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Variedades

‘Depois do Universo’ romantiza espera por transplante

27 de outubro de 2022 Variedades
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Henrique Zaga e Giulia Be em cena do filme “Depois do Universo” Nat (Foto: Odenbreit/Netflix)
Por Vitor Moreno, da Folhapress

SÃO PAULO – Há uma subdivisão não oficial se consolidando entre os filmes que contam histórias de amor: o romance de hospital. É aquele tipo de filme em que a mocinha, o mocinho ou ambos têm uma doença que acaba atrapalhando a relação, muitas vezes com um final trágico, mas ainda assim edificante.

Pode-se dizer que “A Culpa É das Estrelas” (2014) é o maior exemplo do gênero, mas o Brasil ganha um representante de peso. Trata-se de “Depois do Universo”, que estará disponível na Netflix a partir desta quinta-feira (27).

“Eu adoro ‘A Culpa É das Estrelas’, acho um filmaço”, admite o diretor Diego Freitas em bate-papo com a Folha de S.Paulo. “Sou um cara muito romântico. Comecei fazendo filme de terror, mas depois descobri o amor, descobri que a gente pode tratar a vida de um jeito mais leve. E uma grande história de amor sempre me impactou”.

Na trama, a pianista Nina (Giulia Be) tem lúpus, doença autoimune em que o sistema imunológico ataca os tecidos e órgãos da própria pessoa. As complicações da doença fazem com que ela precise fazer hemodiálise até conseguir um doador compatível de rim. Nas idas e vindas ao hospital, ela se apaixona pelo jovem residente Gabriel (Henrique Zaga).

O diretor confessa que ficará feliz se as pessoas assistirem ao filme com um lencinho para enxugar as lágrimas. “Se a história emocionar, é porque acessou as pessoas em algum lugar”, avalia. “O desejo do diretor é sempre que o público se conecte com o filme”.

Porém, ele diz acreditar que os espectadores não estarão pensando em doença ou morte na maior parte do tempo. “Não é um filme triste nem trágico”, defende. “Acho que, no final, a gente pode ter um novo olhar sobre a vida e refletir sobre esses anjos que aparecem quando a gente acha que vai dar tudo errado”.

Freitas, que também assina o roteiro ao lado de Ana Reber, conta que teve a ideia por volta de 2020, quando boa parte do mundo estava trancado dentro de casa por causa da pandemia.

“Comecei a refletir bastante sobre essa coisa da morte próxima e sobre o que é estar vivo”, lembra. “E cruzei com várias pessoas, amigos próximos e familiares, que viveram questões parecidas do filme”.

Ele revela que a mãe, Durvalina, estava na fila do transplante durante todo o período de produção do filme, acometida por um câncer de fígado. “Ela não conseguiu chegar aqui para ver o filme pronto, mas eu vivi isso de perto, na pele”, lamenta. “Eu saía da filmagem e ia no hospital ficar com a minha mãe”.

Com a trama, ele viu a oportunidade de não só fazer um filme que pudesse fazer sucesso com o público, mas ajudar quem passa por esses problemas. “A hemodiálise ela é cercada de preconceitos, as pessoas acham que você está morto, mas é justamente o contrário: a hemodiálise é uma ferramenta que vai te manter vivo”.

O mesmo ocorre com os portadores de lúpus. “Apesar de ser uma doença que várias pessoas tem –não é uma doença rara–, as pessoas não sabem o que é, acham que pode ser contagioso”, conta.

Para viver a protagonista, o diretor diz que testou “várias atrizes ótimas”. A profissional precisaria saber tocar piano, assim como a personagem, além de ter musicalidade e encarar com leveza a carga dramática da personagem. A escolhida acabou sendo a cantora Giulia Be, que faz sua estreia no mundo da interpretação.

Freitas diz ter conhecimento das críticas a não-atores em produções nacionais, como é o caso de Jade Picon em “Travessia” (Globo), mas que Giulia já tinha vontade de se lançar na atuação e fez um teste excepcional. “Eu já trabalhei com vários atores não profissionais e é muito importante abrir para o ser humano a arte de atuar”, minimiza Freitas. “Ela não é exclusiva de uma pessoa ou de outra, senão ‘Cidade de Deus’ não teria sido feito”.

Animada com a experiência, a cantora diz que é algo que ela pretende continuar exercitando. “Tenho um amor e respeito incondicional pela arte em todas as suas formas, acredito ser uma das ferramentas de cura mais potentes que existe”, diz ela.

“A oportunidade de viver a história da Nina neste filme foi um passo fundamental para entender como seguir traçando a minha trajetória da maneira mais autêntica possível daqui pra frente”, avalia. “Continuarei me desafiando a alçar novos voos e desafios, seja através da música, da escrita ou nas telas –quero que as pessoas conheçam a minha essência”.

Aliás, apesar de ter a música como um fator de aproximação, ela afirma ser bem diferente da personagem. No começo do filme, Nina é mostrada como uma pessoa pessimista, sendo definida por Gabriel como “copinho meio vazio”.

“Eu tenho muitas semelhanças com a Nina, mas, quando me conhecem, logo percebem que essa parte da personalidade não é uma delas”, diz Giulia. “Eu me identifico mais como uma pessoa que vê, ou pelo menos tenta ver, o copo sempre meio cheio –procuro me manter o mais otimista possível perante as situações difíceis. Faço meditação todo dia, exercícios que me ajudam a cultivar a gratidão e a leveza. Cresci ouvindo isso dos meus pais e tento me espelhar nessa positividade”.

Por sua vez, Henrique Zaga, cujo personagem é o “copinho meio cheio” da relação, diz ver isso como um fator de aproximação entre os dois. “Certamente tenho essa semelhança com o Gabriel, mas ele ainda consegue ir além”, compara.

“Ele ajuda pacientes terminais a curtirem o tempo restante que ainda tem, ele vive intensamente com escaladas e passeios de bike pela cidade. Eu acho que o Gabriel chega a ser um pouco mais radical que eu. Ele muda muito com a Nina, acho que um pega um pouco das cores, da energia do outro, e é isso que faz a nossa história funcionar tão bem”.

Conhecido por papéis em séries americanas como “Teen Wolf” e “13 Reasons Why”, além do filme “Novos Mutantes” (2020), esta é a primeira vez que o brasileiro está atuando em sua língua materna. Ele chegou à produção a convite do diretor, que sondou o interesse do morador de Los Angeles em fazer sua estreia em produções brasileiras.

“A grande diferença é poder trabalhar com uma equipe de casa, que tem um jeito mais caloroso, mais parecido com o meu em termos de personalidade”, conta. “Eu já gravei no Canadá, nos EUA e no Brasil. O mais gratificante para mim foi poder fazer cenas em português, e ter essa troca no meu idioma materno, o idioma que eu cresci falando. Em termos de produção, cada projeto é um bicho diferente, até mesmo dentro do mesmo país”.

Antes conhecido como Henry Zaga, ele até está estreando o novo nome profissional nos créditos da produção. “Eu voltei ao meu nome por fazer mais sentido para mim, de forma pessoal”, comenta. “Sempre fui o Henrique para todos meus amigos e familiares”.

“Eu tive uma certa insegurança, algo mais do que normal quando se é jovem e começa-se uma carreira tão difícil de dar certo, fora do meu país de origem”, lembra.

“Adotei o nome de Henry por achar que cabia dentro do meu nome, e me dar um certo passe de entrada no mercado americano. Mal eu sabia que aquilo não era verdade… quanto mais autêntico você é, mais ferramentas e lados interessantes da sua personalidade você consegue usar para construir um personagem. Por isso, voltar a ser quem nunca deixei de ser foi tão importante para mim”.

A química dos atores deve encantar jovens adultos no Brasil e chegará a outros países onde a Netflix está presente, mas será que poderia virar franquia, como ocorreu com romances como “A Barraca do Beijo” e “Para Todos Os Garotos Que Já Amei”, entre outros? “A gente não falou ainda sobre uma possível continuação, mas talvez eu tenha ideias”, despista o diretor.

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Assuntos Depois do Universo, Netflix, transplante
Murilo Rodrigues 27 de outubro de 2022
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