A política logospirata gera grandes riscos e insegurança às sociedades abertas ou de perspectivas democráticas. A questão desse tempo de instabilidades se impõe: estariam as sociedades abertas sob o risco de serem sitiadas em face da política pós-moderna ou da pós-verdade, das formas de corrupção, da globalização do terror, do crescente número de presídios, da ação sistêmica de organizações e facções criminosas?
Em meados do século passado, sociólogos discutiam a hipótese de sociedades abertas converterem-se em sociedades sitiadas, em razão de permanentes ameaças visíveis e invisíveis decorrentes da ação ilícita e desviante, organizada ou não. Dentre os principais fatores desse cenário, indicava-se o avanço da criminalidade, da corrupção sistêmica e do número de presídios. Só a política logospirata da pós-verdade é de certo modo recente. Um contexto que atualmente, com raras exceções, é a regra.
No caso da realidade brasileira, o “sítio” marca-se pela continua produção de esquemas “oficiais” de corrupção de várias ordens, pela crescente ação de organizações milicianas e facções criminosas, pelo irrefreável aumento de unidades prisionais, pela radicalização do tratamento da questão social com medidas policialescas e de repressão armada, inclusive a ocupação de ruas e morros pelo exército.
Afirma-se, por vezes, que no Brasil a corrupção é uma epidemia cultural. Mas tenta-se impor uma compreensão de corrupção com um fenômeno cultural estático, imóvel, que não admite mudança nem transformação cultural. Mais do que compreender, os adeptos da corrupção com algo endêmico do Brasil, acabam por justificar essa ordem de coisas desviantes, presente em toda parte na máquina estatal, expressão do patrimonialismo herdado.
Desde os grandes esquemas de desvios de recursos públicos, cooptação de votos nos parlamentos e tráfico de influência junto a gestores públicos para servir a interesses privados e corporativos até ao funcionário público que procura dar golpes ou aplicar fraudes, burlando a função pública para a qual foi contratado, percebe-se o enraizamento da cultura de corrupção que sitia as diferentes sociedades. Uma logospirataria política generalizada.
No Brasil, a sociedade ainda está sujeitada à insaciável opressão tributária e cujo retorno, em termos de qualidade de serviços públicos, é praticamente ineficaz. Isso associado a políticas paternalistas fomenta um processo cultural de reforço à dinâmica da corrupção institucionalizada. Desse modo, a corrupção sitia, do topo à base, em distintos graus, as esferas e poderes estatais, os diversos estratos da sociedade brasileira.
Há outros indicativos ainda desse sítio à sociedade aberta, sobretudo na área de segurança pública: a robustez da economia das organizações e facções criminosas, a explosão da população carcerária, a proliferação do número de presídios, a ampliação de execuções resultantes da guerra pelo controle do tráfico de drogas em distintos territórios e também de óbitos decorrentes de confronto com a polícia, execuções à luz do dia, os esquemas e delitos protagonizados pelas milícias, o aumento geral da criminalidade, dentre outros fatores que produzem a sociedade sitiada.
Em contrapartida, tudo o que a estrutura política tem ofertado, a cada dois anos, são eleições. Um viciado ciclo de disputas pelo poder que nunca se converte em benefício da população nem em favor da qualidade de vida dos que mais necessitam. Processos eleitorais no qual todos se viciam, reinventando esquemas e negociatas eleitorais que repercutem no exercício de mandatos. Essa dinâmica produz regimes abertos de qualidade inferior, no qual a democracia está limitada e permanentemente sitiada. Reduzir a democracia apenas ao “poder-dever” de votar e ser votado periodicamente não repercute necessariamente na qualidade de vida das pessoas em geral, principalmente quando as eleições servem apenas para legitimar velhas práticas viciadas e atuar como entorpecentes ideológicos.
Esse processo levou a sociedade brasileira à exaustão ao ponto de só restarem disputas entre os extremos. Um péssimo indicador para as perspectivas da sociedade aberta. A falta de retorno desse sistema, e de crença na eficácia dos aparelhos estatais, tem levado à caótica (in)justiça com as próprias mãos, a bárbaros linchamentos públicos, à execução de inocentes, ao entorpecimento político e, por vezes, ao clamor pelo periclitante retorno de regimes fechados e de força, num atitude de claro desespero institucional, político e social.
Nesse cenário de sítio, não é difícil entender o descrédito e a desarticulação dos movimentos e manifestações populares. O Estado brasileiro simplesmente ainda não respondeu, em termos de ações e reformas mais efetivas na área social e política, a junho/2013. E, dessa vez, a sociedade brasileira parece estar apática e desmobilizada para lidar com as severas e, por vezes, perversas medidas que vem sendo adotadas pelo atual governo.
Na área da segurança pública, a pressão social é cada vez mais insuportável. Aos poucos, por mais que se prenda muito de forma constante e tantos outros sejam mortos em conflitos entre facções ou com a polícia, fica claro que estamos mergulhados numa cultura criminógena, violenta, que amplia a delinquência e reduz as perspectivas da sociedade aberta.É imprescindível, diante desse quadro, que os entes estatais se repensem, reformem e despertem políticas e ações, nas diversas áreas de atuação, com vistas a combater o sítio à sociedade aberta. É fundamental, enfim, reencontrar o caminho, pactuado socialmente, em favor da cultura de licitude e da democracia, capaz de promover a dignidade humana.
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