
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Deputados estaduais reagiram à decisão do Avante de abrir processo de expulsão contra o deputado Wanderley Monteiro por quebra de fidelidade partidária, após ele assinar o requerimento de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra a Prefeitura de Manaus. Na sessão da Assembleia Legislativa desta terça-feira (12), Péricles do Nascimento (PL), Roberto Cidade (União Brasil), Rozenha (PMB) e João Luiz (Republicanos) classificaram a medida como “falta de respeito”, “violência política”, “ataque” e “retaliação”. Eles também citaram o caso do deputado federal Saullo Vianna (União Brasil), que fez diversas críticas ao governador e nunca foi expulso do partido.
“Eu repudio essa tentativa de calar um parlamentar estadual ameaçando com expulsão e perda do mandato. Isso jamais deveria acontecer. Esta Casa precisa ser respeitada”, disse Péricles. “O ataque a vossa excelência não foi somente ao parlamentar Wanderley, mas a toda esta Casa. Não podemos permitir que atitudes como essa ameacem qualquer parlamentar estadual em sua livre convicção”, completou.
Péricles é o autor do requerimento de CPI para investigar como a prefeitura aplicou cerca de R$ 187 milhões que o Governo do Amazonas transferiu, por meio de um convênio com o município, para asfaltar ruas da capital amazonense. O documento recebeu dez assinaturas e foi protocolado na semana passada. Wanderley foi um dos parlamentares que apoiaram a investigação.
Nesta segunda-feira (11), em reunião na sede do partido, em Manaus, as diretorias municipal e estadual do Avante decidiram abrir um procedimento para expulsar Monteiro por quebra de fidelidade partidária. A ação foi divulgada pelo próprio partido nas redes sociais.
A sigla justificou que a decisão foi deliberada, de forma unânime, pela executiva estadual e municipal, com base no estatuto do Avante e na legislação eleitoral vigente, que garante a preservação da coerência política e do compromisso com a base eleitoral.
Péricles sustentou que as convicções do deputado prevalecem sobre qualquer orientação partidária e que Wanderley assinou o requerimento com base em sua própria convicção. Para o deputado, a decisão do Avante não pode resultar na perda do mandato de Wanderley.
“Ele assinou a CPI dentro de sua convicção de que os recursos do Estado devem ser fiscalizados. E vem o prefeito ameaçar com expulsão e perda do mandato. Primeiro, não cabe expulsão. Mas, se assim o partido entender, ele ficará livre para escolher outra sigla, porque perder mandato, não. Temos muita jurisprudência em relação a isso, tanto do STF quanto do STJ”, disse Péricles.
O presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, Roberto Cidade, criticou o prefeito David Almeida por adotar a medida, que classificou como “falta de respeito”.
“É lamentável ver que uma pessoa que foi deputado estadual, que entende do regimento desta Casa, que fez Direito, deixe de estar administrando a maior cidade do Norte do país para fazer uma reunião partidária de emergência para expulsar um deputado estadual que assinou uma CPI”, disse Cidade.
“Quer dizer que ninguém aqui nesta Casa pode assinar uma CPI que ninguém sabe se vai ser contra o prefeito, porque ela ainda não foi aberta? Ele está usando o golpe antes de acontecer alguma coisa”, afirmou.
“É impressionante a falta de respeito de quem já foi deputado. É impressionante passar recibo por uma situação tão pequena, porque ele reuniu toda a cúpula do Avante para expulsar um deputado estadual que está exercendo seu papel, dado pelo povo, assinando uma CPI que, naquele momento, ele entendeu que deveria ser aberta”, completou Cidade.
O deputado do União Brasil também lembrou o caso do deputado federal licenciado Saullo Vianna, filiado ao mesmo partido do governador Wilson Lima, que já fez diversas críticas ao chefe do Executivo estadual.
“Imaginem se o governador Wilson Lima fosse perder tempo reunindo todo mundo do União Brasil para expulsar o Saullo Vianna, que já deu diversas entrevistas, que entrou nesta Casa junto com a gente, que era do partido e que foi o candidato a deputado federal mais apoiado pelo governador, para expulsá-lo?”, disse Cidade.
O deputado Rozenha também defendeu a autonomia parlamentar e fez duras críticas à decisão do Avante. Ele afirmou que o PMB está de portas abertas para receber Wanderley.
“Esse tipo de violência política, de pensamento retrógrado, absolutista, essa mania de querer tirar das pessoas o seu direito líquido e certo, o direito de um deputado divergir, debater, buscar soluções e votar conforme a sua consciência, isso é apartidário”, afirmou.
“Diferente da Câmara dos Deputados, aqui na Assembleia o deputado tem seu voto uno. Não há votação em bloco partidário. As lideranças não votam pela bancada inteira. É salutar a divergência”, completou.
“Pedir o afastamento, cassação ou expulsão de um deputado é medida exagerada, que não é democrática e não condiz com a postura de um prefeito ou de um ex-presidente desta Casa”, disse. “Política não pode ser lugar de gente com pensamento pequeno, que persegue, tolhe, ameaça… Divergir, sim, mas sempre mantendo o respeito”, acrescentou Rozenha.
O deputado João Luiz criticou o que chamou de “retaliações”. “Não são retaliações como essas que vão ajudar a política em absolutamente nada. Estamos aqui ombreados com vossa excelência e deixamos as portas do Republicanos abertas para recebê-lo”, disse.
O deputado Wanderley Monteiro fez um discurso curto, com referência às eleições de 2026. “Eu só tenho que agradecer o apoio de vocês e afirmar meu compromisso com a população. (…) Eu me sinto firme e forte com esse meu posicionamento. Minha consciência está limpa, meu coração está limpo. Deus vai mostrar, em 2026, a maior resposta. Tamo junto!”, afirmou Monteiro.
