
BRASÍLIA – O longa-metragem amazonense Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, fez estreia elogiada no Festival de Berlim de 2016. Agora, os diretores se preparam para trazer o filme às poltronas brasilienses, no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Rodada inteiramente nas proximidades de Manaus, a produção conta com elenco e diálogos em grande parte indígenas, como conta Sérgio Andrade. “O filme trata de ser índio e ser habitante de uma cidade”, disse.
O filme conta a história de Anderson, interpretado pelo ator Anderson Tikuna, um jovem indígena que vive momentos de crise de identidade. Assim, ele decide ir contra as tradições, sair da aldeia e morar na cidade. “Ele também vive um certo conflito com os líderes da comunidade dele, que são vividos também por indígenas. O filme é quase todo falado em língua indígena, o pessoal de Brasília vai assistir um filme com legendas em português”, comenta o diretor.
A vontade de retratar a realidade indígena começou pelo contato com a etnia em produções anteriores, o curta-metragem Cachoeira e o longa A Floresta de Jonathas, como relata Sérgio Andrade. “O que me impressionou muito é que são pessoas que mantêm sua característica original e étnica de indígena procuram manter as suas expressões e seus costumes culturais, mas ao mesmo tempo vivem nessa dicotomia entre a aldeia e a cidade”.
O Amazonas, para o diretor, tende a crescer enquanto cenário de produção cinematográfica. As belas paisagens de floresta são um dos atrativos para a gravação de filmes e documentários no estado. “Tem uma tradição de pessoas que vêm para cá filmar, fazer documentários. Mas a gente tem poucas incursões de gente daqui mesmo, que nasceu aqui e de ter expressão com filmes. Então chegou essa hora, acho que agora é possível, com toda essa corrente de produções, há uma atenção voltada mais para cá”.
Depois da boa recepção em Berlim, no início do ano, Sérgio espera ver o mesmo no festival de Brasília, que ocorre de 20 a 27 de setembro. “Para a gente, foi muito boa essa estreia em Berlim, foi inesperada, fantástica e trouxe muita projeção para o filme. Trouxe boas críticas e uma repercussão muito boa. Agora vamos ver em Brasília, não é?”.
Longa brasiliense
Malícia, filme brasiliense do diretor Jimi Figueiredo, também irá concorrer ao prêmio de melhor longa-metragem no Festival de Cinema de Brasília com três locações, Plano Piloto, Ceilândia e Sobradinho. “Estou muito feliz de ter entrado no festival. Vamos a vida inteira no cine Brasília ver esse festival, acho que isso é um sonho para qualquer cineasta daqui”, exemplificou o diretor.
A obra fala sobre voyeurismo, prática que consiste na observação de pessoas em momentos íntimos. O personagem observa a ex-mulher por não conseguir superar sua antiga relação e seguir sua vida sem dificuldades. O diretor acrescentou que o filme é mais uma reflexão sobre conseguir o que quer por meios nada convencionais, bem estúpidos. “Malícia não no sentido de maldade, mas de jogar com as pessoas”.
Distribuição
O diretor de cinema brasiliense, Jimi Figueiredo, de 55 anos, denominou a etapa de distribuição do filme como ‘funil de todo o processo’, salientando a dificuldade de fazer a produção chegar aos cinemas. “As redes comerciais de cinema no Brasil exigem outro tipo de filme, a comédia. É algo que estamos tentando vencer aos poucos”.
Segundo Jimi, a comédia se tornou um filão comercial brasileiro e, possivelmente, como uma herança das chanchadas dos anos 50 e 60. “Acho que com o tempo, o gênero se consolidou como um molde, referência cinematográfica brasileira”, ressaltou.
Manter o mercado aquecido e gerar empregos para as pessoas na área da comédia é algo positivo, entretanto, está na hora de começar a explorar outros tipões de gêneros, segundo o diretor. “Se pegarmos os filmes mais representativos da história do cinema brasileiro, muitos não são comédias. Cidade de Deus e Pixote são exemplos”.
Jimi ratificou que o cinema brasileiro deve buscar uma identidade própria e se comunicar com ela em forma de mercado e saber vender suas novas ideias. “Temos que entrar no mercado de uma forma mais inteligente em relação aos outros gêneros”.
Festival
O Festival acontece de 20 a 27 de setembro no Cine Brasília. Todos os nove filmes que irão concorrer a melhor longa metragem são inéditos no Brasil e representam produções de sete diferentes estados do país.
Os longas concorrentes são:
A cidade onde envelheço, de Marilia Rocha
Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo
Deserto, de Guilherme Weber
Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr.
Malícia, de Jimi Figueiredo
Martírio, de Vincent Carelli, em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita
O último trago, de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti
Rifle, de Davi Pretto
Vinte anos, de Alice de Andrade
(Da Agência de Notícias UniCEUB)
