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Dia a Dia

‘Diziam: abre a porta, está pegando fogo; mas não abriu’, diz assistente de banda na Kiss

9 de dezembro de 2021 Dia a Dia
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Luciano Bonilha Leão, réu pelas mortes na Kiss, confirmou ter comprado artefato pirotécnico (Foto: Juliano Verardi/Imprensa TJ-RS)
Por Fernanda Canofre, da Folhapress

PORTO ALEGRE – “Eu ouvia que diziam ‘abre a porta, abre a porta, está pegando fogo’. E não abriu a porta. Não abriu”, conta ​Luciano Bonilha Leão, rememorando a noite do incêndio na boate Kiss. Responsável por carregar água e instrumentos para a banda Gurizada Fandangueira, ele falou nesta quinta-feira (9) no julgamento pelas 242 mortes da tragédia de 27 de janeiro de 2013.

“Eu lembro que, quando eles diziam para abrir, eu enxergava aquele barulho, era muita quebra”, disse. Bonilha, porém, afirmou que preferia não especular sobre o motivo que levou a porta a ficar fechada.

“Quando a fumaça baixou, eu fui me agarrando em um, em outro, e me prendo num ferro, em frente ao bar. Eu notei, naquele momento, que iria me quebrar, sabe?”.

Ele contou que colocou a camisa no rosto e pediu a Deus que o tirasse de lá.

Bonilha é 1 dos 4 réus acusados por homicídio e tentativa de homicídio simples com dolo eventual, junto com outro integrante da banda, Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista), Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann (sócios-proprietários).

Ele foi o segundo réu a falar diante do júri. O primeiro foi Spohr, apontado em depoimentos como o responsável por tomar decisões na boate.

O júri pelas mortes na Kiss é o mais longo do Judiciário gaúcho. O processo foi desaforado de Santa Maria a Porto Alegre a pedido de defesas que questionaram a parcialidade de um julgamento na cidade cuja população foi afetada.

Bonilha lembrou diante dos jurados que foi o único dos réus que não pediu o desaforamento e que queria ser julgado na cidade onde ainda vive e trabalha.

Em seu depoimento, ele confirmou que comprou o artefato pirotécnico usado pela banda e apontado como provável gatilho do incêndio, ao entrar em contato com a espuma que ficava no teto do palco.

Bonilha disse também que ele acionou o artefato, que era colocado em uma munhequeira na mão do vocalista, Marcelo, também réu no processo.

Ele relatou que apertou o disparador, o artefato funcionou e a banda seguiu tocando por alguns minutos, até que ouviu alguém dizendo que estava pegando fogo. As chamas, no início, diz ele, eram azuis. Ele chegou a pegar água e tentar jogar em cima para apagar.

“Vi um rapaz pegar um extintor debaixo do bar e alcançar para o Marcelo. Eu estava do outro lado, eu lembro que ele pegou o extintor e não funcionou”, contou. Ele disse que se questionou se o vocalista sabia usar o instrumento, mas viu que o extintor não tinha lacre e parecia vazio.

Depois de sair do local, ele afirma ter ajudado a retirar outras pessoas. Sua defesa mostrou fotos em que ele aparece do lado de fora da boate, e ele retirou de um saco plástico a camiseta que estaria vestindo no dia.

“Foi instinto. Se não tem todo mundo se ajudando, a tragédia seria muito maior”, contou ele.

Bonilha disse ainda que fez shows com artefatos pirotécnicos na Kiss antes da tragédia e afirmou que comprou o artefato individualmente, sem caixa com as indicações para uso.

“Eu desconheço essa caixa, só apareceu caixa depois que aconteceu o sinistro”, respondeu ao juiz Orlando Faccini Neto.

Ele disse ainda que o pedido para a compra do artefato veio de Danilo, gaiteiro da banda, apontado como responsável pela gestão do grupo, que morreu na tragédia, e que ele nunca foi informado se o produto seria de uso interno ou não.

O ex-roadie se emocionou ao mencionar sua vida e tratamento psicológico que precisou depois da tragédia e falou sobre o sentimento dos familiares das vítimas.

“Sei que o coração dos pais não está entendo a minha dor, mas eu não tenho como entender a dor deles”, disse ele.

“Estão legítimos em lutar por justiça pelos filhos deles. Hoje eu tenho a consciência muito tranquila que não foi meu ato que tirou a vida desses jovens. Mesmo sabendo que eu sou inocente, sou uma vítima, se for para tirar a dor dos pais, estou pronto, me condene. Mas que não seja simplesmente uma injustiça o que está acontecendo comigo.”

Bonilha respondeu apenas às perguntas do juiz e de sua defesa. Além dele, outros dois réus devem ser ouvidos nesse nono dia de júri: Mauro Hoffmann e Marcelo de Jesus dos Santos.

Depois dos interrogatórios, começa a fase de debates entre acusação e defesa, com tempo estimado de nove horas de duração.

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Assuntos Banda, Boate Kiss, incêndio
Redação 9 de dezembro de 2021
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