
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — Na maior floresta tropical do planeta, onde comunidades ainda vivem em áreas isoladas e de difícil acesso, levar energia elétrica não significa apenas acender uma lâmpada. É preciso garantir produção, armazenamento de alimentos, acesso à água potável e permanência das famílias no território. Essa é a avaliação de Valcléia Lima, superintendente da FAS-AM (Fundação Amazônia Sustentável), que defende uma mudança no olhar sobre o papel da energia na região.
“A gente sabe que socialmente a energia chega, que é aquela energia que você acende ali em um espaço ou que você tem a televisão, mas as populações tradicionais querem mais do que isso: querem armazenar a produção, querem beneficiar, especialmente nesse período que a gente está vivendo de adaptação às mudanças climáticas. A gente viveu aqui no Amazonas duas secas muito severas, as comunidades ficaram isoladas e onde os barcos não chegavam para levar o diesel, não tinha como ter nem água potável porque tudo depende da energia”, disse ao ATUAL.
A declaração ocorreu durante o Workshop Energias da Amazônia, entre os dias 10 e 11 deste mês em Manaus, promovido pelo Ministério de Minas e Energia em parceria com a GEAPP (Aliança Global de Energia para Pessoas e Planeta) e a FAS. O evento reuniu representantes de órgãos públicos, setor elétrico, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e parceiros internacionais para discutir energia sustentável e os desafios da transição energética na Amazônia.
Segundo Valcléia Lima, ainda há uma visão limitada sobre o que representa o acesso à eletricidade, principalmente em comunidades ribeirinhas no interior da Amazônia. Em muitas localidades, a energia atende apenas demandas básicas, como iluminação e televisão, mas não oferece capacidade suficiente para fortalecer atividades produtivas e gerar renda local.

Para ela, discutir energia na Amazônia exige compreender as dimensões territoriais e os desafios logísticos da região. Com municípios acessíveis apenas por rios ou avião, o custo de levar infraestrutura é elevado e as decisões ocorrem apenas sob a ótica financeira.
“Quando a matemática vem em primeiro lugar, a conta muitas vezes não fecha. Mas a gente precisa olhar por outra ótica”, disse, ao defender que o investimento em energia no interior deve ser visto como estratégia de fortalecimento territorial e não apenas como despesa.
A ausência de infraestrutura adequada, segundo a superintendente da FAS, contribui inclusive para o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos. Para ela, parte do inchaço de cidades como Manaus está relacionada à falta de políticas estruturantes no interior. “As cidades estão populosas justamente porque a gente não leva energia para os municípios mais distantes”, disse.

Valcléia Lima também defende que projetos energéticos precisam considerar as especificidades de cada território e envolver as comunidades desde o início do planejamento. “A gente faz para depois perguntar. E isso gera conflito”, criticou, ao comentar os embates históricos entre empreendimentos de grande porte e populações tradicionais.
Na avaliação da gestora, o caminho passa por soluções descentralizadas, adaptadas à realidade local e com maior uso de fontes renováveis, como a solar e sistemas híbridos, reduzindo gradualmente a dependência de combustíveis fósseis. Valcléia Lima afirma que garantir energia de qualidade no interior é também uma forma de assegurar que as famílias permaneçam onde sempre viveram. “Resiliência é a teimosia de estar num lugar onde você gosta e se sente bem. Mas seria melhor se todas as políticas chegassem até essas pessoas, e não que elas precisem sair para buscar”.
Realidade
A realidade descrita pela superintendente da FAS é vivida por Rui da Silva Barbosa, de 53 anos, morador há 23 anos da Comunidade Bela Conquista, na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna. Representante das comunidades da região, ele afirma que a ampliação do sistema de energia solar deve impactar diretamente a principal atividade econômica local: a produção de açaí.
Segundo ele, o projeto instalado há pouco mais de três anos abrange sete comunidades, sendo quatro indígenas e três tradicionais, e deve beneficiar cerca de 170 famílias. “O principal impacto é a geração de renda para a comunidade. A gente tem uma grande produção de açaí, não só para a nossa comunidade, mas para outras seis comunidades do lago”, afirmou.
De acordo com Rui Barbosa, antes da implantação das placas solares a produção era limitada pela dependência do diesel, cujo custo elevado e a dificuldade de abastecimento comprometiam o beneficiamento do fruto. “Um litro de diesel chega a custar R$ 8 lá, além de faltar. Quando o barco não chega, para tudo. A energia solar não falta; a gente só controla no período do inverno”, disse.

Rui explica que a máquina utilizada para bater o açaí exige alta carga energética, o que tornava o processo ainda mais caro quando a comunidade dependia exclusivamente do gerador. “Antigamente essa produção toda era estragada, não existia esse mercado do açaí, né? E aí eles vão e traz o açaí, a gente compra na comunidade. Lá tem produtor que chega a fazer mais de 600 reais por dia em açaí. Então, a maior produção lá na comunidade, aos redores, é o açaí, né? Além do açaí, tem a castanha”, disse. “Vai favorecer todas elas. É um projeto muito bom e, se Deus quiser, vai dar certo”.
Projeto
A instalação de placas solares em comunidades indígenas e ribeirinhas faz parte do projeto Luz na Floresta, desenvolvido pela FAS nas comunidades de Bela Conquista, na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna, Nossa Senhora do Livramento do Uixi, na RDS Piagaçu-Purus.
Segundo a FAS, o projeto implementa soluções de eletrificação descentralizada voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva do açaí. A intervenção técnica consiste na instalação de microrredes híbridas off-grid com armazenamento em baterias de lítio (LiFePO₄), dimensionadas para garantir autonomia operacional e maior confiabilidade no fornecimento de energia.
Em Bela Conquista, o sistema foi projetado para alimentar a unidade de beneficiamento existente e ampliar o atendimento a estruturas sociais, como escola e poço artesiano. Na comunidade do Uixi, além da instalação do arranjo energético e do sistema de armazenamento, o projeto prevê a construção de uma nova unidade produtiva em alvenaria.
De acordo com a fundação, as microrredes serão geridas por meio de fundos comunitários, modelo que busca assegurar a sustentabilidade financeira da operação e manutenção dos sistemas.
Hidrelétricas
Nesse debate mais amplo, Valcléia Lima também faz uma crítica ao modelo histórico de geração de energia na Amazônia. Ao citar empreendimentos como Balbina e Belo Monte, ela questiona se o volume de energia produzido compensou os impactos ambientais e sociais causados.
Para a superintendente, é preciso considerar quantas áreas foram inundadas, quantas famílias deslocadas e quantas tradições interrompidas em nome da expansão da matriz elétrica. Na avaliação dela, a região acumulou experiências suficientes para repensar esse caminho e buscar alternativas mais compatíveis com a biodiversidade e os modos de vida amazônicos.
Ela defende que a transição energética na região deve avançar na descarbonização, reduzindo progressivamente o uso de diesel nos sistemas isolados e ampliando fontes renováveis adaptadas às características locais, como a solar e os modelos híbridos. Segundo ela, cada território exige estudo específico, mapeamento e escolha da tecnologia mais adequada, considerando distância, logística e perfil produtivo das comunidades.
Valcléia Lima argumenta que o debate energético não pode ficar restrito às áreas isoladas. Nos centros urbanos, diz, é fundamental promover educação para o consumo consciente. “A gente precisa fazer muita, muita campanha de educação”, afirmou. Para ela, o uso racional da energia e a redução do consumo excessivo de eletrodomésticos também fazem parte da estratégia para diminuir impactos ambientais e evitar que a expansão da oferta ocorra à custa de novos danos ao território amazônico.
