
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Embora a idade seja um fator de risco que torna os idosos o grupo mais vulnerável à Covid-19, ter comorbidades faz com que pessoas de qualquer faixa etária sejam suscetíveis às complicações da doença, afirmam especialistas em saúde ouvidos pelo ATUAL. Segundo eles, o critério de comorbidade utilizado para priorizar grupos na vacinação é correto.
A médica infectologista Solange Dourado, da FMT (Fundação de Medicina Tropical), afirma que quanto maior a idade maior a tendência a apresentar comorbidades, mas o fator sozinho já favorece a evolução da doença.
“Ter comorbidade aumenta o risco individual de doença grave em praticamente qualquer faixa etária. Hipertensão, diabetes e doenças pulmonares, por exemplo, levam a alterações que são impactantes na evolução da infecção por Covid”, diz.

O médico infectologista Marcus Guerra, diretor da FMT, afirma que é feita uma análise de dados epidemiológicos (envolvendo muitas variáveis como composição demográfica), dados clínicos (para entender a severidade da doença), dados sorológicos (para verificar a situação de imunidade da população) e estudo genômico (para identificar a linhagem circulante e transmissibilidade e patogenicidade).
De acordo com Guerra, a partir disso foi constatado que as comorbidades têm levado a um número alto de internados com formas graves ocupando por longo tempo leitos de Covid-19, incluindo jovens.
“Foi verificado que as comorbidades tem contribuído com um número expressivo de hospitalizações com formas graves ocupando por longo tempo leitos de enfermaria e UTI, os jovens portadores de tais comorbidades têm sido as vítimas das formas graves por essa razão foi definido esse grupo para ser imunizado”, diz.

O médico infectologista Cláudio Rivero, da FMT, exemplifica isso. “Se quem tem 20 anos tiver uma série de problemas físicos no caso da obesidade e estiver enquadrado dentro da síndrome metabólica, certamente ele vai ser mais vulnerável se pegar uma doença tipo a Covid em relação a uma pessoa de 40 anos que esteja bem fisicamente”, diz.
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Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz Amazônia (Fundação Oswaldo Cruz), afirma que, com base nas estatísticas, o novo coronavírus é mais letal em idosos. Segundo ele, uma vez que esse grupo já foi imunizado nas primeiras fases da campanha de vacinação, o ideal é priorizar quem tem comorbidade, seguindo a faixa etária de forma decrescente.
“Essa estratégia, além de focar em grupos mais vulneráveis de acordo com o critério idade, facilita o processo de vacinação, já que se começa com uma parcela menor da população e não com esse grande volume de indivíduos (18-59 anos)”, diz.

A estratégia foi a adotada pela Semsa (Secretaria Municipal de Saúde), que abriu o cadastro para pessoas de 18 a 59 anos com comorbidades e anunciou para a próxima segunda-feira, 29, o início da vacinação para o grupo de 55 a 59 anos com cardiopatia, diabetes mellitus e obesidade mórbida.
Orellana afirma que em alguns casos, adultos mais jovens poderiam ser priorizados, mas o foco devem ser os mais velhos com comorbidades.
“Excepcionalmente, poderiam ser vacinados adultos mais jovens, de acordo com sua condição clínica e não simplesmente porque tem uma comorbidade, pois o risco de morrer é maior em um paciente com comorbidade de 59 anos do que um paciente com comorbidade de 20 anos, em geral”, diz.
Rivero cita exemplos de casos em que poderia haver prioridade na vacinação de pessoas mais novas.
“Pode ter uma pessoa de 20 anos que tem várias doenças, pode ter uma leucemia, estar tratando um câncer, um linfoma, essas doenças assim que deprimem a imunidade. Pode ser uma pessoa que teve um acidente, tirou o baço, que nasceu com alguma alteração imunológica. Essas também teriam que ter uma prioridade na vacinação, apesar de terem uma idade mais baixa”, diz.
Mas o infectologista também defende que a estratégia prioritária geral seja seguir a ordem decrescente, segundo a gravidade de cada comorbidade.
“Primeiro você tem que selecionar as pessoas, que tipo de comorbidade cada um tem, porque existem várias comorbidades. Pode ser que haja umas que tenha a necessidade de a pessoa se vacinar e pode ter outras que talvez não haja a necessidade de ela ser imunizada agora. O ideal é você vir baixando essa vacinação da idade para que você possa atingir cada vez mais as pessoas mais vulneráveis, que são as de maior idade”, afirma.
Dados do painel de monitoramento da Covid-19 no site da FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) mostram que as faixas etárias de 20 a 59 anos respondem pela maior parte dos casos da doença no estado registrados até o momento. Enquanto que os de 60 anos ou mais são a maioria dos óbitos.


Porém, os números indicam também que naqueles que têm até 60 anos, comorbidades como a obesidade tiveram maior influência nas mortes pelo novo coronavírus.

