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Esporte

Coutinho vivia relação de amor e ódio com Pelé e queria ter seu valor reconhecido

12 de março de 2019 Esporte
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Coutinho
Coutinho, ex-jogador do Santos na década de 60, conhecido como o parceiro ideal de ataque de Pelé (Foto: Ricardo Nogueira/Folhapress)

Por Alex Sabino, da Folhapress

SÃO PAULO – Para o santista, a parceria Pelé-Coutinho era o equivalente a Lennon-McCartney do futebol. Um entendimento profissional perfeito que todos queriam acreditar também acontecer no pessoal. Não era verdade para os principais nomes dos Beatles. O mesmo valia para a dupla de ataque do maior time da história do futebol brasileiro.

Nos últimos anos de vida, Coutinho se reconciliou com a ideia de falar sobre Pelé e ser fotografado ao lado dele. Mas após pendurar as chuteiras de forma precoce, aos 27 anos, houve tempo em que não queria tocar no assunto. “Por favor, não me falem desse cara. Quero que ele se dane!”, explodiu em depoimento para a revista Placar em abril de 1987.

Juntos, eles anotaram 1.461 gols pelo Santos e conquistaram 19 títulos de expressão, sem contar torneios de tiro curto nas várias excursões para o exterior fizeram juntos. Ao voltar a morar em Santos e se acostumar a tomar cervejas no Bar do Alemão, quase todos os dias, em frente à Vila Belmiro, reconheceu o valor do parceiro com quem protagonizou trocas de passes que ficaram eternizadas como tabelinhas. “As pessoas falam de Neymar, Robinho, Messi, mas ninguém se compara ao ‘crioulo’. Não tem comparação”, disse, com seu lendário mau humor, quando perguntado sobre a possibilidade de alguém ter jogado mais que o Pelé.

A ranhetice era autêntica. Quando não gostava de algo, não disfarçava. Pouco importava que envolvesse homenagem ao time do Santos do qual fez parte. Pouco importava que envolvesse Pelé. Quando Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe foram homenageados com um mural na avenida Conselheiro Nébias, em Santos, em 2005, Pelé foi o último a chegar. Demorou tanto que irritou Coutinho. Ele e Dorval lideraram movimento para que todos os colegas de ataque do Rei do Futebol fossem embora e o deixassem sozinho.
“Se ele é o bom, deixa ficar com toda atenção”, resmungou.

Em 2013, a pedido da Folha de S.Paulo, aceitou fazer fotos no gramado da Vila Belmiro, acompanhado de Pelé, para comemorar os 50 anos do bicampeonato mundial santista. Estava tão bem que fez o que não costuma diante da imprensa: sorriu. Mas ao ganhar de presente a foto do lendário ataque perfilado, todos com mais de 60 anos, notou que o repórter, que havia produzido a matéria, também estava na fotografia. “Eu preferia que você não estivesse”, disse, sem qualquer cerimônia. A mesma que empregou para dizer, em 2014, antes da Copa do Mundo no Brasil, que Neymar era o cai-cai da seleção. “Ele parece que joga de patinete”.

O que incomodava Coutinho era não ser reconhecido pelo que foi. Um dos maiores atacantes da história do futebol mundial e de ter conseguido esse feito mesmo obrigado a parar de jogar aos 27 anos. Em um dia em que havia acordado com o pé esquerdo, perceber que as homenagens só aconteciam quando era citado ao lado de Pelé, o incomodava bastante. Tinha tanta consciência do seu valor que não tolerava nada que considerasse desaforo.

Ele achou uma desfeita ter sido convidado em cima da hora para a festa de centenário do Santos, em 2012. Chegou a dizer que não havia sido chamado pelo clube. Enquanto todos seus antigos companheiros, inclusive Pelé, se divertiam no salão de mármore do clube, o antigo camisa 9 estava no bar, a poucos metros do estádio. Sentado em cadeira de plástico, jogava tranca com amigos e bebia cerveja.

Ter ficado fora chamou mais a atenção do que se estivesse presente e o tornou centro das atenções.
Talvez até fosse essa a sua intenção. Da mesma forma que às vezes confirmava, outras negava jogar com um esparadrapo no pulso para que os narradores do rádio o diferenciassem de Pelé dentro de campo e não dessem ao camisa 10 os gols marcados pelo 9.

Foram jogadas tão brilhantes quanto a do dia em que idealizou uma pegadinha com Pelé, na década de 1960. Todos os jogadores do elenco do Santos, celebridades na cidade, tinham cartões de visitas com o logo do clube (“valia mais do que dinheiro”, chegou a definir Pepe). Coutinho abriu a carteira de Pelé, tirou alguns e distribuiu aos outros atletas. A ideia era colocar à prova a fama de pão-duro do camisa 10. O grupo se reuniu e foi junto para a casa do nome mais famoso do clube. Tocaram a campainha e disseram que o dono da residência os havia convidado para jantar. Como Pelé dizia não se lembrar do compromisso, eles mostraram o cartão com o nome Edson Arantes do Nascimento, para mostrar que o convite havia sido feito. “Tudo bem, podem entrar”, disse Pelé.

Ele tratou todos com educação, como se nada houvesse acontecido. Telefonou para um restaurante da região e pediu que fosse entregue jantar para 20 pessoas.”Era impossível dar a volta no negão. Ele era mais esperto que nós juntos”, constatou Coutinho. Pelé pediu o jantar fiado. E não pagou.

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Assuntos coutinho, Pelé, Seleção Brasileira
Redação 12 de março de 2019
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