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Política

É cedo para comemorar apoio à democracia no Brasil, diz cientista política

30 de junho de 2020 Política
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Amy Erica Smith é brasilianista (Foto: Amy Erica Smith/Divulgação)
Por Fábio Zanini, da Folhapress

SÃO PAULO – É cedo para celebrar o apoio de 75% dos brasileiros à democracia, recorde apontado pelo Datafolha em pesquisa divulgada no último fim de semana.

O convite a um certo ceticismo é da professora de ciência política Amy Erica Smith, 43, estudiosa do Brasil ligada à Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Ela compara as opiniões de entrevistados sobre democracia a um termostato, aparelho que regula a temperatura de um ambiente. Se as ameaças parecem reais, a visão favorável ao regime democrático tende a subir. Ou seja, o apoio esmagador apontado pela pesquisa tem um lado menos animador: a população enxerga risco real de uma guinada autoritária.

Smith se diz descrente de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mude suas opiniões sobre o tema, mesmo com a pressão de diversos movimentos e campanhas surgidos nas últimas semanas, incluindo uma da Folha de S. Paulo.

 “Na mente de Bolsonaro, um governo militar não é incompatível com a democracia. A ideia do que ele pensa sobre democracia não é mesma que a minha ou a sua”, afirma ela.

Estudiosa da influência da religião na política, a professora diz que Bolsonaro pode perder votos de segmentos religiosos por sua postura vista como de desprezo à vida no combate ao coronavírus.

Como a senhora vê o apoio recorde do brasileiro à democracia, apontado pelo Datafolha? 

Amy – É interessante, mas não necessariamente surpreendente. Estes números tendem a oscilar. Eu esperaria para ver se isso é confirmado em outras pesquisas antes de celebrarmos. Há estudos que sugerem que quando a democracia está em crise, ocorre o que acadêmicos chamam de resposta termostática. Se fica muito quente num recinto, o termostato liga o ar refrigerado.

No caso da democracia, há evidências que mostram que, se as coisas ficam ruins, o apoio a ela cresce. Isso é real em particular com pessoas que se opõem ao regime autoritário, mas ocorre mesmo com os que se beneficiam dele. Não estou dizendo que o Brasil viva hoje em um regime autoritário, apenas que quando a democracia é ameaçada em um país, as pessoas passam a apoiá-la bastante.

Um terço da população apoia Bolsonaro, mas a mensagem autoritária associada a ele é rejeitada amplamente. Como isso é possível? 

Amy – Aposto que se você perguntar a Bolsonaro, vai dizer que apoia a democracia. Ele chegou ao poder por uma eleição democrática. Por um lado, apoia coisas que são incompatíveis com a democracia, por outro beneficiou-se dela.

Uma margem tão grande de apoio à democracia o fará se distanciar de discursos autoritários? 

Amy – Temo que não, sinto dizer. Na mente de Bolsonaro, um governo militar não é incompatível com a democracia. Sei que isso soa estranho. A ideia do que ele pensa sobre democracia não é a mesma que a minha ou a sua.

Como a sra. vê as campanhas pró democracia que surgiram nas últimas semanas? Qual o efeito real que podem ter? 

Amy – O que essas campanhas podem fazer é organizar a oposição a Bolsonaro, chamar a atenção para a urgência da situação. Não acho que vão influenciar o que ele pensa sobre democracia. Elas podem energizar e dar foco à oposição em torno do objetivo comum de defender a democracia. Quando falo de oposição, claro, não estou falando apenas do PT, mas de todo mundo que se situa entre o centrão e a esquerda.

E isso pode se tornar uma frente ampla eleitoral até 2022? 

Amy – Será muito difícil sem o PT, que não parece estar interessado em uma frente ampla que não tenha sua liderança.

A sra. vê a possibilidade de surgir uma terceira via de centro que seja viável eleitoralmente, situada entre o PT e Bolsonaro? 

Amy – Centro é uma palavra complicada na política brasileira. O que é chamado de centro não é um centro ideológico, como no caso do centrão. É mais uma mistura de partidos que topam fazer coalizão com a direita ou a esquerda.

Há alguns nomes sendo mencionados, como Luciano Huck, Sergio Moro, ou João Doria… 

Amy – Não quero especular sobre possibilidades. Sou cética sobre todos eles. Acho possível que seja formada uma Terceira Via, mas a pergunta é, se houver uma divisão em três partes, não é tão óbvio que a Terceira Via possa ganhar do PT, por exemplo.

O que a sra. acha da análise de que Bolsonaro está se beneficiando de um certo lulismo de direita, ou seja, ampliando sua base entre os mais pobres em razão dos benefícios assistenciais concedidos durante a pandemia? 

Amy – É possível que isso aconteça. Mas sou cética de que esse programa de renda básica que está sendo implementado agora vai ser suficiente, porque não acho que será fiscalmente sustentável. Sei que os políticos querem que seja mantido, por razões óbvias, e se isso ocorrer, será uma forte base de apoio a Bolsonaro. Mas será altamente vulnerável. É o tipo de programa que políticos fiscalmente responsáveis vão considerar terminar. Não sei como será compatível com o teto de gastos, por exemplo, a menos que o teto seja eliminado.

Como estudiosa da relação entre religião e política no Brasil, a sra. ainda vê evangélicos e religiosos em geral como um segmento fundamental do apoio a Bolsonaro? 

Amy – Há um risco de ele perder apoio nesse segmento. O tema que atraiu evangélicos a Bolsonaro, acima de todos os outros, foi a chamada ideologia de gênero. O presidente continua sendo associado a essa retórica anti-LGBT, embora não tenha feito muita coisa na área. Bolsonaro seguirá sendo o candidato mais à direita, mas o maior risco para ele é que evangélicos se importam muito com esses temas, mas também com outros. Não são um bloco único de eleitores, são bastante fragmentados. Se avaliarem que Bolsonaro fracassou em outras áreas, vão levar isso em conta. Por um lado, serão atraídos para ele por esses temas de família, mas não será a única coisa que vai importar.

Que impacto o coronavírus terá? 

Amy – A crise pode retratar Bolsonaro como sendo contrário aos valores da vida. Pesquisas mostram que evangélicos apoiam as posições de Bolsonaro em temas LGBT, mas não tanto quanto à liberação de armas. Da mesma forma ocorre com o coronavírus. Um candidato aceitável para os evangélicos poderá atacar Bolsonaro em razão da maneira como ele lidou com a pandemia, por ter tido uma posição que despreza a vida. Isso o coloca sob risco com evangélicos e setores da Igreja Católica.

A sra. vê o mesmo risco para Trump? 

Amy – Não há frase de Trump que seja como o “e daí”de Bolsonaro. Trump disse algumas coisas inacreditáveis, mas não algo que faça as pessoas pensarem que ele não se importa. Ele negou a existência do problema, encorajou políticas contrárias ao que os especialistas em saúde recomendam, mas não disse algo tão flagrante quanto Bolsonaro.

Em fevereiro, em um artigo para a Folha, a sra. disse que os EUA estavam num processo de “abrasileiramento” de sua política, e comparou Bolsonaro a Bernie Sanders, que disputava a prévia do Partido Democrata. Ainda pensa assim? 

Amy – O que eu quis dizer é que os partidos estão ficando muito mais fracos e sem controle sobre quem escolhem para serem seus candidatos. Não vejo isso agora. Nos EUA, aconteceram duas coisas: Trump passou a controlar totalmente o Partido Republicano, ao contrário de Bolsonaro, que teve de deixar o PSL. E os democratas estavam indo na direção de um político que não era membro do partido e nem gostava dele, Bernie Sanders. Mas no fim o partido optou por um insider, o maior insider que poderiam escolher (Joe Biden).

RAIO-X

Amy Erica Smith, 43

​Professora de ciência política da Universidade de Iowa (EUA), é doutora em Ciência Política pela Universidade de Pittsburgh (EUA) e autora do livro “Religion and Brazilian Democracy: Mobilizing the People of God” (Cambridge University Press), além de diversos artigos sobre o Brasil

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Assuntos Amy Erika Smith, democracia, golpe militar
Cleber Oliveira 30 de junho de 2020
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