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Esporte

Drible é cada vez mais raro no futebol brasileiro, revela pesquisa

12 de novembro de 2017 Esporte
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Jogo foi equilibrado, mas Cruzeiro levou a melhor nos pênaltis (Foto: Cruzeiro/Divulgação)
Alisson, do Cruzeiro, em jogo contra o Flamengo: mais marcação e poucos dribles (Foto: Cruzeiro/Divulgação)

Do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – Cena semelhante à da final da Copa do Mundo de 1970, na qual Clodoaldo dribla quatro adversários italianos, está cada vez mais rara nos campos de futebol do Brasil. Segundo levantamento da empresa Footstats, os 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro tentam 3,8 dribles, em média, por jogo, sendo que apenas 2,6 com êxito (70% de acerto). O jogador que mais dá drible é o atacante santista Bruno Henrique, que teve sucesso em 30 oportunidades durante a competição. Se o garoto Mané Garrinha fizesse teste em alguma escolinha hoje, ele seria chamado de fominha e de desrespeitoso.

É necessário explicar que o conceito do drible, neste levantamento, não é apenas “pedalar”, “passar o pé em cima da bola”, “ganhar na corrida” ou “puxar a bola para dentro e bater no gol”. É preciso ganhar espaço e levar perigo para o rival.

O estudo mostra que o fundamento mais interessante do futebol, que derruba marcação e torce esquemas táticos, além de levantar a torcida, se tornou cada vez mais raro no futebol nacional. Em 2016, os números também eram baixos, mas melhores que os atuais. Os jogadores tentavam 4,2 dribles por jogo e acertavam 3,1 (72 2%).

“O estilo como os times atuam tira a vontade de a gente ver futebol. A média de dribles que os times têm, eu fazia em um ataque”, diz Edu, ex-ponta-esquerda do Santos, que jogou por anos ao lado de Pelé. Edu é apontado como um dos maiores dribladores de todos os tempos. “Acho que o problema vem da base. Os técnicos se preocupam com a parte física e se esquecem da técnica. Todos pedem para o garoto tocar logo a bola. Isso acaba com a criatividade”. Os poucos que driblam são taxados de abusados e logo marcados pelos zagueiros.

Zé Sérgio, ponta esquerda do São Paulo nos anos 70 e 80, concorda com Edu. “Futebol está muito estratégico. Joga-se em função do rival. Quando eu jogava, se não tentava o drible e tocava de lado, era logo vaiado. O torcedor esperava pelo inesperado”, diz o ex-jogador, que formou com Paulo Cesar, Renato “Pé Murcho” e Serginho Chulapa o ataque são-paulino bicampeão paulista de 1980 e 81. “E agora os caras jogam com chuteira boa, bola boa, gramado bom. Se eu jogasse hoje, ninguém ia me segurar”, brinca.

Zé Sérgio comandou por nove anos a base do São Paulo. Foi responsável pelo surgimento de Oscar, Lucas, Casemiro e Breno. “O torcedor hoje festeja quando o beque chuta a bola para lateral. Talvez goste do futebol que se joga. Eu não gosto”.

Roberto Rivellino, que aperfeiçoou o “drible elástico”, no qual parecia perder o controle da bola, mas conseguia retomar a jogada, destruindo a marcação, aponta para a falta de meias, de verdadeiros camisas 10, como mais um problema para a ausência dos dribles. “A seleção não tem um meia clássico. Um cara que pensa o jogo”, critica o “Patada Atômica, da Copa de 70. “O Brasileirão está em suas rodadas finais e não temos como escolher o craque do ano. Nem sei se tivemos revelação”.

Para o maior jogador da história de Corinthians e Fluminense, o momento do futebol brasileiro explica a falta de protagonistas na Europa. “Nem o Neymar era protagonista no Barcelona. Precisou ir para o PSG”.

Rivellino também culpa a imprensa. “Se o cara dá um chapéu ou um toque por debaixo das pernas, o lance é repetido dezenas de vezes e logo se pergunta se foi para humilhar o rival. Tem hora que o drible é necessário para se prosseguir na jogada”. Ainda segundo o Reizinho do Parque, apelido que ganhou pelos dez anos em que jogou pelo Corinthians, o momento “mecanizado” do futebol nacional pode ser exemplificado pelo que acontece com dois times paulistas. “O São Paulo estava brigando até agora para não cair e possui três jogadores diferentes: Cuevas, Pratto e Hernanes. Já o Corinthians, que liderou toda a disputa e deve ficar com o título, não possui um grande jogador no elenco”, comparou.

Emerson Leão, goleiro da seleção em quatro Copas e técnico do Santos campeão brasileiro de 2002, que revelou Robinho e Diego, opina que o “futebol atual é outro futebol”. “Acabaram com a liberdade do atleta de errar durante uma partida. Eu sempre cobrei criação dos meus jogadores na proximidade ou dentro da área. O futebol está chato de assistir. Íamos ao estádio para ver um espetáculo e hoje vemos um jogo monótono”, disse um dos maiores goleiros da história do Palmeiras. “O futebol usa muito computador, mas o computador não dribla, não faz gol. Por isso, apoio o Renato Gaúcho. Tem muito entendido no futebol. Cara que faz curso para tirar foto”.

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Assuntos Brasileirão, cbf, futebol
Cleber Oliveira 12 de novembro de 2017
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