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Variedades

Diário atribuído à esposa de Euclides da Cunha não foi escrito por ela, diz pesquisador

10 de julho de 2019 Variedades
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Euclides da Cunha é o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip (Foto: Reprodução)
Por Maurício Meireles, da Folhapress

SÃO PAULO – Euclides da Cunha resolveu ter seu dia de pistoleiro. Partiu para a casa onde sua mulher, Anna, tinha ido viver com o jovem cadete Dilermando de Assis. “Vim para matar ou morrer”, teria gritado. Meteu o pé na porta do quarto onde dormia o rival e saiu disparando em fúria.

Acertou alguns tiros no amante da mulher e um na coluna do irmão dele, Dinorah. Levou tantos outros –um perto do rim, um no pulso, um no braço e outro no tórax, todos do lado direito. O ano era 1909 e, como se sabe, Euclides morreu em decorrência dos ferimentos.

O assassinato do autor homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que começa agora, se tornou um dos mais rumorosos da literatura brasileira –Euclides já era, à época, o autor do best-seller “Os Sertões”.

Mais de cem anos depois, a Tragédia da Piedade, como o episódio ficou conhecido, não deixou de gerar interesse –vez ou outra, surge um novo elemento na trama rocambolesca. O mais ruidoso veio há cinco anos, quando Anna Sharp, neta da mulher de Euclides, revelou ter um diário escrito pela avó sobre o caso.

Na capa do caderno, está escrito “O caso do Homicídio de Euclides da Cunha por Dilermando de Assis – Exposição e Narrativa dos Fatos Feitas por Escrito, do Próprio Punho da Mulher da Vítima”. †††††

No documento, Saninha, como era conhecida, faria um retrato indecoroso do autor. Ela conta como se casou com ele aos 14 anos e levou a boneca favorita para a lua de mel. Relata desespero com o “ímpeto carnal” do marido –e os xingamentos de “vaca” vindos de Euclides, que também rasgava seus vestidos.

Saninha se culpava. Ao escrever, dizia “cumprir com um sagrado dever e dar desencargo à minha consciência e tranquilidade ao meu espírito, dizendo que, de nós três, Euclides, Dilermando e eu, três criminosos, o mais responsável sou eu”.

O problema é que a caligrafia no documento não é a de Anna de Assis, o que levanta dúvida sobre a autenticidade do diário. A descoberta é de Felipe Rissato, um pesquisador independente que tem acumulado uma série de descobertas sobre Euclides da Cunha e Machado de Assis nos últimos anos.

Rissato comparou a letra do diário com cartas conhecidas de Saninha –por exemplo, há uma de 1910 ao juiz de órfãos, guardada no acervo do Museu da Justiça, e uma publicada por sua filha Judith no livro “Anna de Assis – História de um Trágico Amor”.

“Como pesquisador, digo que o diário definitivamente não passou pelas mãos de Anna de Assis. Não foi ela quem escreveu, apesar de na capa dizer que foi escrito de próprio punho”, afirma Rissato. “Não posso dizer que não foi ela que ditou para alguém. Mas, tendo o indício de que não foi ela que escreveu, fica um pouco complicado acreditar.”

Vanessa Montes, professora da Universidade de São Paulo e coordenadora do Núcleo de Etimologia e História da Língua Portuguesa, experiente no estudo de caligrafias antigas, deu uma segunda opinião. Ela também diz que o diário não foi escrito pela mesma pessoa que escreveu as cartas.

Montes comparou a grafia de oito letras nos documentos, e elas diferem da escrita do diário. Ela destaca ainda que este foi redigido por alguém de boa formação, porque usava estilos distintos de caligrafia –para destacar citações, por exemplo.

Resta a hipótese de que o próprio Dilermando tivesse feito uma cópia do diário da mulher. Mas há um exemplar de “Os Sertões” anotado por ele –com elogios e críticas, mas sobretudo críticas, é claro– na coleção de Antonio Carlos Secchin, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras. E a caligrafia do diário tampouco se parece com a dele.

A terapeuta e escritora Anna Sharp, que trabalha em um livro inspirado no suposto diário da avó, diz que a letra é sim de Saninha. “É a mesma caligrafia. Foi ela que me ensinou a escrever”, afirma, acrescentando que o conteúdo do diário condiz com as histórias que ouvia de sua mãe.

“Minha avó me mandou isso num momento muito especial. Foi ela que mandou, porque eu pedi. Uma editora queria publicar meu livro de qualquer maneira. Estava na dúvida se continuava, porque minha irmã tinha dito ‘deixa os mortos descansarem’. Pedi que minha avó me mandasse um sinal, senão não ia continuar”, diz Sharp, que teria recebido o documento em 2014, uma semana depois do pedido –a avó morreu em 1951.

O suposto diário teria sido entregue a Sharp por um dos descendentes de Gregório Garcia Seabra Júnior, apontado por reportagens na ocasião como advogado de Dilermando –mas o defensor do cadete, na verdade, foi Evaristo de Moraes.

Sharp diz que Seabra Júnior foi assistente de Moraes na defesa. Jornais da época consultados por Felipe Rissato, no entanto, listam só dois assistentes –Álvaro da Silva Porto e Caetano de Lamare Garcia.

“Eu sei que vão botar o Euclides nas alturas, mas não faz mal, um dia ou outro a verdade aparece”, diz Anna Sharp.

A Tragédia da Piedade ainda teria seus epílogos. Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, tentaria vingar a morte do pai e acabaria morto por Dilermando também. Dinorah, irmão do cadete com a bala alojada na espinha, seguiria uma carreira de jogador no Botafogo. Mas o projétil foi se deslocando e o atleta perdeu os movimentos. Contraiu sífilis, morou na rua, enlouqueceu e tentou se matar três vezes antes de conseguir.

Em 1951, numa entrevista para a qual posava sem camisa, mostrando as balas ainda cravadas em seu corpo, Dilermando diria: “Euclides matou-se pelas minhas mãos”.

Superstição e política literária

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Assuntos Euclides da Cunha, Flip
Redação 10 de julho de 2019
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