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Dia a Dia

Crianças venezuelanas dormem com fome na pandemia, diz estudo

18 de junho de 2020 Dia a Dia
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Um terço das crianças e adolescentes entrevistados está separada de algum dos pais, e um quarto está longe dos dois (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Da Folhapress

VIÇOSA – A pandemia tem separado crianças venezuelanas imigrantes de seus pais e piorou a renda dessas famílias, trazendo dificuldades extras a um cenário que já era precário. Segundo um levantamento feito em abril e divulgado nesta semana, uma em cada três delas relatou que está indo dormir com fome.

O estudo foi feito pela ONG Visão Mundial com 363 crianças e adolescentes venezuelanos no Brasil, na Colômbia, no Equador, no Peru, na Bolívia e no Chile. Também foi ouvido um pequeno número que ainda vive na Venezuela.

Mais da metade (57,6%) dos entrevistados tinha menos de 11 anos, 32,8% estavam na faixa dos 11 aos 15, e 9,6%, dos 16 aos 18 anos. Quase 90% viviam em centros urbanos.

“Assim como outras crianças, elas sofreram uma disrupção da sua rotina, com a interrupção da escola, por exemplo”, diz Luis Corzo, gerente de resposta humanitária da Visão Mundial.

“Mas, além disso, têm que lidar com a separação dos pais, com a fome e a mudança para moradias precárias por causa da perda de renda dessas famílias. Isso as torna muito vulneráveis.”

Segundo ele, as dificuldades que apareceram no estudo são perceptíveis no dia a dia da organização, cujo trabalho foca a infância.

Estima-se que 5 milhões de venezuelanos tenham deixado o país até junho deste ano, dos quais 25% são crianças.

De acordo com o levantamento, um terço das crianças e adolescentes entrevistados está separada de algum dos pais, e um quarto está longe dos dois. O problema já ocorria antes da pandemia, mas foi agravado porque o fechamento das fronteiras em vários países impede a reunificação familiar.

Isso aconteceu tanto com os que moram perto da divisa e costumavam ir à Venezuela com frequência para levar comida para familiares quanto com os que migraram antes do restante da família e planejavam trazer os parentes neste período.

Segundo um relatório de 2019 da ONG Human Rights Watch, o agravamento da crise humanitária na Venezuela levou a um aumento da chegada ao Brasil de crianças e adolescentes desacompanhados. De 1º de maio a 21 de novembro, 529 passaram pelo posto na fronteira -41% deles, totalmente sozinhos.

“Muitas crianças estão morando com seus tios, avós ou com outras pessoas que não são da família. Sem os pais por perto, correm mais risco de serem submetidas à exploração e ao trabalho infantil, por exemplo”, diz Corzo.

As perguntas do estudo da Visão Mundial foram feitas diretamente às crianças, e elas podiam ter a ajuda dos responsáveis para responder a questões como as relacionadas aos rendimentos da família.

Mais de 80% disseram que essa renda piorou durante a pandemia, assim como o acesso à comida -o que é ainda mais grave porque, na infância, a desnutrição pode deixar marcas duradouras.

A maioria afirmou que a família toda está em casa durante a quarentena, mas 40,8% disseram que alguém sai para trabalhar fora. No Brasil, o número ultrapassa os 60%.

Mais de 60% tiveram que parar de ir à escola neste período, 34% disseram não ter acesso a serviços de saúde, e 20%, nem água e sabão para se precaver contra o coronavírus.

Pouco mais de 30% disseram que a pandemia gera algum tipo de discriminação, especialmente em relação aos venezuelanos.

A situação da moradia também se mostrou precária: 28% das crianças entrevistadas estão em risco de serem desalojadas por falta de pagamento do aluguel, 6,9% foram de fato despejadas e 10% tiveram que ir para um abrigo.

Atualmente, um quarto delas vive em ocupações informais (favelas, cortiços ou terrenos abandonados). Entre as que estão no Brasil, a proporção sobe para três quartos.

“No norte do país, muitas ocupações têm condições ainda piores do que as das favelas porque o adensamento é maior”, observa Corzo. “São muitas famílias morando juntas em situação precária. E neste momento muitas famílias foram desalojadas e tiveram que se juntar a outras nessas condições.”

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Assuntos coronavírus, crianças venezuelanas, fome, pandemia, venezuelanos
Redação 18 de junho de 2020
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