
Por Milton Almeida, do ATUAL
MANAUS – Exclusividade e identidade étnica diferenciam a moda indígena da convencional, de consumo de massa. Peças com edição limitada, tecidos trabalhados a mão e design único são as credenciais para conquistar consumidores europeus e nacionais.
Um vestuário indígena sofisticado e elegante foi apresentado em um desfile para 150 convidados na noite de sábado (13) no Centro Cultural Palácio Rio Negro, no Centro de Manaus. Entre as atrações estão criações dos estilistas indígenas Yrá Ticuna, Sioduhi Lima, da design de biojoias Rita Prossi e do Ateliê Derequine.
Em comum, eles têm a origem indígena no Amazonas. São de comunidades de São Gabriel da Cachoeira (a 859 quilômetros de Manaus) e Tabatinga (a 1.106 quilômetros da capital), mas moram em Manaus devido às relações comerciais.
“Eu reinventei as vestimentas dos nossos antepassados. Não queria que os nossos conhecimentos, rituais, as nossas pinturas, ficassem somente dentro da aldeia. Queria mostrá-las para fora e queria também que as pessoas brancas usassem as nossas vestes, mas de maneira renovada, feitas com outros tipos de tecidos”, diz Yrá Ticuna, que venda suas peças na França, Alemanha, Sul e Sudeste do Brasil.

Yrá Ticuna mora na comunidade indígena Inhaa-bé, no Tarumã, zona oeste de Manaus, onde há 25 famílias indígenas que trabalham com roupas e artesanato. “Acho que através da moda podemos divulgar nossa ancestralidade indígena à sociedade. A nossa cultura não é uma vergonha e eu fico feliz quando as pessoas nos procuram para comprar nossos produtos”, diz.
A aceitação da moda indígena pelo consumidor despertou o interesse da ciência. “O mercado da moda amazonense está começando a ter vida própria. A nossa moda não tem um estilo único, tem vários estilos. Portanto, ela pode atender a diversos mercados, o internacional, o nacional e o local também”, diz Karina Gonçalves, professora e pesquisadora de moda da Ufam (Universidade Federal do Amazonas). Ela diz que a moda indígena tem vários estilos porque o Amazonas é diverso e pode ser usada por qualquer pessoa.
Segundo a pesquisadora, a moda indígena no Amazonas é uma “moda autoral”, focada no estilo de cada criador, que acredita na arte indígena. “Ainda não é uma moda feita em grande escala, é uma moda slow fashion (moda lenta). Ainda não temos estrutura para uma moda indígena em grande escala, mas a exclusividade é o nosso diferencial e isso agrega valor à roupa. O consumidor está adquirindo uma roupa exclusiva e sustentável, e cada pessoa quer ser exclusiva”, afirma.
Quem tem marca registrada e um estilo próprio é o também amazonense Sioduhi Lima, que expõe seus produtos na Europa. Uma de suas peças foi usada pela cineasta Gabriela Carneiro da Cunha, uma das diretoras do documentário “A queda do Céu” inspirado no livro homônimo de Davi Kopenawa, no último Festival de Cannes, na França.
“Quando falamos de exclusividade, nos referimos também aos conhecimentos milenares de povos originários, de povos quilombolas, povos ribeirinhos, enfim, de pessoas que conhecem a Amazônia”, diz Sioduhi.

O estilista aplica na criações o conceito que ele chama de “futurismo indígena”, que significa focar no passado para construir e atualizar o presente e preparar o futuro. “Eu olho para trás, olho o momento e construo um futuro, porque já vivemos, enquanto povos originários, a era do pós-apocalipse. Então, construir os tecidos, tingir os tecidos, as costuras, usar as tecnologias é o olhar de um jovem design (de moda) como eu de como posso ajudar a perpetuar esses conhecimentos milenares. Há muitos sentimentos nas minhas criações”, diz Sioduhi, que tem escritório de moda em São Paulo.
“A minha moda tem um campo ativista e educacional também. Muitas pessoas não compreendem o que a moda faz com a gente, seja negativo ou positivo. E a gente precisa questionar o que estamos consumindo, de onde vem as coisas que consumimos todos os dias. Tudo isso é uma construção da cultura que acontece por meio da moda”, afirma Sioduhi.

