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Dia a Dia

Depressão severa pode ser tratada com marcapasso, aponta estudo

24 de dezembro de 2021 Dia a Dia
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Estudo da Associação Amazonense de Psiquiatria mostra que 97% dos casos de suicídio têm diagnóstico de transtorno psiquiátrico (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
A depressão é uma das doenças que estão sendo investigadas com o uso da ferramenta, assim como o Alzheimer (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Por Samuel Fernandes, da Folhapress

SÃO PAULO – O marcapasso, equipamento médico utilizado há décadas principalmente para problemas cardíacos, pode ter mais uma nova função -o tratamento contra a depressão. Um novo estudo, realizado parcialmente no Brasil, avaliou os efeitos que a ferramenta pode ter contra a doença psiquiátrica e encontrou como resultado uma melhora bastante significativa nos pacientes.

Normalmente associado à marcação do ritmo cardíaco, o marcapasso teve muitas evoluções desde a década de 1960. Com ele, é possível tratar enfermidades cerebrais porque o cérebro “recebe comandos elétricos muito bem e a gente consegue controlar sintomas de várias doenças”, afirma Antônio De Salles, neurocirurgião do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or, e coordenador da pesquisa.

O médico afirma que, atualmente, o equipamento já é conhecido para o tratamento da epilepsia, do Parkinson, de tremores e dores crônicas, por exemplo. A depressão é uma das doenças que estão sendo investigadas com o uso da ferramenta, assim como o alzheimer.

O instrumento é responsável por emitir pulsos elétricos que atuam nos neurônios, que são as células cerebrais. Esses pulsos podem ser manipulados em diferentes fatores a depender da finalidade que se quer atingir, como frequência, intensidade e tamanho. É a partir desses pulsos que é possível manipular as funções cerebrais para tratar algumas doenças.

Por exemplo, caso um paciente tenha um tremor, é possível identificar os neurônios cerebrais que têm relação com o controle muscular. A partir daí, pulsos elétricos podem ser transmitidos durante uma cirurgia para observar se o tremor cessa. Caso isso aconteça, “nós sabemos que, se mantivermos esses pulsos elétricos através de um marcapasso implantado no paciente, ele não terá mais o tremor”, explica Salles.

Esse modelo, baseado na manipulação das funções cerebrais, é parecido com o que acontece com as drogas, mas o marcapasso tem a vantagem de não gerar efeitos colaterais nos pacientes.

“A gente entra com essas [drogas] de maneira que elas manipulam a parte química do cérebro. O problema das medicações é que elas entram no corpo todo, e aí temos efeitos colaterais relacionados a várias medicações”.

Como o marcapasso é ligado a áreas específicas do cérebro, ele “atua somente ali e [naquelas] redes elétricas, então não [atinge] outras partes do corpo”.

Com a pesquisa, a ideia de Salles era provar que, por meio do nervo oftálmico que fica embaixo da sobrancelha, seria possível levar “impulsos elétricos ao cérebro e esses impulsos [manipulariam] a química relacionada à depressão”. Esses impulsos, no caso, poderiam ser transmitidos por um marcapasso.

Para provar esse conceito, o neurocirurgião realizou a investigação que foi iniciada há cerca de cinco anos e contou com a participação de 20 pacientes diagnosticados com a doença. Esses participantes foram divididos igualmente em dois grupos -um que realmente teve o tratamento (experimental) e o outro que era o controle.

Com o estímulo constante que o marcapasso ocasiona no nervo oftálmico, Salles afirma que foi possível ver uma melhora significativa para o grupo experimental.

“A gente [acompanhou os pacientes] por muito tempo para ter certeza [da melhora]”, afirma o neurocirurgião, indicando ainda que a maioria dos participantes do grupo experimental conseguiu fazer ações que antes não eram possíveis, como sair de casa, trabalhar e ter relações amorosas.

Uma dessas pacientes foi a publicitária Márcia Castrillo. Ela foi diagnosticada com depressão severa em 2007. “Parecia que minha vida tinha acabado. Eu não tinha força nem para ir trabalhar, tinha muita enxaqueca e dores”, relata.

Castrillo conta que procurou diversos médicos e tratamentos “para tentar melhorar, porque era muita tristeza e falta de ânimo”. No total, ela se tratou com sete antidepressivos, além de fazer acompanhamento psicológico. Mesmo assim, os anos foram passando e só havia algumas melhoras pontuais, então sua sensação era a de que o tratamento não estava funcionando.

Em 2014, a publicitária descobriu a pesquisa coordenada por Salles e se inscreveu. Ela passou pela triagem para o estudo e foi aprovada. Em janeiro de 2015, a cirurgia para o implante do marcapasso foi feita.

“Eu ia toda semana ao [hospital] para acompanhamento depois da cirurgia e tinha um questionário enorme para responder e eu respondia o pior quadro possível […], mas conforme o tempo foi passando, eu percebia que as respostas iam melhorando. Em um ano, já estava respondendo tudo no melhor cenário possível”, afirma.

Além de melhorar o quadro depressivo, Castrillo também conta que outros problemas advindos da doença foram desaparecendo, como as enxaquecas que ela tinha constantemente.

A melhora completa veio depois de aproximadamente dois anos da cirurgia, que foi quando ela suspendeu o uso dos antidepressivos e também parou de fazer terapia.

Mesmo que haja sinais positivos no uso de marcapasso para tratar essa doença, o próprio Salles reitera que ainda é necessário outros estudos.

Atualmente, o neurocirurgião já planeja uma nova pesquisa com maior número de pacientes –segundo ele, a ideia dessa segunda investigação é de ter 200 participantes separados entre grupo experimental e controle para ter resultados ainda mais concisos sobre o marcapasso.

“É um tratamento que nós mostramos que funciona, [mas] a gente não recomenda ainda para todos indiscriminadamente porque [foi só] uma pesquisa”, afirma.

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Assuntos depressão, estudo, pacientes
Redação 24 de dezembro de 2021
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