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Variedades

‘Depois da Chuva’ aborda a fase pouco lembrada de transição pós-ditadura

14 de janeiro de 2015 Variedades
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É no quadro do epílogo do autoritarismo, e com personagens da classe média baiana e branca, que a dupla de cineastas compõe a sua narrativa. Ela se dá pelo ponto de vista adolescente, em especial o do garoto Caio (Pedro Maia, premiado no Festival de Brasília de 2013) (Foto: Divulgação)
É no quadro do epílogo do autoritarismo, e com personagens da classe média baiana e branca, que a dupla de cineastas compõe a sua narrativa. Ela se dá pelo ponto de vista adolescente, em especial o do garoto Caio (Pedro Maia, premiado no Festival de Brasília de 2013) (Foto: Divulgação)

SÃO PAULO – Depois da Chuva, de Claudio Marques e Marília Hughes, debruça-se sobre um período importante, porém pouco abordado pelo cinema brasileiro. De modo geral, os filmes políticos nacionais centram atenção na fase mais fechada da ditadura, e pelo lado da resistência. Compreende-se. O aspecto épico (ainda que de “causa perdida”) da luta armada parece mais atraente. Porém, o casal de cineastas prefere girar o foco e ambientar sua ação na fase final da ditadura civil-militar. Ou seja, em plena campanha pelas Diretas-Já, a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral e a redemocratização, que colocou ponto final no período ditatorial (1964-1985).

É no quadro desse epílogo do autoritarismo, e com personagens da classe média baiana e branca, que a dupla de cineastas compõe a sua narrativa. Ela se dá pelo ponto de vista adolescente, em especial o do garoto Caio (Pedro Maia, premiado no Festival de Brasília de 2013). Ele é filho de pais separados e tem ideias alinhadas à esquerda. Mais para o lado anárquico, a bem dizer, como convém a um jovem, ou como convinha a um moço daquele tempo.

Há, do lado de fora, a agitação política daquela fase de transição e, do lado de dentro do colégio, em reação especular, a primeira eleição livre para o grêmio estudantil. A ideia de fundo nem é tão original assim, porque a escola funciona como microcosmo da sociedade brasileira em seu todo. Tanto assim que, para vencer a contenda na escola, será preciso selar uma aliança com a diretoria. Da mesma forma – escusado dizer – que na sociedade brasileira dos anos 1980 foi preciso engolir a derrota da emenda Dante de Oliveira, firmar o pacto com os militares, postergar o desejo do voto direto e ir ao Colégio Eleitoral, no Congresso, para eleger o primeiro civil para a presidência, desde João Goulart.

O resto é História. Ou melhor, tragédia, pois, como se sabe, Tancredo adoeceu e morreu sem tomar posse. José Sarney, o vice, virou o presidente civil a realizar a travessia democrática, para desalento de muita gente. Entre eles, Claudio Marques, muito jovem na ocasião, mas não a ponto de esquecer a sensação dúbia que vinha com o fim do regime militar. De liberdade, por um lado, e de frustração, por ver o velho oligarca assumir o poder civil.

Nesse contexto, Depois da Chuva se beneficia de um frescor cinematográfico perceptível, tanto na articulação da narrativa quanto no tônus de interpretação do jovem elenco.

Não por acaso, quando se pergunta pelas influências dos cineastas, eles citam várias, mas, em especial, a do francês Olivier Assayas.

Falam em filmes como Água Fria, de Assayas, e Amores Constantes, de Philippe Garrel. O ambiente parece esse mesmo. Amores jovens, um ar 68, a segurança e a determinação da juventude, a coragem meio irresponsável e a irreverência, qualidades que em geral se perdem com o tempo. Ou mudam e se tornam outra coisa, como o pensamento político estratégico, com pé na realidade e nos limites. Talvez até mais eficaz, mas sem a mesma graça juvenil, irreverente, como na cena que alterna imagens documentais de um discurso de Tancredo e imagens dos garotos fumando um baseado. Esse espírito, o filme capta. E já é muito. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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Assuntos cinema brasileiro, Ditadura
Valmir Lima 14 de janeiro de 2015
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