
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS — O delegado de Itapiranga (a 227 quilômetros de Manaus), Aldiney Nogueira, deu detalhes neste sábado (18) sobre a morte do menino Raelyson da Silva, de 6 anos, ferido com uma faca nas costas. O principal suspeito é o próprio pai da criança, um homem de 24 anos, que foi preso. Ele provocou os ferimentos no filho quando “repreendia” a criança por uma suposta desobediência.
O suspeito alegou ter se esquecido que havia duas facas que usou em uma pescaria dentro de uma mochila, que arremessou na vítima, perfurando a bolsa e causando o ferimento. O pai primeiro disse à polícia que o filho caiu sobre uma faca, mas depois mudou a versão.
O delegado explicou o que teria motivado a “punição”, segundo o relato do homem.
“Sobre a suposta desobediência, é que ele teria comprado uma carne e teria deixado o filho responsável por ficar vigiando essa sacola com essa compra; quando ele foi olhar, o filho não estava no lugar onde ele tinha pedido para ele olhar, e que também não estava mais a sacola. E aí, chegando, o filho teria voltado para casa e alguém teria levado essa sacola com a carne; chegando em casa, ele irritado foi bater na criança com a mochila.”
Segundo Aldiney Nogueira, o homem foi preso por homicídio qualificado, porém, o inquérito ainda vai apurar se o crime foi intencional ou se houve, de fato, um acidente durante a atitude do suspeito.
“Por hora, ele foi autuado, com os elementos que a gente tem, por homicídio qualificado, um homicídio doloso. Mas vai ser esclarecido no curso do inquérito policial se foi um homicídio culposo, como ele alega — que havia esquecido essas facas que usou na pescaria dentro da mochila, e quando bateu na criança com a mochila, uma única perfuração acabou causando o óbito da criança. Uma dessas facas perfurou a região lombar da criança e veio a causar o seu óbito posteriormente. O autor alegou que foi disciplinar o seu filho, foi castigar, e utilizando a mochila foi bater nas costas da criança”, explicou.
O delegado também citou a possibilidade de o crime ser enquadrado como maus-tratos com resultado morte, que prevê pena de 4 a 12 anos de prisão.
A Polícia Civil foi até o local do crime, na casa do irmão do suspeito, onde havia câmeras de segurança.
“Mas pelo que apuramos até agora, tendo sido encontrada uma mochila com uma perfuração, as imagens das câmeras que havia na casa do irmão do acusado não permitiram ver o momento exato do golpe.”, concluiu Nogueira.
“Através dessas imagens, nós pudemos ver que estava presente somente ele e o seu filho no momento em que há esse golpe por arma branca”, contou o delegado. Porém, a vegetação no local impediu que as câmeras registrassem o instante exato do ferimento — não é possível ver, pelas imagens, se houve uma facada ou se o pai realmente bateu apenas com a mochila”, acrescentou.
A equipe de investigação localizou a mochila usada pelo suspeito e constatou que ela tem uma perfuração, o que pode reforçar a versão de que o crime não foi intencional.
“De fato, tem uma perfuração nela, pode indicar que esse homicídio, na verdade, se deu de forma culposa, de forma não intencional. Mas isso vai ter que ser esclarecido no curso do inquérito policial”, ressaltou o delegado.

O delegado contou como a polícia foi acionada.
“Nossa equipe foi avisada pela Polícia Militar que uma criança de 6 anos tinha dado entrada no hospital com ferimento por arma branca, que o pai dessa criança tinha chegado com ela para ser socorrida e que ele mostrava um desespero muito grande, pedindo que salvasse seu filho.”
Segundo Nogueira, o pai estava “muito alterado psicologicamente” e, na ocasião, disse que o filho havia caído sobre uma faca. Como ele não conseguia se acalmar, foi pedido que deixasse a unidade de saúde — e ele retornou para casa.
Diante da versão do acidente, que o delegado considerou pouco convincente, as equipes foram enviadas para levá-lo à delegacia.
“Recebendo essa informação, dessa versão de que teria sido esse acidente, que era um pouco crível no nosso ver, eu determinei que as equipes fossem conduzir ele numa detenção para averiguação”, disse.
O delegado esclareceu ainda que o suspeito não constava como pai no registro de nascimento da criança. Ele não possuía documentação pessoal e, por isso, foi impedido de registrar os filhos.
O menino foi levado ao hospital do município, mas não resistiu.
O Centro Educacional Tereza Santos Marques, onde Raelyson estudava, divulgou uma nota de pesar lamentando a morte do aluno.
“A perda de uma criança é uma dor que dilacera toda a comunidade escolar. Raelyson era uma presença cheia de luz, alegria e sonhos”, diz o texto da instituição, que também expressou solidariedade à família e aos colegas de turma do menino.
