
Deparamo-nos com acontecimentos e condições que esperávamos já ter superado, mas que insistem em reaparecer, lembrando que a história não é linear. Eles sugerem a necessidade de um empenho perseverante na busca de um presente mais solidário e um futuro cada vez melhor.
Imaginamos ter vencido situações que pensávamos já ter enterrado no passado e não gostaríamos de vivê-las novamente, uma vez que a sua experiência provocou sofrimento e dor.
Os últimos anos marcaram a história brasileira com acontecimentos desagradáveis que nos remetem às épocas sombrias do passado. Não é somente o caso dos atos terroristas patrocinados e realizados por grupos bolsonaristas que atentaram contra a democracia, invadindo e depredando as sedes dos Três Poderes da República. De fato, esse acontecimento é uma demonstração muito evidente do que esses grupos são capazes de fazer para permanecerem no poder contrariando a vontade da população.
Esse terrorismo, assim como as manifestações golpistas próximas aos quartéis de muitas cidades, mostra que estamos coexistindo com grupos que não toleram o jogo democrático e não suportam a experiência da derrota eleitoral. Eles abominam a vontade do povo e por isso querem tirar dele até o poder de escolher os próprios governantes. Esse ódio à democracia nos confronta com a Ditadura Militar, cujo fantasma nos assustou ao longo dos últimos anos.
O regime militar, iniciado pelo golpe cívico-militar de 1964, ceifou muitas vidas e produziu intensa dor que não gostaríamos de viver novamente.
A chacina contra dos povos yanomamis tornada pública nas últimas semanas também nos confronta com o fantasma do regime militar, mas remonta essencialmente ao etnocídio colocado em curso a partir da empresa colonizadora, no século XVI. A política genocida contra os povos yanomamis implantada pelo último governo alude à concepção da suposta superioridade de raças, praticada pelos europeus em relação aos povos indígenas que aqui viviam há milhares de anos. Esse etnocentrismo assassinou muitos grupos étnicos e, como vimos, ainda hoje gera muito sofrimento e desprezo pela vida humana.
O desmatamento da Amazônia é outro fantasma que nos atormenta e apareceu vivamente nos últimos tempos. Nos anos 2000 conseguimos afugentar esse fantasma, reduzindo significativamente os índices de desmatamento dessa região (mais de 85%), mas nos últimos tempos vimos um aumento assustador desse fenômeno.
O governo Bolsonaro é um dos principais responsáveis por essa devastação, entregando essa política para ministros corruptos e antiambientalistas, que buscaram destruir as florestas para implantar pastos, monocultura e mineração. Desaparecimento da biodiversidade, diminuição das chuvas, aumento da temperatura são alguns dos efeitos dessa prática, que desejamos erradicar no país.
A fome constitui outro fantasma que novamente voltou a rondar o Brasil depois de um bom período. Nesse período, o país saiu do Mapa da Fome que é expressão perversa da injustiça estrutural instalada no território nacional. Estudos demonstram que chegamos a 33 milhões de famintos, batendo recordes vergonhosos que não víamos há muito tempo, graças à política de distribuição de renda e a criação de empregos realizadas no início dos anos 2000.
Esse fantasma é assustador, principalmente por vivermos em um dos países que mais exporta alimentos. É resultado de uma total falta de cuidado com o povo e revela os níveis elevados de desigualdade que abate o Brasil.
Esses fantasmas e muitos outros têm nos visitado nos últimos anos, demonstrando os equívocos políticos que realizamos durante a última década. As classes mais abastadas da sociedade conseguiram impor os seus interesses e dominar boa parte dos espaços políticos, em detrimento das classes trabalhadoras, que lutam para melhorar as condições de vida do país. São fantasmas muito vivos, que impõem a necessidade de uma atuação decisiva de todos os que acreditam na consolidação da democracia.
Esses fenômenos mostram que a sociedade precisa reforçar os valores democráticos e desenvolver uma educação e cultura da cidadania a fim de beneficiar a população do seu conjunto. É preciso aperfeiçoar a democracia brasileira, introduzindo as condições necessárias para que o país consiga garantir os direitos básicos da sua população, mesmo sabendo da existência de grupos antidemocráticos, que vivem à espreita e esperam a primeira oportunidade de se manifestar e intervir autoritariamente.
É preciso que o amor e a solidariedade perseverem frente ao ódio e à barbárie.
Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
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