comparação, fizeram uma gaiola separada com um grupo com uma isca que não continha mandelonitrila. “Os flebotomíneos sempre buscam fontes de açúcar para ter energia, no néctar, em frutas. A fêmea só busca o sangue para colocar ovos”, diz Genta.

Depois de alguns dias em contato com as iscas, os pesquisadores ofereceram sangue infectado com Leishmania. Após a infecção, os intestinos foram dissecados para a contagem dos parasitas. A equipe usou a espécie Lutzomyia longipalpis, principal vetor da leishmaniose visceral nas Américas, infectado com L.mexicana, causador da forma cutânea da doença.

Apesar dos pesquisadores não terem usado o parasita da leishmaniose visceral nesta etapa, Genta diz que é possível esperar o mesmo efeito, dados os resultados em cultura.

A ingestão da mandelonitrila conseguiu ainda reduzir o tempo de vida dos mosquitos machos de 17 para 7 dias, e das fêmeas, de 15 para 10 dias.
Para o responsável pela entomologia do laboratório de leishmanioses do Instituto Evandro Chagas, Thiago Vasconcelos dos Santos, que avaliou o estudo a pedido da Folha, a pesquisa é promissora. “A redução da longevidade é muito importante. Quanto mais tempo a fêmea está viável, maior a exposição da população à infecção”.

As iscas açucaradas, impregnadas com inseticida, são usadas em países como Irã e Israel para combater flebotomíneos. Costumam ser formadas de redes ou cercas, borrifadas com a solução tóxica. “A isca açucarada sempre foi usada para controlar o inseto, não o parasita. Essa é a novidade da pesquisa. E, do ponto de vista ambiental, as iscas com inseticida são horríveis”, diz Genta. Outro problema é a toxicidade – as moléculas se acumulam no ambiente, em aves, mamíferos e peixes.

“O Ministério da Saúde hoje preconiza a borrifação dos domicílios onde há casos de leishmaniose. Mas é uma estratégia muito cara e ecologicamente discutível, pelo risco que isso traz para humanos e animais. Um dos diferenciais dessa pesquisa é que os compostos não agridem o meio ambiente”, diz Santos, do Instituto Evandro Chagas.

A mandelonitrila é mais tóxica para o parasita do que para mosquitos. O composto é produto da digestão de um açúcar, presente no damasco, ameixa e castanhas, por exemplo. “A maioria dos insetos estão acostumados a esses compostos. E seres humanos se alimentam deles rotineiramente e eliminam a parte tóxica na urina”, diz Genta. Pesquisadores dizem que o estudo pode apontar ampliar o leque contra a leishmaniose.

O Ministério da Saúde estuda adotar o uso de coleiras com inseticida para cachorros, principal reservatório da doença em áreas urbanas. O médico José Angelo Lauletta Lindoso, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, considera a pesquisa “bem desenhada e plausível”. “Mas é preciso ver como seria a aplicabilidade na saúde pública; vai borrifar onde, como?”. Segundo Genta, o grupo busca novos compostos, similares à mandelonitrila, mas mais eficazes e baratos.

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Assuntos Fiocruz, leishmaniose
Cleber Oliveira 2 de janeiro de 2019
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